Faz tempo que não escrevo uma resenha...
Não lembro de ter lido algo da Ana Paula Maia e não gostado - e olhe que sou leitor dela desde o blog, chegamos até a trocar e-mails.
Não posso dizer isso de Assim na terra como embaixo da terra. Há uma mistura de gêneros que combina bem com a escrita dela - crítica social, distopia sci-fi, sobrevivência do mais forte, mas, de repente: romance de formação?.
A trama é simples: prisioneiros perigosos foram levados por algum motivo a uma colônia penal que, no momento dos acontecimentos principais da obra, está sem comunicação com o mundo externo, possui uma muralha de seis (ou cinco, não lembro) metros de altura por dois de largura cercando a propriedade, com arames farpados eletrificados no cume, e cujos detentos estão desaparecendo. O diretor do local, Melquíades, espera um Oficial de Justiça chegar para o local ser fechado. Os presos que sobraram querem, evidentemente, escapar.
Nos livros de Ana Paula sempre há algo relacionado a animais, e me surpreendi quando, lá no final, alguém faz um questionamento que me fiz no início. Dei uma boa gargalhada, pois parece que ela fez isso de propósito pra nós, leitores.
Sim, e por que não gostei? Há momentos de excelentes reflexões que podiam ter partido dos personagens, mas, em muitos dos trechos, coisas ditas ou acontecimentos que se desenrolam são antecipados por ela no parágrafo antecedente. Isso cortou o clima da leitura por umas duas vezes. Em um determinado momento em que Melquíades estava fazendo algo, ela usa, em um ou dois parágrafos, uma linguagem rebuscada que não condiz nem com a situação nem com o personagem. Apesar de ele apresentar uma característica ímpar no local, e talvez exacerbada pela geografia (sem spoilers), em nenhum momento demonstrou qualquer elitismo no falar.
A presença ausente do Oficial de Justiça parece servir de catalisador para alguns acontecimentos. Essa sombra é um personagem por si só (tropo meio cliché, mas funciona) e, lá no final, temos uma resposta que nos mostra como a angústia que brota dos muros e da terra da colônia é outra sombra que contamina os homens lá confinados, tanto os presos quanto os servidores.
Gostei muito de "rever" Bronco Gil, personagem que apareceu no abatedouro de Milo no livro anterior (o excelente De gados e homens). A autora deu um destaque a ele, falou sobre seu passado... Você percebe o quanto ela deve ter gostado de escrever esses flashbacks, mas, para mim, não funcionaram. Gil é um mestiço indígena com um olho de vidro, um corpanzil e que sabe bem o que faz e o porquê o faz. Essa visitação ao passado confirma o que eu já sabia, a violência a que foi submetido, mas vai além, à violência que ele também começa a causar. Isso para mim teve o gosto de conhecer o passado de Hannibal Lecter (guardadas as devidas proporções): desnecessário, Thomas Harris.
O final é interessante porque ela nos mostra que até algumas coisas que tínhamos como certo caem por terra, ou dentro da terra, já que, lá no início, não é a narradora que enuncia, mas um personagem. Well played.
Ainda assim, o gosto que ficou foi um amargor que demorou a se dissipar.
