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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Impressões sangrentas sobre Seja Imortal, de Frederico Toscano



Fazia tempos que eu procurava um livro sobre/com vampiros que não se prendesse às questões melancólicas, às formas de sua destruição, ao sangue dos e das virgens - enfim, que fugisse aos clichês. Há sim essas questões, mas elas são menor ao enredo de Seja Imortal (Frederico Toscano, edição digital do autor) e são, ainda assim, constitutivas dele.

Não que Seja Imortal não nos traga uma familiaridade com o mito e suas diversas lendas, mas, se você procura os vampiros de Anne Rice, John Carpenter e Bram Stoker, vá diretamente nessas fontes. Os vampiros de Frederico Toscano estão mais próximos, para mim, dos de Stephen King em Salem's Lot (pela natureza), também presentes na saga A Torre Negra (em que há também uma questão corporativa).

Como suportar o jugo de viver para sempre, mas sem hormônios para regular nosso corpo, tendo de fugir do sol, de turbas ensandecidas etc. Bom, isso aqui não é um ensaio, mas vamos lá.

O livro conta a história de Eudora, mulher negra, portadora de deficiência física, e um gênio no seu campo de trabalho. Enquanto progride na carreira, chama atenção dos executivos vampirescos de uma empresa milenar que se instalou no Brasil - lugar, aliás, em que os imortais resolveram se revelar ao mundo. De sua cultura, eles trouxeram nomes, históricos ou não, lastreados na Grécia Antiga e até mesmo em mitos ainda mais antigos.

Voltando à natureza vampiresca, é impressionante como Frederico Toscano conseguiu nos mostrar diversas agendas dos vampiros e, no final, a síntese de todas elas, uma apoteose que volta ao início, como o dragão mordendo a própria cauda (mordendo de verdade, no pun intended) - mas deixarei para o leitor chegar nesse ponto.

O livro é imenso, super bem escrito, muito bem pesquisado (bom, o autor é mestre e doutor em História, convenhamos) e vai revelar ao leitor belas surpresas. Pra mim, houve aquele impacto de não querer largar o livro, mas, como tenho outras leituras, o momento de ler Seja Imortal geralmente era após às 22h, na cama, o ambiente escuro... Seja Corajoso hehehe.

O livro fala de abusos. Abusos políticos, individuais, coletivos. Fala de um país fraturado e dominado pela elite financeira. Fala também de resistência, independentemente do poder das elites. É um convite para a ação em meio à opressão. Senti ecos de leituras minhas anteriores: 1984, Admirável Mundo Novo (Soma neste; Ambrosia e o Elixir em Seja Imortal); A Rainha dos Condenados (da Anne Rice, mas ruim), Fahrenheit 451, e até de Assassin's Creed Odissey (só quem se apaixonou por Kassandra e sua jornada sabe...).

Bom, espero que venham continuações ou outras histórias no mesmo universo. Serão muito bem vindas.


* O livro é uma edição do autor, então possui pequenos erros que não passariam em uma revisão, mas nada que comprometa a leitura. Quero que essa obra caia logo no radar das editoras, merece muito uma edição física.

sábado, 6 de novembro de 2021

"(...) a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção."



Como me restringir a apenas "impressões", como usualmente epigrafo meus textos neste blog?

Virginia Woolf traça não apenas o curso da, até então -- 1928, porém ainda persistente -- situação de submissão em que as mulheres são enquadradas nas sociedades patriarcais (estas como aquelas a cujo acesso ao poder econômico, familiar, religioso e social é dos homens -- não chega nem a ser retirado das mulheres, elas nunca o haviam tido).

Woolf apresentou, tendo como pano de fundo o acesso das mulheres inglesas à escrita (de romances, peças teatrais, poemas etc.), como a sociedade patriarcal é moldada para que as mulheres permaneçam nos serviços domésticos, de cozinha e sempre disponíveis às ordens dos homens; quando não deles, de outras mulheres mais velhas que perpetuam com seus comandos essa condição.

Ela então nos conta a saga das mulheres para receberem educação superior na Inglaterra, o fato de não haver bolsas para custeio e manutenção das faculdades, e em como é importante, material e simbolicamente, ter dinheiro e um teto todo seu para que as mulheres possam garantir a independência necessária a se dedicarem a uma atividade intelectual. Isso não quer dizer que a mulher não possa, caso queira, optar por atividades caseiras, à simples contemplação das coisas de seu ambiente. Ela exorta algo assim: "Deixar de ter filhos? Não, mas que tenhamos dois ou três, e não dez ou treze".

A partir disso, ela nos demonstra que a possibilidade de a mulher inglesa escrever parte da necessidade econômica, quando os homens viram que a mulher poderia ajudar nas despesas da casa -- tudo isso graças a Aphra Behn, poetisa e dramaturga do séc. XVII, a qual, após a morte prematura do esposo, teve de sustentar a sua família com suas produções literárias. Então que ela escrevesse textos para jornais, peças teatrais etc. Mas, até o século XIX, com todos os gêneros literários dominados e moldados por homens, restou às mulheres serem mestras no "romance" (novel no original, e ela brinca com a mesma origem etimológica da palavra, em inglês, à "novidade" -- novelty).

Daí surgiram "as quatro grandes romancistas" em língua inglesa dessa época: George Eliot, as irmãs Brontë e Jane Austen, e só depois da época delas, e já no início do século XX, as mulheres puderam ter uma participação intelectual maior em livros de biografia, científicos, de relatos de viagens etc.

Woolf, que havia herdado há poucos anos (em 1919, se não me engano, mesmo ano da liberação para as mulheres votarem na Inglaterra) uma pequena pensão de uma tia, desperta nas mulheres a consciência de que apenas com sua independência é que ela poderia se integrar ao masculino, e que apenas um homem com uma alma feminina poderia se integrar ao aspecto feminino do mundo. Há um quê de psicológico nisso, e, como ela própria indica, de forma bem diletante ela fala do  ideal de andrógino a partir de Samuel Taylor Coleridge, da união dos opostos na mente do homem e da mulher; em como, talvez, Shakespeare tenha conseguido isso, mas que isso não deveria, de modo algum, impedir as conquistas e lutas das mulheres, mas sim fazer com que os homens deixassem de usar como argumento a fragilidade do sexo feminino.

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Estou numa reading spree de Virginia Woolf. Ainda há outros aqui comigo para leitura, e o próximo será Orlando (talvez nesse romance ela tenha ilustrado o pensamento contido nos ensaios: a vida de Orlando desde o fim do século XVI ao início do século XX; de seu início como um homem colérico e conquistador; sua androginia, e a bissexualidade da própria VW, e a maturidade atingida quando se é mulher, casada e com filho). 

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Virginia Woolf

Um Teto Todo Seu, 141 p.

Tradução de Vera Ribeiro

Apresentação por Ana Maria Machado

Ed. Kindle

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Futuro do possível - Impressões sobre The Peripheral, de William Gibson

* Revisão da postagem após leitura da versão em português:

Periféricos, ed. Aleph, traduzido por Ludmila Hashimoto; 520 páginas.


Esse exercício ficcional de futurologia de William Gibson foi publicado em 2014. Fala em quase todas as mazelas que estamos vivendo, e provocadas por nós. Fala até em pandemia(s).

O livro é muito bom. É no futuro, e tem um futuro do futuro, após uma extinção em massa. A "viagem no tempo", se podemos nos referir a isso, é de informação. Dados, e com isso, manipulação. No futuro, em uma cleptocracia, filhinhos de papai se divertem jogando com o passado, alterando uma continuidade para se divertirem. Cada um em seu próprio braço temporal. Até que Flynne, a protagonista, testemunha algo, no futuro, que não deveria, então outros jogadores anônimos invadem o braço temporal dela, e daí a trama avança.

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A escrita de Gibson é um pouco opaca, você vai descobrindo as coisas, a geografia etc, à medida que vai lendo, o que acho bem legal, apesar de uma desorientação no início. Só tinha lido três livros dele antes e alguns contos, então a maneira de ele compor me retornou aos poucos.

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Cada personagem tem um sabor especial, e ele sabe manter essa constância. Temos dois pdv narrativos. O de Flynne no nosso futuro e o de Wilf Netherton, em uma Londres no futuro dela. Netherton é basicamente responsável por Flynne ter visto o que não deveria ter visto, mas não darei spoilers.

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Um dos aspectos de que gosto das obras do William Gibson - pela congruência em seu opus - é que ele não vislumbra um possível temporal e sim um tempo possível; não é um possível futuro e sim um futuro de possibilidades a partir do presente em que ele escreve.

Por exemplo, em um determinado momento do livro, no futuro do futuro, um personagem menciona que os Estados Unidos chegaram a ser governados por uma junta militar após um golpe, e que esse grupo fez uma devassa nos documentos e registros da população; isso me lembrou muito O Conto da Aia, de Margareth Atwood, fruto também de um futuro do possível na época em que ela escreveu sua obra.

The Peripheral não traz apenas um futuro possível, mas dois. Um deles é ainda no século XX, a presidente dos EUA é uma mulher latina, e a Homeland Security (sim, de Carrie Mathison) patrulha o país e controla as demais agências federais, com constantes intervenções. Em uma Buttholevillage mora Flynne Fisher, uma libélula dos games que de vez em quando substitui seu irmão Burton em freelas relativos a testes de jogos etc.

Em uma dessas substituições (sub no jargão da época), Flynne testa um sistema de segurança em uma paisagem urbana estéril, fruto de uma IA, na qual um prédio parece ter vida própria e estar em constante sussurro.

Ela acaba vendo um macabro assassinato e vários glitches no jogo.

Setenta anos depois, já no século XXII - após um acontecimento apocalíptico chamado The Jackpot, em que 80% da população do mundo foi exterminada, "Sorte Grande" - encontramos Wilf Netherton, um publicitário. Ele vive em um mundo controlado por uma cleptocracia inglesa em constante competição com a China, e em que os EUA tem sua influência mitigada, mas ainda age como patrulheiro no mundo. Netherton em conjunto com Rainey - uma publicitária canadense que trabalha para o governo - prestam serviço de consultoria para Daedra West, uma celebridade performer cuja influência a leva a servir, também, como adida cultural para os EUA. Em um ponto no meio do Pacífico - o que seria hoje aquele imenso bolsão de lixo plástico - ela vai se encontrar com o líder de um grupo pós-humanos deformados e que usam o material - polímeros etc - para modificações corporais (chamados de The Patchers), mas algo dá errado e, após ela matar o líder dessas pessoas - um cara com cabeça que parece a de um sapo e dois pênis - o sistema automático de defesa e proteção dela (androides) entra em ação e extermina todos os que estavam nesse bolsão.

O interessante desse futuro, e de como surgiu, é que o Jackpot não foi uma hecatombe nuclear nem provocado pela queda de um meteorito ou algo assim, mas um acontecimento gradual, que já estava ocorrendo desde a época de Flynne, e teve relação com problemas ambientais, pandemias, como já dito, proxy-wars etc. 

A partir do aparente fiasco com Daedra, o futuro do nosso presente de Flynne converge com o futuro do futuro de Netherton. Não entrarei em detalhes aqui para não estragar a leitura. Digo, porém, que o mundo de Flynne, construído por Gibson, já é uma distopia mitigada do nosso presente. Nele as impressoras 3D são a mola mestra da tecnologia e para a vida privada - usadas para fabricação de alimentos até drogas - e, em larga medida, a economia local depende muito da produção das drogas. 

O irmão de Flyyne, Burton, é um veterano de uma unidade chamada Háptica, relativa a sensação tátil, e foi submetido a modificações subcutâneas para poder combater em sua unidade especial. Essa alteração corporal acabou por acarretar problemas neuronais nele, e isso fez com que ele fosse dispensado. Não que ele tenha ficado inválido, pelo contrário, ele é o líder de seu próprio bando (posse em inglês, algo que remete aos bandos do velho oeste). Uma das "atividades" em que ele está envolvido é tentar desbaratar protestos silenciosos de uma igreja (mais para grupo ou seita) chamada Lucas 4:5 - "Então o Diabo o levou a um lugar muito alto e lhe mostrou, em uma fração de tempo, todos os reinos do mundo" (versão do Rei James atualizada).

No livro, essa seita e outros acontecimentos a partir do contato temporal, leva menção, por parte do autor, a questões legais tanto de Direitos Humanos quanto de Direito Corporativo, as quais, apesar de superficialmente narradas, estão sempre presentes em nossas vidas.

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Os personagens que aparecem são bem interessantes, e aqui destaco alguns: Conner, melhor amigo de Burton e também veterano que perdeu boa parte do corpo, mas que não perdeu a razão e a força de viver; Madison e Janice, amigos de Flynne, casal gente boa que parece receber informações sobre tudo, mas não se abala; Ash e Ossian, dupla de especialistas em TI no futuro que servem como trouble shooters e mais para Lev, este vindo de uma família russoanglicana e um dos responsáveis pelo contato entre o futuro e o passado; Macon e Edward, technoboys que implementam toda a questão tecnológica no passado para possibilitar a comunicação com o futuro; ainda no passado, o meticuloso agente secreto Gryffyd, o qual usa os recursos e informações enviados do futuro para ajudar Flynne e Burton a resolverem, no futuro, a situação que Flynne viu no jogo testado no início do livro; Lowbeer e Clovis - e aqui não falo mais sobre estas personagens porque perderá a graça.

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Algo que me deixou ressabiado foi o uso da tecnologia de contato entre o presente e o futuro. No livro fica claro que, a partir desse contato, o presente de Flynne já não será mais o futuro de Netherton, o que é bem congruente, mas nada se explica quanto à tecnologia envolvida no processo. Até entendo. Como disse o professor e escritor Fábio Fernandes, Gibson escreve soft sci-fi e, de acordo com o desenrolar da trama, vemos um narrador em terceira pessoa que enxerga através dos olhos de Flynne e de Netherton, então apenas somos informados do que eles sabem.

O legal da viagem no tempo, na obra, é que o que viaja não são corpos humanos nem objetos, mas informação.

Além dessa tecnologia, a além da tecnologia no futuro de Flynne, é bem interessante a forma como Gibson imaginou o uso da medicina, da tecnologia de invisibilidade de materiais em veículos terrestres e uniformes militares (já aplicada hoje pelos EUA em sua aeronáutica).

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Gostei muito da alternância de capítulos entre o futuro do nosso presente e o futuro do futuro. Ambientei-me após o capítulo 15 (de 124) então consegui avançar sem percalços depois. Quando li a versão em português, não houve incômodo em relação a isso.

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Há cenas meio líricas, poéticas, quando vistas do ponto de vista de Flynne, que é muito ligada à família, mas, diferentemente de como muitos jovens do interior são retratados em obras americanas, ela não quer largar tudo e ir para a cidade grande, mas sim viver um amor, trabalhar, jogar, divertir-se. As mudanças em sua vida, após a comunicação com o futuro, são drásticas - aliás, a comunicação afeta o país todo. 

Em uma bela reflexão, Flynne percebe como o contato com o futuro a tirou de sua vida de pegar a bicicleta e ir ao bar, conversar com amigos, comer no Sushi Barn (isso, Celeiro Sushi, quase um oxímoro), mas em determinado momento, Netherton pensa sobre como Flynne lida com isso: "Ela tinha um jeito de simplesmente ir em frente".

(Nessa questão a tradução peca, por não conseguir captar o pouco de lirismo que o livro tem. Ficou algo meio sem sabor, mas a equivalência em português foi bem competente).

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Netherton, após o fiasco da visita de Daedra ao bolsão no pacífico, fica sem emprego e, na Inglaterra, procura refúgio com Lev, a fim de entender as consequências dos atos de sua cliente e espairecer. Ele é um alcoólatra e meio que não liga para muita coisa, mas permanecer vivo e bem é uma de suas prioridades, de preferência com um uísque triplo em mãos. O contato com o passado, porém, o modifica bastante. Penso que ele sim foi o personagem que mais evoluiu psicologicamente, não apenas por como ele lidou com a situação, mas pelo exemplo que recebeu dos que estavam a seu redor - especialmente Flynne. 

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As obras de Gibson muitas vezes nos mostram uma vida privada que tangencia a coisa pública, mas que, quando há um atravessamento de uma pela outra, geralmente é com som, fúria e ressentimento. Isso não quer dizer que o futuro, mesmo sombrio, não deva ser vivido, ainda que não concretizado da forma como esperamos. Assim como o tempo, devemos seguir: avante.

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A capa do livro aqui exibida é de uma nova edição, publicada após o lançamento do segundo livro (Agency) da agora série The Peripheral. 



O "periférico" do título é justamente uma analogia Cyberpunk aos periféricos de computadores, mas que servem, no futuro, para as pessoas usarem para estarem em outros locais, caso não possam ir fisicamente. São uma gama que vai de homúnculos para operar máquinas a trogloditas-guarda-costas-pé-de-valsa.

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Vai aqui a capa da versão pt-br:



Dados técnicos:

The Peripheral , de William Gibson

(The Peripheral #1)

Putnam Ed. (Penguin), 2014.

485 páginas.


domingo, 4 de outubro de 2020

Sagrado e Profano - impressões sobre a Trilogia dos Brutos, de Ana Paula Maia

 Gosto das histórias de Ana Paula Maia. Talvez porque elas habitem o mesmo imaginário em que em mim habitam as histórias de samurais, cangaceiros e westerns. 

Um ambiente crepuscular entre a ordem e o caos, em que mais vale a honra do que a lei e em que, em alguns casos, a honra é a lei.

A ordem social, a figura do direito público e suas normas de conduta existem em todas esses cenários, mas quase sempre à margem. O exercício unilateral das próprias razões, mediado pela imposição da própria força é o que prevalece. Os dados rolam e a vida segue seu caminho. Mas grandes obras e grandes histórias apenas são possíveis com a lente privilegiada de uma autoria.  Ana Paula Maia escolheu a dedo seus protagonistas e foi pinçar fatos da vida em que aparentes tragédias são motivo ou consequência dos acontecimentos.


Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos

Já havia lido esse livro, creio que há uns dez anos.

A releitura foi uma oportunidade de entrar em contato novamente com a obra dessa super talentosa autora, e me descobrir um leitor mais maduro e exigente. O livro é um bom ponto de contato com a obra de Maia, pois ela escrevera outros dois textos anteriores — se não me engano (ainda não os li). 

Como tentei dizer, é obra de uma escritora em maturação, e em alguns momentos o narrador solta frases desnecessárias quando poderia mostrar o dito em ação ou mesmo omitir determinada sequência.

A poesia existe na vida desses homens limitados pela falta de oportunidades e que se movem com um senso de sobrevivência em meio à hegemonia dos outros. Quando há sonhos de algo além do que vivem, é uma visão trazida à beira da morte - "vá ver a neve" - ou ao se olhar para o céu, cujas nuvens poderiam até mesmo ser cortadas por um facão. 

Nesta passagem, Ana Paula Maia é de um lirismo assombroso:

"Às vezes, até as estrelas parecem fazer sombra. Mesmo mortas, insistem em ofuscar com seu insistente senso de infinito. E ao pensar nas estrelas, às vezes ele gostaria de ter uma escadaria para o céu. Para apagá-las com um sopro."

E, para esses homens, abandonados pelo mundo, a vida é mesmo um rápido estertor.

O que Gerson e Edgar Wilson, abatedores de porcos, não têm de "sociabilidade", ou a têm limitadamente, é compensado com quase um bromance de brutos, e uma contemplação de "fim de dia", mas que, em alguns momentos — e na soma desses momentos — mostra-se em demasia. Não chega a ser fastidioso, porque as imagens "captadas" por Ana é da alma dos seus personagens, e a coerência e o estilo são marcantes.


Na novela O Trabalho Sujo dos Outros, há uma aproximação ao que Bauman definiu como "a sociedade do descarte", pois vivemos para consumir, mas desde que haja uma obsolescência programada geral — das coisas, mas das pessoas também. Erasmo Wagner faz um dos trabalhos mais importantes para a sociedade urbana, e isso é bem marcante na história, ele tem consciência disso, apesar de sua melancolia; acredito que esse estado depressivo do personagem foi resultado do encontro do seu desejo por mais com a situação de miséria e apagamento na qual ele e seus colegas vivem.


Carvão Animal

Encontrei os opostos nesse texto de Ana Paula Maia, romance que encerra a trilogia dos brutos.

Na obra o fogo, e o carvão, produto de queima, é uma excelente metáfora para a vida e para a morte, e as histórias do romance são alegorias dessa jornada.

Os cenários do livro todos têm relação com o fogo: Corpo de Bombeiros, uma olaria, uma carvoaria, um crematório, uma mina de carvão que explode.

O único lugar que parece não queimar é a casa do bombeiro Ernesto Wesley, mas aí queima sim: o rancor pela morte da filha causado por um irmão que está preso; a raiva que a vizinha sente da cadela Jocasta; o calor de uma compostagem caseira etc.

No crematório "(o) carteado é religioso", um profano sagrado em meio a um mecânico e demorado ritual de cremação em uma funerária. Aqui há o verniz do respeito com os parentes dos mortos, que lançam parte das cinzas ao pé de roseiras bem cuidadas, enquanto que as sobras e cinzas não reclamadas são descartadas em um matagal que margeia a parte de trás da funerária, em meio à imundície acumulada e bichos oportunistas.

Palmiro, Ronivon (irmão de Ernesto Wesley), Geverson, Aparício, o coveiro, e JG trabalham em uma funerária especializada em cremação de corpos. São pessoas que, em bela síntese da autora, esperam pelos mortos para a vida prosseguir.

A gama de personagens de Ana Paula Maia, assim como "a maioria dos homens(,) é moldada a concreto. São duros feito rocha. Inquebrantáveis de espírito, torpes" (Carvão Animal, l. 1243)

Gosto do nome dos heróis de Ana Paula Maia - se bem que os chamar assim é um desrespeito à jornada deles: Edgar Wilson, Ernesto Wesley e Erasmo Wagner. Todos E W. Sim, tem um motivo, e conheço pelo menos o do primeiro: Edgar (Allan Poe) Wilson (do conto de Poe, William Wilson).


A autora não reduz a história a um determinismo naturalista, mas não nega a influência do meio - assim como eu também, como leitor, não a nego.


Peguei essa foto da Ilustríssima, em artigo de Joca Rainers Terron o qual li após a escrita dessas impressões; recomendo fortemente a leitura, pois nos fala da repercussão internacional da obra da autora e da vanguarda da sua literatura; ainda não li os publicados depois da trilogia aqui enfrentada, "mas vos digo, caso não saibais" - ela foi vencedora por duas vezes do Prêmio São Paulo de literatura, em 2018 e em 2019; antes de passar para a leitura dessas obras premiadas, quero ler "A Guerra dos Bastardos", de 2007 e "De Gado e Homens", de 2013 (há um ainda anterior - "O Habitante das Falhas Subterrâneas", de 2003, mas esgotado). Segue AQUI o link para o artigo do Joca Terron







quarta-feira, 6 de maio de 2020

Impressões sobre ASSOCIAÇÃO ROBERT WALSER PARA SÓSIAS ANÔNIMOS

ASSOCIAÇÃO ROBERT WALSER PARA SÓSIAS ANÔNIMOS

CEPE
226 p.
2015
Lido no Kindle

O primeiro romance do autor Tadeu Sarmento é contado em duas frentes, digamos assim. Uma na cidade paraguaia de Nueva Königsberg, e a outra dentro de um clube - a associação - para sósias.

A associação lembra mais - tanto pelo tom do texto como pelas práticas adotadas pelo sósia Hussein - um espaço para desintoxicação, algo como um "narcóticos anônimos". O sósia  do filho do ditador, cujas práticas mais remetem às de um professor em um acampamento, tenta levar os demais membros a práticas capazes de fazerem com que eles retornem a suas identidades originais - ou assim parece ser.
Achei isso genial - um sósia que se apaga de si mesmo.
Nesse momento da narrativa - em relação ao tempo cronológico, mesmo - a história é contada em primeira pessoa por um sósia que apenas se deixou tornar (como o escritor apagado, que lembra a Chiquinha do Chaves, com seu bigodinho abrilhantado por manteiga) o próprio Robert Walser - prolífico, mas esquecido pela posteridade - porque se apaixonou por uma garota que viu em um sebo, e se deixou levar pela ideia de desaparecer e tomar o lugar do escritor cujos livros ela buscava com tanta intensidade...



Em outro momento e espaço geográfico, mas sob um calor danado, vemos a chegada do filósofo Jean-Baptiste Botul à também fictícia Nueva Königsberg, no Paraguai, a qual abriga sósias de Kant - e estes fazem sua notória promenade sempre às 14h, faça chuva ou faça sol. Esse trecho do livro se passa na década de 60 do século XX, momento de intensa caçada a nazistas no cone sul, e Botul vai à cidade não apenas como um filósofo que faria conferências, mas também como um aparente caçador de nazistas.
Esse cenário da obra foi o que mais gostei. Aqui a história é contada em terceira pessoa, e captei aqui um misto de gêneros: das narrativas de fantasia quando o grupo de heróis entra em uma taverna, das histórias de caçadores de recompensa - modernas ou de faroeste - e do simples discutir filosófico sobre a vida. 
Um exemplo e uma síntese do que acima menciono é quando Sobol, em Nueva Königsberg, ao experimentar uma cerveja recém produzida, ao mesmo tempo sente raiva ao elucubrar sobre atos homicidas - ou seriam heroicos? De repente ele percebe que a cerveja não estava boa o suficiente para enviar para "A Coruja de Minerva" - a tal da taverna (mais uma estalagem). Ela havia azedado, concluiu o mestre-cervejeiro. Foi um boa mostra de como nossa percepção de mundo é temperada pelas nossas emoções.

A associação, por seu turno, possui muitos diálogos nos quais os personagens soltam frases de efeito praticamente toda vez em que aparecem - em especial Mark (sim, o Chapman). Há passagens geniais, ainda assim: a relação entre Mark e Lennon, que fingem não se incomodar, mas nunca estão no mesmo cômodo ao mesmo tempo; o aparecimento de sósias de badalados famosos que logo vão embora porque o local não era o ambiente festivo e de flerte que imaginaram; as elucubrações do narrador sobre a garota e sobre o que o levou a estar ali, e se seria possível retornar a(o) que(m) era.

Outra coisa que me incomodou foi que a narração em primeira pessoa tem uma sintaxe e performance muito aproximada da fala dos personagens que estão na associação, e até mesmo o tom dos diálogos é bem parecido, pois as frases de efeitos não são ditas apenas pelo sósia Mark. Antes fosse estilo indireto livre, mas isso permeia diversas falas, como mencionei. Creio que essa caricatura tenha sido proposital até determinado ponto, contudo a linha do exagero foi ultrapassada.

Quanto à narrativa, um dos capítulos de que mais gostei foi "o coração machucado como um pêssego, no qual o autor nos mostra como se perder na própria vida, sem chance de ser redescoberto e sem esperanças de que alguém peça resgate. Nesse capítulo o autor faz um paralelo entre a vida do sósia de Udai Hussein e determinadas escolhas que (se) faz(emos) na vida. Aqui fica claro para mim como podemos agir de forma neurótica para agradarmos alguém aquela parcela de nossa alma que quer agradar alguém. Solidão, carência, ambição, falso-amor... Quando não somos nós mesmos, e observando as escolhas em retrospectiva, o que de memória ainda queremos preservar?

Algo de que também gostei, e com a qual me identifiquei, por ser fã deste autor, é que a história tem um pouco dos absurdos e dos questionamentos existenciais trazidos nos livros do Enrique Vila-Matas (por falar nele, estou me devendo ler a coleção de contos Vampire in Love - reunião de contos em uma edição inglesa -, o romance Mac e seu Contratempo - pela Cia das Letras em 2018 - e Não há lugar para lógica em Kassel - pela ausente Kosac&Naify em 2015).

Vou poupá-los dos spoilers pesados, mas vou dizer que: Saddam não é quem parece ser, as linhas narrativas têm uma convergência, Lennon e Chapman têm novamente um encontro mortal.

Esse é o primeiro romance publicado de Tadeu Sarmento. Vale a leitura.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Meu primeiro Dostoyevsky

O primeiro Dostoyevsky a gente não esquece. 
Tô seguindo uma lista de leitura recomendada e vou dar continuidade, porque senti a força da escrita do autor russo, mesmo julgando um pouco pueril esse flerte dele com o Romantismo.


Esse livro foi escrito um ano antes de sua prisão e quase morte por fuzilamento. E ele ainda passou dez anos em degredo. Quero ler seus livros dessa fase, óbvio.

Noites Brancas é uma novela, os personagens aparecem em um determinado ponto e são largados em outro ponto. A estrutura é de uma peça teatral, e com um pé no fantástico - antropomorfização de coisas e bichos. 
Há também um pé no romântico, e os diálogos são um pouco caricatos - tudo é arrebatador pro coração perdido... Não quero dizer com isso que não seja bem escrito, pelo contrário! Dostoyevsky demonstra sua força em construir belas imagens, tanto da alma humana quanto da paisagem em que se encontra o narrador, o Sonhador.

E quanto ao Sonhador, apesar de haver uma vela acesa ao Romantismo aqui, são belíssimas as passagens relativas à sua solidão e sua vontade de compartilhar os momentos vividos e a beleza do seu olhar em relação ao próximo e à cidade que o cerca - a tristeza da cidade também, visto de observada sob a influência dos humores do Sonhador.

(Lido no Kindle, ed. Penguin - Cia das Letras; tradução de Rubens Figueiredo)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O Palácio de Inverno

O palácio de inverno.
Narrado em duas frentes temporais: do passado ao presente e do presente ao passado, com capítulos alternados.
A história é bem contada, especialmente quando narra do presente ao passado.

Não vou dar spoilers, apenas dizer que se trata de um relato em primeira pessoa sobre um casal que fugiu da Rússia pós Romanov e foi parar na Inglaterra. 
Há cenas belíssimas, de uma profundidade no caráter dos personagens; as mentiras que vamos descobrindo como leitores; os sentimentos revelados nos atos.
A relação do casal com o neto, com a filha, momentos de crise no relacionamento; a participação da mulher na economia; o período entreguerras e o colaboracionismo do narrador (ficou muito massa essa abordagem), tudo isso nos mostra que o cotidiano dá um baita caldo literário...

Mas algo me incomoda no tipo de enredo que ele escolheu: os personagens não carregam a história, e sim são definidos pelo que o autor pretendeu, como se fosse um romance histórico. 
No meio do livro eu já sabia sobre dois acontecimentos cruciais - ambos históricos - em que os personagens principais estavam envolvidos. O leitmotiv do livro achei muito bom, afinal é o que dá o início à narrativa, mas no segundo era totalmente dispensável a participação de Geórgui Jechmenev, o narrador.
Ficou a sensação de clichê e de que o autor forçou a barra para pôr Geórgui em determinado local e em determinado momento.

Boyne usa por vezes um vocabulário desconhecido por mim, assim eu aprendi mais... Isso se deve ao fato de que o protagonista, Geórgui, ficou apaixonado por livros quando entrou em uma biblioteca palaciana e, na Inglaterra, seu emprego foi ser justamente bibliotecário.
O que mais me fascinou em Geórgui não foi seu vocabulário, tá, pedante basta eu hehehe - e o que é mérito de John Boyne - e sim em como o autor utilizou a regressão temporal para nos mostrar como o personagem ganhou as cicatrizes - físicas e mentais - que conhecemos de antemão.   

Bom e enfim: esse é o primeiro livro que leio do autor, e ficou a sensação de que ele é um escritor que se repete nos plot twists (vi o filme de O Menino do Pijama Listrado), mas não negaria a leitura de outro livro dele. 



domingo, 13 de outubro de 2019

Legado Lovecraftiano

Ainda sou muito stephenkingiano (apesar de não ter lido nem um terço das obras deste), mas tenho me aventurado cada vez mais no universo lovecraftiano, e busco isso agora de uma maneira transmidiática, mas isso são outros quinhentos.

Busco, também, autores que trazem essa influência de Lovecreft em sua obra e os seus contemporâneos, com quem ele chegou até a se corresponder, como Algernon Blackwood e Clark Ashton Smith


Dos nossos contemporâneos, gosto muito do Victor Lavalle, de quem já falei um pouco, mas agora tenho buscado obras, por sugestão de leitores americanos, do Thomas Ligotti

Enquanto garimpava títulos desse autor, me deparei com este de não ficção: The Conspiracy Against the Human Race, no qual ele quer nos falar sobre horrores tão reais que parecem ficção.

Para quem compreende ingês, vai aqui um pouco sobre a obra: 




domingo, 6 de janeiro de 2019

Encarcerados



Comecei a ler o romance de sci-fi do John Scalzi (autor do excelente Guerra do Velho) com a esperança de que não fosse apenas uma história que falasse da relação de robôs conscientes e humanos.

Os "Encarcerados" do título não são simples robôs, mas sim humanos acometidos por uma estranha gripe que provoca uma paralisia total do corpo, com a manutenção da consciência como em uma prisão. Por causa de mudanças na anatomia e fisiologia cerebrais provocadas pela doença, e com avanços científicos proporcionados pelos EUA e parceiros comerciais, androides foram criados para dar guarida à mente dos humanos encarcerados.
A doença também provocou a alteração no cérebro de pouco mais de dez mil humanos que se tornaram "integradores", ou seja, permitem que um encarcerado use o corpo desse humano, como se em uma possessão espírita, com a manutenção em segundo plano do integrador que ele possa dar suporte ao encarcerado e evitar que este faça algo estúpido ou seja ajudado quando não consiga ou tenha dificuldade para dominar o corpo ocupado. A premissa básica é essa.

A história é narrada em primeira pessoa, do ponto de vista de um encarcerado, ou haden -  em homenagem à Sra. Haden, a primeira dama dos Estados Unidos, e a encarcerada mais famosa - Chris Shane. Encarcerado quando criança, filho único de uma família rica, querendo independência e sem ter o que fazer após sua formação em Letras - o que é explicado no livro - ele opta por ingressar no FBI, onde foi recém-criado um departamento para resolução de crimes contra ou praticados por hadens.


A trama para mim foi muito óbvia, apesar das tentativas do autor de fazer reviravoltas e criar elipses quanto aos planos dos personagens para capturarem os antagonistas, algo típico de romances policiais de baixa qualidade - apesar disso, o livro é bem escrito, usa boas metáforas, tem diálogos interessantes e possui boa sequência detetivescas.


Um assassinato aparentemente cometido por um integrador em serviço - por isso o envolvimento do FBI - ocorre em Washington DC no período de entrada em vigor de uma lei que acaba ou reduz bastante os subsídios do governo para tudo relacionado aos haden. 


Uma greve nacional dos haden ocorre ao mesmo tempo em que uma passeata e reunião é realizada na capital dos EUA - algo que me remeteu aos Panteras Negras e a Marcha sobre Washington pelos Civil Rights (Direitos Humanos). 


Vários integradores aparecem mais como estofo do que para dar qualidade ao romance,  servem para fazer a história avançar - e me pergunto: se há apenas dez mil integradores no mundo todo, porque aparecem uns cinco em um período de uma semana e em espaço tão restrito? Foi bem conveniente.
Notei alguns clichês em relação a alguns personagens, e não falo dos empresários e políticos ricos que aparecem nem dos Navajos, mas dos policiais, agentes burocratas e outros. Além disso, o autor criou algumas frases de efeito e frases prontas que poderiam ser ditas por dois ou três personagens indistintamente. 


Uma das personagens mais bem construídas foi a da agente Vann, parceira Senior do protagonista. Ela é uma ex-integradora e sua relação com esse período é bem interessante. 

Tenho a impressão de que Scalzi escreveu o romance tendo como pressa um dos principais ingredientes. Os personagens quase sempre têm resposta pra tudo e de forma reativa.
Destaco os conflitos psicológicos de quatro personagens - Shane, Vann, Lucas Hubbard e Cassandra Bell. Não vou elaborar para não estragar.


A questão ética é bem presente no livro, e sempre mostrada, e não contada. Scalzi optou por narrar experiências nas quais os integradores são levados a limites; são postas questões humanas e materiais acerca da manutenção dos corpos dos hadens; o preconceito também é abordado, e também penso que houve clichês quanto a isso, mas a obra nos faz pensar sobre segregação, meritocracia, discurso de ódio.


A ficção científica hard é bem caracterizada no livro, com implicações e aplicações em linguagem de programação, neuroanatomia, economia e negócios.


A tradução feita por Patê Rissatti está primorosa, e a editora Aleph fez um bom trabalho de editoração e diagramação.

No final das contas, o livro é divertido, prende - porque você quer resolver os mistérios - mas a obra parece mais um jogo de tabuleiro para a geração "pera com leite", para a qual tudo deve ser bem mastigadinho e explicado.
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Ebook Kindle.
Editora Aleph.
328 páginas.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

"Olha uma última vez para cima"

Era uma vez um empresário do ramo de biscoitos e bolachas (para agradar a ambos...) que vendeu sua fábrica, aboletou-se para São Paulo para participar de um leilão de um super terreno em Recife (!), terreno da União, em que há (havia) galpões, trilhos de trem etc. Juntou-se a uma mega construtora, pagaram apenas cinquenta milhões de reais pelo terreno - arremataram-no! - e criaram um projeto, encampado pelo prefeito da cidade - no escurinho do cinema - para a construção de imóveis (torres) de luxo em uma área junto ao rio. Acreditando que essa área deveria ser preservada, posta a uso pela cidade como um todo, e que, em qualquer caso, deveria haver discussão prévia sobre o caso, o Movimento Cidade Plana (MCP) surgiu e foi debelado em uma ação totalitária pelas autoridades locais... isso poderia ser ficção, e é, mas não folclore. Wellington de Melo, em seu romance "Felicidade", nos mostra o que ocorre no MCP após a desocupação - quando então a cúpula do movimento decide agir: quarenta membros cometeriam suicídio atirando-se de diversos prédios espalhados pela cidade. 
No meio desse ato, surge Ademir, principal voz do livro. O enredo parece-nos mostrar, em meio à crítica social, as ações de Ademir e suas consequências. Ademir é Narciso, Ademir é Édipo cego, é o Osiris de Isis... quer paixão, reconhecimento, sua carência é palpável; sua revolta, um sofrimento dentro de si.
Ademir é personagem de seu amante, Ignácio; sua vida contada é uma traição imperdoável - há incesto, estupro, abandono afetivo, idolatria; ele quer a redenção com sua irmã/irmão Zê, a atenção de Ignácio, a cama com seu cliente Pedro. 
Pedro, esse misterioso personagem... segurança de rua ou "agente provocador"? Os dois. Pedro que surge para assombrar Ademir ou é o próprio Ademir em suas memórias bloqueadas? Essas dúvidas não respondidas in totum dão ao romance uma profundidade psicológica, põem Ademir a circular em nossa mente.
A descida de Ademir no redemoinho que se segue parece ter seu rosebud em um evento quando era criança, um jogo de futebol e as "brincadeiras" que envolvem a descoberta da sexualidade. O que desencadeia seus atos narrados no livro pode ter sido essa fixação e paixão (consumada ou não consumada? Consumida?) por sua irmã/irmão; ou a(s) traição(ões) de Ignácio - por minha vez, penso que Ignácio não é estopim, mas engrenagem.


O livro é dividido em três partes que se interpenetram, não lineares, aparentemente circulares.
Quero chamar essas impressões de "Notas sobre Felicidade":
Parte 1 - Beleza - metáforas de construções e espaços urbanos; "horizontalização" dos ricos, uma homogeneidade que remete a questões de gosto, Pierre Bourdieu.
Pra mim, a frase que resume a parte Beleza é "All memory has its price, baby", porque em inglês ficou melhor (p. 23).
A interação entre Mário, Ignácio e Ademir (este conhece Ignácio por meio de Mário) parece ser o ponto alto da primeira parte. Há uma voz ali que critica a literatura hoje, o "movimento literário", o culto aos autores de frases feitas. 
Há uma voz ali que quer agir, libertar-se do papel, atacar e sumir, covarde e provocadora. Provocou-me angústia, e isso me agradou muito.
Parte 2 - Julgamento - O diálogo entre Lorena (membro do MCP) e Ademir é quase metonímico: conversão, reconciliação, crença, morte. Palavras não ditas pro que só foi dito em parte. A morte os interrompe - só não sei se como tabu ou como omertá.
Entendi como se Ademir tivesse sofrido um estupro coletivo aos oito, nove anos. Isso seria uma justificativa do autor para a homossexualidade da personagem, para sua prostituição? ("Falo. Tudo que vem à boca, falo" - belíssima passagem).
Ademir parece ser apático ao Movimento Cidade Plana (MCP), apesar de ser um dos seus participantes e estar prestes a fazer seu salto de protesto.
Há um diálogo, o "é preciso seguir em frente", que só nos mostra como esse tipo de perlocução é falsa, como nos enganamos sobre o luto e sobre aquilo de que não queremos recordar. O reprimido é a História.
O encontro entre Ademir e Marcelo nos mostra que a praça de alimentação hoje é o altar dos templos do consumo. Uma procissão, uma reunião, uma comunhão.
Parte 3 - Misericórdia - O julgamento nas redes sociais nos perfis dos suicidas; os anjos caídos; como se enterravam os reis, rei Ignácio, nascido do 🔥; o tempo avança sem misericórdia; semente para fugir do nada; a perda do amor: sem Zê, Ademir não era nada nem ninguém - o alfa e o Ômega, de A a Z.
Essas notas me tomaram como assombração. Foram quase um fluxo do inconsciente. E por que não fazer crítica/resenha/apontamentos/gosto assim? Eu adorei! Não sou vinculado à academia - pelo menos de crítica literária - então me sinto e sou dono desse espaço. Sim, isso é uma justificativa ao método e aos haters...

Voltando ao romance.
Os perfis dos personagens de classe média alta que aparecem são estereotipados - pessoas fruto de uma educação patriarcal, machista e segregacionista. Não são, porém - e ainda bem - caricaturas. 
Os prédios antropomorfizados - eram as vivas (inertes, mas com vida apenas intestina) homenagens aos antigos proprietários das terras em que foram edificados. 
O MCP tem seu intento - para chamar atenção ou mesmo se implodir com o Ato - visto por inúmeras pessoas, mas estranhamente os noticiários são silentes. Ainda que haja uma ética de não se noticiarem suicídios, os atos do MCP são quase terroristas, no mínimo políticos.
A voz narrativa dominante, a de Ademir, coloca-nos sob o signo da ausência, ausência dos corpos, da verdade, ausência de si. A literatura nos mostra no outro, nos traz conhecimento e nos brinda com a possibilidade de sairmos mais sábios após as últimas páginas de um livro.
Li em algumas resenhas que Wellington pecou ao tentar realizar uma alegoria sem se aprofundar na crítica social. Como já afirmei antes, o romance não é folclore (nem uma cena do filme The Wall). A história de Ademir - tendo como pano de fundo a crítica político-social em relação à urbanização desenfreada do Recife, o controle do governo sobre a mídia local, a sociedade patriarcal - sobressai-se porque o indivíduo é, antes de tudo assujeitado - às ideologias, ao inconsciente, a seus traumas psicofísicos - tudo em meio a uma tentativa de se emancipar, ainda que desconhecida ou vã - como ocorreu com Ademir, pois ele parece se perder, desmanchar-se no(s) outro(s).
Por fim, Ademir se compromete com escolhas definitivas? 
Vai ler o livro!

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Re//torno

Em torno da coisa (res).

A coisa volta.
A coisa do outro. A volta do outro.
O Outro.
Em torno da psicanálise lacaniana e seus termos herméticos - furo soprador; lalíngua, real, A, a, Outro, outro, sujeito barrado, verdade incognoscível (real?)...
Tergiverso. Antes em versos...
Mas suscito em mim uma curiosidade que vai além de minha análise, minha autoanálise - se isso for possível - uma conversa ao pé do inconsciente, uma impossibilidade.
Torno às coisas, ao preenchimento daquilo que, desde Joyce, tornou-se sinthoma, ou phanthoma, lalíngua posta em resto... Não há como se traçar a angústia.
(Retalhos.
Uma interessante HQ sobre adolescer, crescer, perder. Sobre impossibilidade).
Sou uma angústia de verso e anverso. Um lado mystique; outro, plastique.
Linguagem, discurso, desejo. O desejo que vai além da linguagem. A verdade que não é linguagem; o discurso que não é verdade; o desejo que toca o real, a verdade...


Rem
Em torno.


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Um livro Submerso

Acabei de ler um livro diferente. Da editora Darkside Books, cujo trabalho de editoração é impecável, mas não me atrai pelo seu catálogo (muitas adaptações de filmes B e séries de fantasias “volumétricas” a rodo).
O livro é A Menina Submersa - Memórias, cuja autora, Caitlín R. Kiernan, foi ganhadora do prestigiado prêmio Bram Stoker.
Cheguei a ele ao pesquisar sobre um ensaio de Ursula K. Le Guin, pois o Google Books me levou a uma página do livro em que esse ensaio é citado pela narradora.
A narradora - India Morgan Phelps (Imp, “diabrete”) - tenta passar para o papel episódios de sua vida que se perderam em meio a crises psicóticas . Isso é entremeado a um passado familiar trágico, a histórias de contos de fadas que são fantasmas, a assombrações, histórias vívidas e reais naquele universo. E arte, muita arte.
E o universo da obra é rico, nos emociona, “verídico e factual”, apesar de as múltiplas vozes de Imp nos enganar, e se enganar também.
(O livro me transportou a outro, Fernanflor, sobre o qual também postarei).
A narrativa não é linear, e isso apenas torna a obra mais rica. Estamos na mente da narradora, e os acontecimentos são recortados com histórias do seu passado e outras que ela descobre ao tentar montar um quebra-cabeças de um período em que esteve em frangalhos.
O estilo da autora é fluido, lírico, mas por vezes senti uma forçação de barra atribuir a Imp um conhecimento enciclopédico sem lastro (o da autora é vasto, eu soube depois).
É uma obra de fantasia, de fantasmas, daquilo que habita nossa mente e pode, sem aviso, tentar nos devorar. Os admiradores de HP Lovecraft vão se identificar com muitas passagens. Uma das tramas paralelas que Imp tenta desvendar é bem lovecraftiana, pois diz respeito a um culto a “poderes submersos” (não quero falar mais, senão estrago).
As referências da autora são muitas, não se resumindo ao autor dos mitos de Cthulhu. Joseph Conrad, Herman Melville, Albert Perrault, Neil Gaiman e outros.
Vale a leitura.

Em tempo, a tradução foi feita por duas pessoas, mas, só para exemplificar, há erros básicos: em um momento, Imp (que usa uma máquina datilográfica), reclama de dores nas mãos e o texto aponta que “essas chaves são grudentas e precisam de óleo” - quando deveria se referir a teclas (que também é keys); em outro momento, Imp diz que esmurrou sua namorada e a deixou com um olho preto, mas o equivalente de black eye em português é “olho roxo”. Bom, sou chato pra atento a essas coisas, fazer o quê? A tradução, fora é isso, é massa, muito competente.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sangue, Ossos & Manteiga


Ou um livro para quem gosta de culinária sem frescuras.

O primeiro livro lido por mim a respeito experiências pessoais no mundo da gastronomia foi o de Anthony Bourdain, Cozinha Confidencial.

Fiquei apaixonado, no bom sentido, pela figura do Bourdain. Esse cara hoje muito conceituado e chef-executivo-à solta de um dos melhores restaurantes de Nova York (o Les Halles) já foi um dissoluto: usuário de drogas, farrista inveterado, beberrão nas horas vagas e ocupadas, mas excelente cozinheiro.

O bom do seu livro é ver o despertar da paixão pela comida em tenra idade (ao tomar sopa fria - uma vichyssoise - a bordo de um cruzeiro para a Europa), e como isso o levou à culinária.

Hoje Bourdain possui um programa de tv por assinatura (Sem Reservas), no qual ele percorre vários lugaresdo mundo em busca da boa comida servida nas esquinas das ruas (além de ir em bons restaurantes, óbvio).

De olho nessa culinária sem frescuras, onde o importante é ter bons ingredientes e alguém que saiba um pouco de alquimia para transformá-los em pratos deliciosos, pus o olho no livro Sangue, Suor & Manteiga (Blood, Bones & Butter), da chef de cozinha Gabrielle Hamilton, dona do Prune, também em Nova York (o livro foi lançado nesta semana pela editora Rocco e custa R$ 39,50, trad. por Lucas Murtinho).

O diferencial da obra é exatamente o que parece se repetir no livro do Anthony: suas vivências, desde garota; os excessos cometidos; a falta de dinheiro e a busca incessante por oportunidades nesse meio por vezes tão machista (e aqui uma lição - não é que seja machismo, mas há uma certo espírito pirata entre os cozinheiros; a pessoa tem de mostrar que, além de ser bom no que faz, aguentar o rojão, as brincadeiras e saber se impor quando necessário). Mas Hamilton se destaca pelo maior domínio da prosa (fruto da experiência literária e de sua formação também em Literatura) do que sua contraparte masculina. Seu texto é fluido, elegante e magnético (antes que eu fique na berlinda: o Bourdain também é um excelente escritor). Nota-se logo que ela é um daqueles chefs sem frescura, e que ela quer apenas servir um bom prato com bons ingredientes.

A dica então é: quem quiser um livro bem escrito de culinária sem ter de ficar preso às receitas, compre Sangue, Ossos & Manteiga.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Cozinhando para amigos



Grata surpresa tive quando ganhei esse livro de uma pessoa muita querida. Isso foi em 2007. Algumas receitas eu fiz, outras experimentei, paquerei algumas, mas o maior prazer foi ler o livro.


Heloisa Bacellar, autora e cozinheira de mão cheia, tem dois divinos dons que são raros em conjunto: cozinhar bem e escrever bem. O livro Cozinhando Para Amigos não é apenas um deleite para os olhos, transmite ainda um prazer na descoberta da palavra, das histórias e sugestões idealizadas.


Não é um livro apenas para enfeitar a mesa de centro - grande, pesado e lindo, um belo companheiro. Sua diagramação é inteligente, e as cores e sugestões de preparo de acordo com o clima (tanto estado de espírito quando estações do ano) ajudam quando a inspiração criativa não chega.


Não é um livro que deva apenas ser consultado, e sim apreciado.