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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Impressões sangrentas sobre Seja Imortal, de Frederico Toscano



Fazia tempos que eu procurava um livro sobre/com vampiros que não se prendesse às questões melancólicas, às formas de sua destruição, ao sangue dos e das virgens - enfim, que fugisse aos clichês. Há sim essas questões, mas elas são menor ao enredo de Seja Imortal (Frederico Toscano, edição digital do autor) e são, ainda assim, constitutivas dele.

Não que Seja Imortal não nos traga uma familiaridade com o mito e suas diversas lendas, mas, se você procura os vampiros de Anne Rice, John Carpenter e Bram Stoker, vá diretamente nessas fontes. Os vampiros de Frederico Toscano estão mais próximos, para mim, dos de Stephen King em Salem's Lot (pela natureza), também presentes na saga A Torre Negra (em que há também uma questão corporativa).

Como suportar o jugo de viver para sempre, mas sem hormônios para regular nosso corpo, tendo de fugir do sol, de turbas ensandecidas etc. Bom, isso aqui não é um ensaio, mas vamos lá.

O livro conta a história de Eudora, mulher negra, portadora de deficiência física, e um gênio no seu campo de trabalho. Enquanto progride na carreira, chama atenção dos executivos vampirescos de uma empresa milenar que se instalou no Brasil - lugar, aliás, em que os imortais resolveram se revelar ao mundo. De sua cultura, eles trouxeram nomes, históricos ou não, lastreados na Grécia Antiga e até mesmo em mitos ainda mais antigos.

Voltando à natureza vampiresca, é impressionante como Frederico Toscano conseguiu nos mostrar diversas agendas dos vampiros e, no final, a síntese de todas elas, uma apoteose que volta ao início, como o dragão mordendo a própria cauda (mordendo de verdade, no pun intended) - mas deixarei para o leitor chegar nesse ponto.

O livro é imenso, super bem escrito, muito bem pesquisado (bom, o autor é mestre e doutor em História, convenhamos) e vai revelar ao leitor belas surpresas. Pra mim, houve aquele impacto de não querer largar o livro, mas, como tenho outras leituras, o momento de ler Seja Imortal geralmente era após às 22h, na cama, o ambiente escuro... Seja Corajoso hehehe.

O livro fala de abusos. Abusos políticos, individuais, coletivos. Fala de um país fraturado e dominado pela elite financeira. Fala também de resistência, independentemente do poder das elites. É um convite para a ação em meio à opressão. Senti ecos de leituras minhas anteriores: 1984, Admirável Mundo Novo (Soma neste; Ambrosia e o Elixir em Seja Imortal); A Rainha dos Condenados (da Anne Rice, mas ruim), Fahrenheit 451, e até de Assassin's Creed Odissey (só quem se apaixonou por Kassandra e sua jornada sabe...).

Bom, espero que venham continuações ou outras histórias no mesmo universo. Serão muito bem vindas.


* O livro é uma edição do autor, então possui pequenos erros que não passariam em uma revisão, mas nada que comprometa a leitura. Quero que essa obra caia logo no radar das editoras, merece muito uma edição física.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Ctrl+Alt+Frk (ou Horas atrás, fiz uma canção para uma coceira no pé)

    Frente a desafios de elevada estatura, se o choro me corre solto, é menos pela minha velocidade e mais pela minha inanição.

    Exagero.

    Mais que isso, sei que alguma máquina pode derrubar essas barreiras por mim, na coluna do meio.

   Horas atrás, fiz uma canção para uma coceira no pé, e é por conta desses momentos que as portas não serão fechadas.

   É interessante também eu ter evitado usar fantasias, pois só as crianças usam fantasias como se não fossem elas. 

    

    

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Impressões sobre O Seminarista, de Rubem Fonseca

 Evocando o personagem epônimo, há uma estranha simetria entre a vida e a morte. O narrador-personagem, porém, apenas vai encontrar essa estranheza ao se aposentar.

José é um ex-seminarista que não conseguiu seguir a batina porque os desejos carnais tiveram preponderância sobre os divinos. Ele, então, se tornou um assassino profissional. E, no início da obra, aoesar de narrar alguns assassinatos encomendados para mostrar a que veio, o que ele textualmente diz no livro -- dentre eles uma passagem na qual ri muito (sim, tenho um humor mórbido em alguns momentos), quando o assassino procura um necrófilo e encontra o retrato de uma das suas vítimas, a qual José diz ser "bonita para necrófilo nenhum botar defeito --  a trama tem sua importância nos acontecimentos que se desenrolam após a aposentadoria. 

A partir daí, José percorre diversos pontos da cidade -- Rio de Janeiro -- imiscuindo-se com a burguesia mais sórdida e buscando ajuda junto a tipos suburbanos e que vivem à margem da lei -- estes quase sempre amigos do passado. Esses personagens mais periféricos têm nome, mas é o apelido que se sobressai: O Gralha, Sangue de Boi... Essa quase aventura começou porque José ficou desconfiado de que o estavam seguindo, isso depois de ele estar quase vivendo junto com sua namorada -- uma alemã que trabalhava com tradução. Não se engane o leitor, tudo é importante na obra, cada detalhe que Rubem Fonseca põe e que, lá na frente, salta do texto como se fosse nos pregar uma peça. 

O formato do livro é José narrando suas peripécias até o ponto em que ele se encontra -- na vida, na história -- no final do livro. Já me acostumei com as narrativas rápidas de Rubem Fonseca. Esta é uma delas, mais para uma novela do que um romance. Recomendo sua leitura em um dia, no fim da tarde...

O assassino tem ideias bem formadas quanto a seu envolvimento com mulheres -- devem ser magras, não muito altas, com barriga lisa, bumbum firme e seios pequenos -- quanto ao fato de não ler jornais e nem ter remorso algum. Suas paixões: ler poesia ouvindo rock, ver filmes e ir a sebos. Com o passar da trama, vemos José ser surpreendido por não ter visto determinada notícia, por ter comido um prato mais elaborado (e gostoso) em um restaurante mais caro, por ter conhecido alguém com quem vale a pena estar junto. As elipses são interessantes na obra porque Fonseca não precisa explicar nada, basta prestar atenção nas escolhas e mudanças do personagem -- por ex.: ele foi chamado de frouxo e maricas por seus amigos quando era guri porque não quis matar um galo (por princípio, ele não matava animais), mas algo muda nisso, e só você lendo para descobrir.

Em alguns momentos -- como quando da explicação sobre a adega de vinho ou sobre que tipo de bacalhau será servido -- os personagens apresentam um ar professoral que destoa da obra. Creio, porém, que o pedantismo é proposital, basta situar o livro no opus de Fonseca: ele descasca a hipocrisia da burguesia e apresenta personagens que vivem em uma miséria física e espiritual, e tudo o que vem de personagens ricos nos livros dele parece ser um verniz que esconde uma podridão moral e também ética. Parafraseando o autor, os pobres fazem o necessário em sua luta pela sobrevivência no ambiente urbano, enquanto a burguesia afia os arames farpados.

José apenas queria tranquilidade, mas não esperava uma aposentadoria tão "rica". A riqueza com a qual nos brinda Rubem Fonseca é mostrar, sem psicologismos, a mudança de atitudes de José, especialmente em algumas ações destoantes do que ele propagava.


O Seminarista, de Rubem Fonseca.
Ed. Ediouro, 120 páginas, Kindle.

domingo, 4 de outubro de 2020

Sagrado e Profano - impressões sobre a Trilogia dos Brutos, de Ana Paula Maia

 Gosto das histórias de Ana Paula Maia. Talvez porque elas habitem o mesmo imaginário em que em mim habitam as histórias de samurais, cangaceiros e westerns. 

Um ambiente crepuscular entre a ordem e o caos, em que mais vale a honra do que a lei e em que, em alguns casos, a honra é a lei.

A ordem social, a figura do direito público e suas normas de conduta existem em todas esses cenários, mas quase sempre à margem. O exercício unilateral das próprias razões, mediado pela imposição da própria força é o que prevalece. Os dados rolam e a vida segue seu caminho. Mas grandes obras e grandes histórias apenas são possíveis com a lente privilegiada de uma autoria.  Ana Paula Maia escolheu a dedo seus protagonistas e foi pinçar fatos da vida em que aparentes tragédias são motivo ou consequência dos acontecimentos.


Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos

Já havia lido esse livro, creio que há uns dez anos.

A releitura foi uma oportunidade de entrar em contato novamente com a obra dessa super talentosa autora, e me descobrir um leitor mais maduro e exigente. O livro é um bom ponto de contato com a obra de Maia, pois ela escrevera outros dois textos anteriores — se não me engano (ainda não os li). 

Como tentei dizer, é obra de uma escritora em maturação, e em alguns momentos o narrador solta frases desnecessárias quando poderia mostrar o dito em ação ou mesmo omitir determinada sequência.

A poesia existe na vida desses homens limitados pela falta de oportunidades e que se movem com um senso de sobrevivência em meio à hegemonia dos outros. Quando há sonhos de algo além do que vivem, é uma visão trazida à beira da morte - "vá ver a neve" - ou ao se olhar para o céu, cujas nuvens poderiam até mesmo ser cortadas por um facão. 

Nesta passagem, Ana Paula Maia é de um lirismo assombroso:

"Às vezes, até as estrelas parecem fazer sombra. Mesmo mortas, insistem em ofuscar com seu insistente senso de infinito. E ao pensar nas estrelas, às vezes ele gostaria de ter uma escadaria para o céu. Para apagá-las com um sopro."

E, para esses homens, abandonados pelo mundo, a vida é mesmo um rápido estertor.

O que Gerson e Edgar Wilson, abatedores de porcos, não têm de "sociabilidade", ou a têm limitadamente, é compensado com quase um bromance de brutos, e uma contemplação de "fim de dia", mas que, em alguns momentos — e na soma desses momentos — mostra-se em demasia. Não chega a ser fastidioso, porque as imagens "captadas" por Ana é da alma dos seus personagens, e a coerência e o estilo são marcantes.


Na novela O Trabalho Sujo dos Outros, há uma aproximação ao que Bauman definiu como "a sociedade do descarte", pois vivemos para consumir, mas desde que haja uma obsolescência programada geral — das coisas, mas das pessoas também. Erasmo Wagner faz um dos trabalhos mais importantes para a sociedade urbana, e isso é bem marcante na história, ele tem consciência disso, apesar de sua melancolia; acredito que esse estado depressivo do personagem foi resultado do encontro do seu desejo por mais com a situação de miséria e apagamento na qual ele e seus colegas vivem.


Carvão Animal

Encontrei os opostos nesse texto de Ana Paula Maia, romance que encerra a trilogia dos brutos.

Na obra o fogo, e o carvão, produto de queima, é uma excelente metáfora para a vida e para a morte, e as histórias do romance são alegorias dessa jornada.

Os cenários do livro todos têm relação com o fogo: Corpo de Bombeiros, uma olaria, uma carvoaria, um crematório, uma mina de carvão que explode.

O único lugar que parece não queimar é a casa do bombeiro Ernesto Wesley, mas aí queima sim: o rancor pela morte da filha causado por um irmão que está preso; a raiva que a vizinha sente da cadela Jocasta; o calor de uma compostagem caseira etc.

No crematório "(o) carteado é religioso", um profano sagrado em meio a um mecânico e demorado ritual de cremação em uma funerária. Aqui há o verniz do respeito com os parentes dos mortos, que lançam parte das cinzas ao pé de roseiras bem cuidadas, enquanto que as sobras e cinzas não reclamadas são descartadas em um matagal que margeia a parte de trás da funerária, em meio à imundície acumulada e bichos oportunistas.

Palmiro, Ronivon (irmão de Ernesto Wesley), Geverson, Aparício, o coveiro, e JG trabalham em uma funerária especializada em cremação de corpos. São pessoas que, em bela síntese da autora, esperam pelos mortos para a vida prosseguir.

A gama de personagens de Ana Paula Maia, assim como "a maioria dos homens(,) é moldada a concreto. São duros feito rocha. Inquebrantáveis de espírito, torpes" (Carvão Animal, l. 1243)

Gosto do nome dos heróis de Ana Paula Maia - se bem que os chamar assim é um desrespeito à jornada deles: Edgar Wilson, Ernesto Wesley e Erasmo Wagner. Todos E W. Sim, tem um motivo, e conheço pelo menos o do primeiro: Edgar (Allan Poe) Wilson (do conto de Poe, William Wilson).


A autora não reduz a história a um determinismo naturalista, mas não nega a influência do meio - assim como eu também, como leitor, não a nego.


Peguei essa foto da Ilustríssima, em artigo de Joca Rainers Terron o qual li após a escrita dessas impressões; recomendo fortemente a leitura, pois nos fala da repercussão internacional da obra da autora e da vanguarda da sua literatura; ainda não li os publicados depois da trilogia aqui enfrentada, "mas vos digo, caso não saibais" - ela foi vencedora por duas vezes do Prêmio São Paulo de literatura, em 2018 e em 2019; antes de passar para a leitura dessas obras premiadas, quero ler "A Guerra dos Bastardos", de 2007 e "De Gado e Homens", de 2013 (há um ainda anterior - "O Habitante das Falhas Subterrâneas", de 2003, mas esgotado). Segue AQUI o link para o artigo do Joca Terron







quarta-feira, 25 de março de 2020

Bloodchild, novela de Octavia Butler

Como seria um homem grávido? Como seria sermos mantidos em um "cativeiro seguro" por outra espécie? Como é crescer em meio a isso em outro planeta? A autora não nos dá uma resposta definitiva, mas nos dá sua melhor resposta por meio da narrativa de Gan, o protagonista do conto.

Os seres humanos que conseguiram escapar da Terra se abrigaram em um planeta no qual já havia outra espécie inteligente, e há uma necessidade de compartilhamento até mesmo parasitário para a sobrevivência dessa espécie, os Tlic.

O texto narra um momento na vida da família de Gan, seu convívio com irmão e irmãs e a mãe, sua escolha como favorito pela líder dos Tlic, a busca pelo cumprimento de uma promessa feita no passado e a implicação de Gan nisso tudo. 

É uma história sobre crescimento, maturidade, escolhas, responsabilidade perante a vida, perante a morte. 

Octavia Butler é magistral na narrativa. Ela nos faz presente na pele de Gan, sentimos o que ele sente, respiramos suas angústias, seu desejo, dói na pele aquele tapa dado pelo irmão mais velho. 

Eu recomendo muito a leitura, especialmente porque, para além do apuro estético, Butler nos fala sobre convivência em meio à diferença, sobre a dor do outro e da miséria que somos capazes de impor a nós mesmos.

Ganhador, na categoria novella dos prêmios Hugo, Nebulla e Locus de ficção científica.

Lido no idioma original, no Kindle.
Editora Headline




quinta-feira, 19 de março de 2020

A verdade sobre os CLICHÊS do caso Harry Quebert



"Todo mundo tem seus demônios. A questão é simplesmente saber até que ponto esses demônios são toleráveis."

Essa frase é do personagem narrador do livro, Marcus (Mark) Goldman, e resume bem o espírito da obra como um todo - seja em relação à escrita: uma ética do escritor, a relação comercial editor-escritor-agente; ao sistema judiciário; à investigação policial e, já me adiantando aqui, à percepção em relação aos nossos ídolos.


É também um livro sobre o amor, na verdade sobre relacionamentos, sobre quando uma relação entre um homem mais velho e uma mulher mais nova pode ser considerada pedofilia. Ecos de Lolita, sim, o romance tem isso - Harry Quebert -->  Humbert Humbert (?). 


A Verdade sobre o caso Harry Quebert, do suíço Joël Dicker, tem muito é do relativismo que se tenta esconder nas grandes respostas a questionamentos universais.


A metalinguagem é usada no livro do início ao fim - os capítulos são compostos de dicas do mestre ao "aluno sobre como escrever um livro" - com uma analogia a esportes (boxe) e relacionamentos.


A estória e sua narração mostra acontecimentos que poderiam estar em Mindhunter, da Netflix, mas, da maneira como foram contados, não verossímeis, e essa é uma das belezas da literatura, especialmente nesse caso, em que o livro é narrado em primeira pessoa: vemos muito do que o Goldman sempre quis ser, uma "força da natureza", só que um anti-Odisseu, ou seja, os obstáculos são sempre inferiores para que ele nunca fracasse (eu particularmente me ponho muito nessa condição). Na primeira parte do livro, Marcus teve ajuda para superar essa sua trava mental, mas ao mesmo tempo sinto que sua investigação é apenas uma formalidade para a obtenção do resultado por ele já vislumbrado.


O que torna o livro intrigante e dinâmico é a heterogeneidade de gêneros, contudo isso também o faz ser desapontador: em alguns momentos, uma história de amor romântica com excesso de pieguismo; em outros, reflexões sobre o amor à vida, relacionamentos e o que nos torna humanos; em alguns momentos, um sensacional humor judeu, especialmente quando Marcus conversa com sua mãe; em outros, uma tentativa de humor a partir de uma mãe casamenteira que dirige seu negócio e seu lar com padrão militar, e cujo comportamento beira a psicose.


O erro não é apenas de tom. Sinto que as partes em que os personagens sejam caricatos e clichês - como o envolvimento na trama do motorista, saído de um filme de 007, do ricaço da região - atrapalham mesmo o desenvolvimento da trama. Talvez o simples fosse melhor executado.


Senti isso no final do livro, com suas reviravoltas e ajustes finais. E sabe quem executou maravilhosamente bem uma obra metalinguística sobre as agruras da escrita, a vontade ("e necessidade") de ser bem sucedido no meio, e cuja trama é uma replicação das dicas dadas por um escritor? O roteirista Charlie Kaufman na obra Adaptação, um dos melhores e dos poucos filmes em que Nicolas Cage e o Chris Cooper dão um show de interpretação (direção de Spike Jonze, se não me engano).


Por outro lado, os personagens são bem complexos no cerne dos clichês por eles vestidos. Vemos que o motorista possui um passado trágico, é sensível, amante das artes, ele próprio um artista de mão cheia. É assombrado pela perda da oportunidade de estar com sua amada Eleanore (Lenora de Poe?), em quem enxerga as jovens louras da cidade. Ele tem um passado trágico, e um futuro idem.


Aqui os clichês são importantes para o recado do escritor. Ele brinca com esses estereótipos, mas o faz com profundidade. O rico misterioso; a mãe judia; o editor ganancioso; o narrador atleta e escritor, mas que é um poseur. A mãe de Marcus, por exemplo: parece saída de alguma obra do Philip Roth ou de dramédias modernas de Ben Stiller à Maravilhosa Sra. Maisel.  Ela, porém, é quem tem valorosos insights, e por telefone; sugeriu a Marcus escrever sobre Harry Quebert e disse que o assassino da garota é quem provavelmente estava ameaçando Marc (contudo outro clichê, né?).


Não li críticas sobre o livro, apenas o marketing publicitário associado às frases curtas retiradas da mídia (tem um nome técnico pra esses laudatórios? É laudatório? rsrsrs Se sim, quero saber...), e senti que há muito incenso.


Esse incenso é uma parte importante do que o autor questiona acerca do mercado publicitário. Não busquei informação de como o livro foi lançado. O autor é suíço e ganhou muitos prêmios na França, mas ele faz um exagerado, mas providencial raio-x no mercado editorial americano (ah!, a capa do livro que eu li, pela Intrinseca, e não as clássicas da Alfaguara, é uma reprodução do quadro Retrato de Nova Orleans, 1950, de Edward Hopper, e parece trazer um alerta da podridão americana do pós-guerra: com perseguição a comunistas - o caso Rosemberg é citado algumas vezes - segregação etc., ou seja, o que jaz sob a superfície da vida pacata de uma cidade interiorana dos EUA). Ele cita o uso de ghost writers para ajudar os grandes escritores; a necessidade de se lançar uma obra que seja uma vitrine e que gere dinheiro, em detrimento da qualidade; a janela de lançamento por conta da eleição presidencial de 2008 - até mesmo com estudo mercadológico de por quanto tempo o livro estaria nas notícias, e assim na boca do povo, até novembro de 2008.


Além de criar personagens complexos sob o verniz do clichê (usei um metaclichê, agora!), o autor consegue entregar a trama proposta, mesmo com todas as reviravoltas. Não há furos, na verdade os furos fazem parte da trama, do "narrador mentiroso" ou que não presta atenção. Gostei muito disso, de como o narrador presume as coisas - e induz o leitor a cair nessa armadilha (It's a cliché trap!) - e no final vemos o castelo de cartas desmoronar (vai, tenho que ser clichezento também, né!)  achei muito bom o fato de a trama policial ser quase um jornalismo investigativo gonzo, meio Truman Capote.


Eu recomendo a leitura.


3.5/5


A VERDADE SOBRE O CASO HARRY QUEBERT


Autor JOËL DICKER
Ed. Intrínseca (o livro é de 2012, lançado aqui em 2014)
Lido no Kindle

P.S.: quando fui procurar a imagem da capa, hoje, descobri que há uma minissérie☺️ em dez capítulos, de 2018, com o Patrick Dempsey interpretando o Harry.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A ficção científica diante do consenso (Trilogia Fundação)

Fundação.

Segue aqui minha leitura. Não foi apologética.
Na verdade algumas passagens e parteda trama me incomodou muito.

Acabara de ler o conceito de psico-história em Fundação - algo que envolve estatística, Psicologia das Multidões, etnografia e vodu - e me lembrei do livro que li antes. Esse sim um livro de psico-história - sem o vodu e mais pra psicanálise, mas dele falo depois.

Em Fundação, várias épocas e quadrantes da galáxia desenvolvem a história da tentativa de um homem - Hari Seldon, um senhorzinho boa praça e muito inteligente - em salvar o futuro do império galáctico. Ele planeja algo que vai além do longo prazo, questão de centenas de anos, a fim de impedir a ocorrência de um hiato histórico de trinta mil anos sem ciência nem tecnologia. Esse vácuo cairia para meros (!) mil anos. Isso seria possível devido à elaboração de uma vasta Enciclopédia.

Para tanto, ele consegue que o Conselho Galáctico envie Seldon e outros matemáticos para Terminus, um planeta nos confins da galáxia, a fim de elaborarem a mencionada Enciclopédia. Foi então proclamada a Fundação da colônia. Além de Terminus, há um outro planeta em que uma outra Fundação ocorreu - do outro lado da galáxia - mas dele creio se saberá mais mesmo é no livro "Segunda Fundação".
Cinquenta anos após a Fundação, um holograma de Hari Seldon aparece e revela que a Enciclopédia é um logro. 
Com o desenvolvimento da narrativa, percebi que eles já estão dentro do tal período de mil anos e que os atos de Seldon não são teleológicos, mas têm consequências diretas e imediatas, ou seja, ele, com sua psico-história, criou o ambiente em que alguns personagens poderão realizar um "mapeamento de crises, e a conclusão bem sucedida das anteriores" levará a uma nova crise, o que permite a preservação de conhecimento, tecnologia e relações sociais entre as civilizações que aparecem no livro.
Essa é a premissa básica da trama.

O início do livro é meio chato, confesso. Asimov repete dados de tempo e espaço como se quisesse lembrar o leitor dessas figuras, no fim irrelevantes, apenas para nos situar em um tempo e espaço que não são os nossos. Faltou sutileza.
Algo magistral que ele criou foi a possibilidade de discussão de questões sociais, políticas e até mesmo religiosas (as quais, no livro, não deixam de ser políticas) em um ambiente em que os fins justificam os meios. Ainda assim os personagens principais, em determinados momentos, sempre procuram agir sem violência, sem derramamento de sangue, porém suas ações são bem manipulativas.
Essa manipulação é bem palpável e até mesmo ostensiva no texto quando um dos personagens cita que a psicologia - disciplina esotérica, mas não mística, já que não havia mais psicólogos no futuro de Terminus - não é individual, e sim uma disciplina capaz de ser utilizada para manobrar massas.
A partir daí, há um impulso da história a levar os personagens principais e até mesmo os antagonistas que defendem a Fundação a cumprir um "Destino Manifesto". A Fundação deve prevalecer a qualquer custo.
Um dos grandes "inimigos" da Fundação é um personagem que surge no segundo livro. Ele é quase um bicho-papão. O Mulo (sim, o marido da mula...).
Abaixo falo mais...

Algo me incomodou e me incomoda profundamente nesse texto. Cadê as mulheres? Notei isso no início e, ao chegar no décimo capítulo, reclamei em voz alta que não há uma personagem feminina sequer. 
Depois, quando a primeira mulher aparece, ela é "amarga" (sim, há no texto essa admoestação), vingativa e usa como argumento o poder e influência do pai para exigir determinadas atitudes do marido.
No segundo volume fica expresso no texto que as mulheres são consideradas inferiores no futuro do universo Fundação de Asimov. E isso porque a primeira mulher  de destaque na trama é Bayta, e há questionamentos de alguns homens do porquê de ela se sentar com eles como uma igual.  
Bayta não se intimida, mas os outros homens só ficam satisfeitos quando é dito que o seu esposo a trata como uma igual.
Posso estar a forçar a barra aqui, mas isso me incomodou. Tudo bem que a obra foi escrita a partir do fim da década de 1940 até o fim dos anos 1970, mas, poxa, quantas travas, né. Estou sendo anacrônico, mas se isso me incomodou, é porque sinto que eu mudei. 
Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray cunhou a frase: "Toda crítica é uma autobiografia", e isso vale para mim neste momento.

Voltando ao Mulo. Por que não a ideia do Mulo no livro para domínio da galáxia não seria tão boa quanto à da Fundação? Por causa desse djabo do "destino manifesto" do Seldon. Como já havia um plano, ele teria de ser efetivado...
Quanto à Segunda Fundação, não darei spoilers, mas só digo que a narrativa/explicação é mais de fantasia do que de ficção científica.

O livro é muito bem escrito. Não sei se me repito aqui quando digo que Asimov domina com maestria na obra uma visão de longo alcance em relação a escolhas governamentais e seus reflexos sociais e na vida de determinados indivíduos. Ele nos dá uma lição sobre a importância da História como disciplina e em como decisões com base apenas na economia (como obter os resultados de forma mais eficaz?) não são acertadas a longo prazo.

Resumo da ópera, 3 de 5. 

Lido no Kindle, edição Box Fundação, 833 páginas.

Segue a bela capa da edição especial lançada pela editora Aleph

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Horror Topográfico, racismo e Mythos - um caso Levecraft

Estamos meio que acostumados a ver histórias sobre lugares assombrados - um quarto, um guarda-roupa, uma casa, um carro - mas geralmente essas assombrações provêm de forças ou pessoas já mortas que tiveram uma ligação pretérita com o local por este ou aquele motivo.

Em muitos contos de H. P. Lovecraft, encontramos uma premissa que vai além da casa assombrada; ele nos apresenta a locais que possuem um poder telúrico próprio e que foram, no passado literário, descobertos por nativos e, a partir daí, usados como centros de poder, de culto etc.
Com base nisso, e lembrando-me de outros autores, podemos dizer que existe um Horror Topográfico que vai além dos de uma "alma penada" ou emoção impregnada que habitam determinado local. Essas histórias nos trazem uma localização geográfica específica como protagonista e que desperta nos personagens horrores de diversas miríades.

Após ler os contos Ele e Horror em Red Hook tive vislumbre dessa constatação. Esses contos fazem parte do livro A Cor que Caiu do Céu, em que este conto homônimo foi considerado o marco da entrada de Lovecraft na ficção científica - e nos traz também um Horror Topográfico, mas do primeiro tipo, ou seja, uma força externa que contamina um local.



Vamos primeiro aos de horror.

Ele
O conto, em primeira pessoa, nos apresenta a um narrador nostálgico dos velhos tempos de velhas grandes cidades, tais como Londres e Paris, pois ele não reconhece essa grandeza na Nova Iorque do seu tempo (década de 1920), infestada de "gente morena e atarracada". O narrador é reflexo do autor, pois sabemos que Lovecraft era xenófobo e racista. 
(E penso, com meus conhecimentos, que tanto Londres quanto Paris não o alegrariam mais hoje - ainda bem! - apesar de nunca ter deixado de haver, em maior ou menor grau, incursão de outros povos a essas cidades. Se a obra de Lovecraft foi exaltada postumamente, sua figura humana tem sido cada vez mais apequenada diante de seus preconceitos idiotizantes).

O conto tem uma nota autobiográfica. O primeiro parágrafo, então, é considerado por especialistas como uma descrição do que sentiu o próprio Lovecraft quando se mudou para Nova York após seu curto casamento - ficou na cidade de março de 1924 a abril de 1926, tendo retornado a Providence, Rhode Island. Olha aqui um trecho do conto:
"Minha vinda a Nova York tinha sido um erro; pois ao considerar que eu estava em busca de maravilhas estonteantes de inspiração nos inúmeros labirintos de ruas antigas que se entrelaçavam interminavelmente desde esquecidos pátios, [...] na verdade encontrei apenas um sentimento de horror e opressão que ameaçava me dominar, paralisar e aniquilar." 

"Ele" é uma figura pitoresca e anacrônica que aborda o narrador, pois havia observado as andanças deste pelo bairro de Greenwich.
(...era idoso, mas de boa estirpe, pensa o narrador). "Ele" perguntou ao narrador se não poderia ajudá-lo a explorar o bairro, pois possuía conhecimentos dos locais.

E aqui entro na conjectura em termos de Geomancia - linhas de hartmann e de ley etc.
Há também um expediente usado em outras histórias - só não sei se, com meus parcos conhecimentos, isso era uma constante ou se tornou um tipo de plot recorrente de obras pulp: a Fórmula do Desconhecido que desaparece. Sim, isso, aquele objeto - talvez um McGuffin - que move a narrativa e é mais um apetrecho do que uma entidade.
Deixo ao leitor a curiosidade para descobrir do que estou falando.  

Horror em Red Hook
Foi a primeira vez que li esse conto. Terrível. Difícil moralmente e humanamente falando. Por que moral? Porque os valores sociais hoje requerem respeito a qualquer etnia, às individualidades e ao próximo como um todo. Por que humano? Porque, partindo de uma instância pragmática (William James e Richard Rorty), esses valores são contingenciais, porém vivemos em uma grande contingência, de sei lá quantos mil anos atrás, que é o fato, na verdade a constatação) científico de que somos homo sapiens sapiens, ou seja, temos consciência de nós mesmos e do próximo, e ser um humano é o que me aproxima de outrem. Dessa forma, assim como sofro, o outro também sofre ergo porque eu não quero sofrer, não devo causar sofrimento a ninguém, especialmente por desrespeito a suas origens étnicas e culturais.
Nossa... que digressão. Mas foi válida. Com isso, diferentemente do outro conto, em que o preconceito racial estava no narrador em primeira pessoa, aqui a voz narrativa é do próprio HP Lovecraft, e ele destila (destila não, é grosseiro mesmo!) todo seu preconceito contra pessoas de pele escura, latinos (espanhóis, italianos) e outros.
No segundo capítulo do conto, quando somos apresentados a outro personagem, Robert Suydam, eu fiquei: "peraê, já vi esse nome em algum lugar...". E já! Está na fantástica novela neo-lovcraftiana A Balada do Black Tom, agora com tradução em português, a qual li no kindle há alguns anos. O autor, Victor LaValle, é um excelente contador de histórias - Neal Gaiman level - e deu sua versão para esse conto de Poe (de onde eu tirei Poe!? - acho que meu pré-projeto da pós não sai de mim...) Lovecraft. A diferença - spoilers alert - é que a "entidade do mal" não é Cthulhu, e sim uma dama da qual ouvimos falar muito por causa da Blizzard (Oi, Diablo!) 

Robert Suydam é um ricaço de família holandesa que tem juntado pessoas de pouca fama sabe-se lá para quê. Adquiriu propriedades no Brooklin, em um local pouco considerado pela sociedade, e lá tem feito alguns experimentos e cultos macabros. 
O  policial Thomas F. Malone não era um "detetive do oculto", mas um detetive em busca do oculto. Possuía curiosidade pessoal no caso, porque não ligava muito, óbvio, para as pessoas que estavam desaparecendo. 
Eu costumo enxergar nesses contos de Lovecraft, além do horror cósmico, que aqui não está presente, um Horror Topográfico. Em suas obras, e de maneira preconceituosa, há um senso de comunidade. Nesse conto vemos isso em Chepachet e Pascoag, que ficam em Rhode Island, cidade na qual o policial vive após os acontecimentos fatais do conto.
Além disso, muito do que se passa nesse e no conto anterior está ligado a passagens subterrâneas e a uma "força" que vem da terra, de uma determinada localidade, como se fosse um portal para outras dimensões - algo que tem a ver com as Linhas de Hartmann e Linhas de Ley acima mecionadas e "chaminés cosmo-telúricas" (What!? Oh, yeah!) - vou ficar de olho nisso e escrever mais sobre o assunto, ligado à literatura especulativa, claro.
Para quem lê inglês, recomento efusivamente a leitura desse artigo da Tor.com, editora que publicou The Ballad of Black Tom:
https://www.tor.com/2016/02/17/book-reviews-later-the-ballad-of-black-tom-by-victor-lavalle/

Ah, e se liguem que a HBO vai realizar uma nova série baseada em contos do Lovecraft, na qual trará temas como racismo e outros preconceitos ligados às obras do autor.

A Cor que Caiu do Céu
Minha gente, esse conto foi transformado em filme, filme B! Vi o trailer e é com o ator que amamos porque odiamos: Nicolas Cage. Caramba, tem tudo para bombar... no mal sentido, claro.

Voltando ao conto, foi um dos melhores contos de terror espacial que li - ah, leiam Terror Espaciar da MSP Graphic Novels (uma das primeiras lançadas, e com o Chico Bento).
Muito bem escrito, naquela prosa um pouco rebuscada de Lovecraft, mas que sabe prender o leitor e fazer com que ele deseje mais. Na verdade, vai além disso, chega a causar uma imersão do leitor, uma angústia com o que ocorre... Os melhores escritores conseguem isso, né.

Aqui o Terror Topográfico ocorre com uma pedra que cai do céu e causa uma comoção em um ambiente rural. Algo sai de si... uma cor! E isso transforma a região e as pessoas. Transforma como? Como age? Lê, cilvuplê.

Livro:
Coleção em três volumes da Editora Chronos: H. P. LOVECRAFT, Os Melhores Contos




Edit em tempos de Covid-19. Cristhiano Aguiar, escritor e acadêmico, escreveu este belo artigo sobre A Cor que Caiu do Céu. Ele faz um contraponto lírico e angustiante entre o fascínio literário do inomimado quanto à "cor" e sua natureza e um momento de ausência de cor e calor humano em uma ida, durante a quarentena, à universidade em que ensina. Confiram:
https://www.revistapessoa.com/artigo/2946/a-cor-que-caiu-do-espaco-de-h.p.-lovecraft

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Meu primeiro Dostoyevsky

O primeiro Dostoyevsky a gente não esquece. 
Tô seguindo uma lista de leitura recomendada e vou dar continuidade, porque senti a força da escrita do autor russo, mesmo julgando um pouco pueril esse flerte dele com o Romantismo.


Esse livro foi escrito um ano antes de sua prisão e quase morte por fuzilamento. E ele ainda passou dez anos em degredo. Quero ler seus livros dessa fase, óbvio.

Noites Brancas é uma novela, os personagens aparecem em um determinado ponto e são largados em outro ponto. A estrutura é de uma peça teatral, e com um pé no fantástico - antropomorfização de coisas e bichos. 
Há também um pé no romântico, e os diálogos são um pouco caricatos - tudo é arrebatador pro coração perdido... Não quero dizer com isso que não seja bem escrito, pelo contrário! Dostoyevsky demonstra sua força em construir belas imagens, tanto da alma humana quanto da paisagem em que se encontra o narrador, o Sonhador.

E quanto ao Sonhador, apesar de haver uma vela acesa ao Romantismo aqui, são belíssimas as passagens relativas à sua solidão e sua vontade de compartilhar os momentos vividos e a beleza do seu olhar em relação ao próximo e à cidade que o cerca - a tristeza da cidade também, visto de observada sob a influência dos humores do Sonhador.

(Lido no Kindle, ed. Penguin - Cia das Letras; tradução de Rubens Figueiredo)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Valentina em poesia

Antes da minha filha nascer, escrevi um poema inspirado na sua abstrata presença.

VALENTINA

Vibra, vigora o vaticínio:
vem, virtude;
viaja o vespertino véu
via ventania e vagar.
Vai, voraz, verter o verso
no vergel da vida.
Viva, Valentina, viva.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O Palácio de Inverno

O palácio de inverno.
Narrado em duas frentes temporais: do passado ao presente e do presente ao passado, com capítulos alternados.
A história é bem contada, especialmente quando narra do presente ao passado.

Não vou dar spoilers, apenas dizer que se trata de um relato em primeira pessoa sobre um casal que fugiu da Rússia pós Romanov e foi parar na Inglaterra. 
Há cenas belíssimas, de uma profundidade no caráter dos personagens; as mentiras que vamos descobrindo como leitores; os sentimentos revelados nos atos.
A relação do casal com o neto, com a filha, momentos de crise no relacionamento; a participação da mulher na economia; o período entreguerras e o colaboracionismo do narrador (ficou muito massa essa abordagem), tudo isso nos mostra que o cotidiano dá um baita caldo literário...

Mas algo me incomoda no tipo de enredo que ele escolheu: os personagens não carregam a história, e sim são definidos pelo que o autor pretendeu, como se fosse um romance histórico. 
No meio do livro eu já sabia sobre dois acontecimentos cruciais - ambos históricos - em que os personagens principais estavam envolvidos. O leitmotiv do livro achei muito bom, afinal é o que dá o início à narrativa, mas no segundo era totalmente dispensável a participação de Geórgui Jechmenev, o narrador.
Ficou a sensação de clichê e de que o autor forçou a barra para pôr Geórgui em determinado local e em determinado momento.

Boyne usa por vezes um vocabulário desconhecido por mim, assim eu aprendi mais... Isso se deve ao fato de que o protagonista, Geórgui, ficou apaixonado por livros quando entrou em uma biblioteca palaciana e, na Inglaterra, seu emprego foi ser justamente bibliotecário.
O que mais me fascinou em Geórgui não foi seu vocabulário, tá, pedante basta eu hehehe - e o que é mérito de John Boyne - e sim em como o autor utilizou a regressão temporal para nos mostrar como o personagem ganhou as cicatrizes - físicas e mentais - que conhecemos de antemão.   

Bom e enfim: esse é o primeiro livro que leio do autor, e ficou a sensação de que ele é um escritor que se repete nos plot twists (vi o filme de O Menino do Pijama Listrado), mas não negaria a leitura de outro livro dele. 



domingo, 13 de outubro de 2019

Legado Lovecraftiano

Ainda sou muito stephenkingiano (apesar de não ter lido nem um terço das obras deste), mas tenho me aventurado cada vez mais no universo lovecraftiano, e busco isso agora de uma maneira transmidiática, mas isso são outros quinhentos.

Busco, também, autores que trazem essa influência de Lovecreft em sua obra e os seus contemporâneos, com quem ele chegou até a se corresponder, como Algernon Blackwood e Clark Ashton Smith


Dos nossos contemporâneos, gosto muito do Victor Lavalle, de quem já falei um pouco, mas agora tenho buscado obras, por sugestão de leitores americanos, do Thomas Ligotti

Enquanto garimpava títulos desse autor, me deparei com este de não ficção: The Conspiracy Against the Human Race, no qual ele quer nos falar sobre horrores tão reais que parecem ficção.

Para quem compreende ingês, vai aqui um pouco sobre a obra: 




sexta-feira, 11 de outubro de 2019

"Tragam seus mortos", ou James Joyce e a dança da vida

Os Mortos.

Escrito quando Joyce tinha entre 25 a 27 anos. Son of a gun!

Minha ideia inicial era escrever sobre Dublinenses, a festejada coletânea de contos do autor. São textos em que ele...
Falo sobre o resto do livro depois.
Aqui quero celebrar esse conto que considero um dos melhores textos que já li em minha vida. 
E como li só há pouco tempo, além dos quarenta anos, e sendo um leitor bem melhor do que há vinte anos, estou certo de que é uma obra-prima.
Destoa muito dos outros contos de Dublinenses. Apenas na primeira página você já nota o quanto Joyce nos diz tanto com tão poucas palavras, confiando que você, leitor, vai captar as idiossincrasias das personagens, a maneira como o autor mostra os acontecimentos em vez de descrevê-los - show don't tell.

A par das inúmeras figuras marcantes do livro - Gretta, as Srtas. Morkan, Freddy... - e outras nem tão marcantes, mas com papel central no desenrolar dos acontecimentos, tais como Molly Ivors e Lily - é inescapável que a trama é tecida ao redor de Gabriel Conroy - professor, escritor, orador, poeta...

A história de Os Mortos é permeada de símbolos, metáforas: temos logo no início Lily, lírio, flor ligada aos funerais, com sua brancura e a da Dublin cercada pela neve; alusões às Melodias Irlandesas de Thomas Moore, em que uma das mais conhecidas é "Ó, vós, os mortos!". Vejo, e aqui é uma egolombra, esse diálogo, ou melhor, essa dança entre os vivos e os mortos em todo o conto: na música, na quadrilha, na comida do jantar, nos nomes, no fim do período natalino etc.
Joyce faz um uso magistral do discurso indireto livre, e as vozes narrativas, que no início confundiram esse leitor desatento, é indício para nós do quanto o narrador pode mentir descaradamente. E que prazer descobrir esses enganos, propositais ou não.
O conto de Natal pode ser dividido em três atos principais, assim imagino - o início, com a chegada dos convidados na casa das tias de Gabriel, as Srtas. Morkan; o meio, quando começam as danças até o jantar ou a saída dos convivas e, por fim, da saída dos convivas até o final, ou da chegada dos Conroy - Gabriel e Gretta - ao hotel.

Não vou estragar o prazer de quem não leu - só um pouco. Quero aqui falar sobre Gabriel, e comparar a algo com o qual creio de que somos feitos - mitos. Mitologemas, para ser mais exato. Arquétipos, para ser mais amplo.

Gabriel encarna aquilo que se costuma chamar de unilateralidade da personalidade consciente. E, com sua persona inflada, não reconhece a própria vulnerabilidade, os espaços - ou vazios - obscuros dentro de si. Não reconhece o outro por ser muito cheio de si, isso sim.
Ele é o Arcanjo da Anunciação, o Orador, aquele a quem as principais atenções parecem ser dirigidas. 
Ele parece ter se identificado com um poder divino interno.
Um tema que predomina nos textos de Joyce é o Renascimento Irlandês - o amor às tradições, símbolos e arte da pátria. 
Em alguns dos textos, vemos mesmo o viés político desse patriotismo, anterior à independência irlandesa. Como exemplo, temos o conflito entre católicos e protestantes. Ser um irlandês é ser papista, enquanto os protestantes são fruto das escolhas de Henrique VIII, ou seja, dominados e aliados aos ingleses.
 Gabriel, levado a esse assunto por Molly Ivors, quer estar por cima da carne seca, parece ser um cosmopolita europeu, e não um bairrista de um país sob o império do Reino Unido.
A forma como ele se sentiu humilhado por Ivors, a maneira ríspida como Lily lhe respondera no primeiro ato, e toda a excitação febril ansiada e barrada por outro poder divino - Micheal Furye, arcanjo Miguel, o Furioso, o guerreiro matador - só me fazem pensar que em sua hybris, em sua personalidade inflada, se afastou de sua medida humana, seu metron, e apenas lhe fora aberto o caminho para sua reconciliação com a parte perdida de si mesmo no fim do livro, ao perceber a força das coisas "mortas" - ideias, sentimentos, ou seja, a vida interior, sua e do outro.


Lido no livro


Dublinenses (Dubliners)

Tradução de Caetano W. Galindo
Companhia das Letras/Penguin


Gosto muito da capa da edição da Ed. Autência;  de 2006, creio eu. Ela é o registro do discurso de Gabriel quando do jantar de Natal.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Sonhos Elétricos


Philip K. Dick era há muitos anos, para mim, uma sombra que envolvia Blade Runner. Eu, com pouco menos de dez anos, quando via Blade Runner só para me excitar com a beleza loira de Daryl Hannah, não sabia que esse filme transformaria o que o gênero da ficção científica representa para mim - muito mais do que especulação,  o direito de sonhar pela humanidade, de o indivíduo ir além de seus limites por meio da tecnologia,  de pensarmos em um mundo que não deu certo e em como evitar isso, dentre outras questões.
Li poucos textos de PKD, mas eles têm essas questões que, como disse Nelson de Oliveira, falam de coisas e lugares, mas, essencialmente, de pessoas.
Os textos, os contos do livro Sonhos Elétricos flertam com diferentes gêneros. Parece um livro de contos do Stephen King, mas sem flertar com o terror tradicional. Há sim horror, horror cósmico a la Lovecraft. (Não vi ainda a série do Amazon Prime, mas me pareceu, pelo trailer, que as adaptações foram feitas com uma iluminação otimista, e o tom dos contos é algo mais para o dark/noir).
Só espero que vocês leiam antes de assistir a quaisquer dos episódios.
Ou melhor, não assistam, leiam.

Voltando a Blade Runner, o livro do caçador de ovelhas elétricas é muuuito bom. Ele na verdade serve como uma antecipação ao filme. São textos que dialogam entre si, e o roteiro do filme é excepcionalmente bem escrito.

Pintura de Emily Balivet


domingo, 6 de janeiro de 2019

Encarcerados



Comecei a ler o romance de sci-fi do John Scalzi (autor do excelente Guerra do Velho) com a esperança de que não fosse apenas uma história que falasse da relação de robôs conscientes e humanos.

Os "Encarcerados" do título não são simples robôs, mas sim humanos acometidos por uma estranha gripe que provoca uma paralisia total do corpo, com a manutenção da consciência como em uma prisão. Por causa de mudanças na anatomia e fisiologia cerebrais provocadas pela doença, e com avanços científicos proporcionados pelos EUA e parceiros comerciais, androides foram criados para dar guarida à mente dos humanos encarcerados.
A doença também provocou a alteração no cérebro de pouco mais de dez mil humanos que se tornaram "integradores", ou seja, permitem que um encarcerado use o corpo desse humano, como se em uma possessão espírita, com a manutenção em segundo plano do integrador que ele possa dar suporte ao encarcerado e evitar que este faça algo estúpido ou seja ajudado quando não consiga ou tenha dificuldade para dominar o corpo ocupado. A premissa básica é essa.

A história é narrada em primeira pessoa, do ponto de vista de um encarcerado, ou haden -  em homenagem à Sra. Haden, a primeira dama dos Estados Unidos, e a encarcerada mais famosa - Chris Shane. Encarcerado quando criança, filho único de uma família rica, querendo independência e sem ter o que fazer após sua formação em Letras - o que é explicado no livro - ele opta por ingressar no FBI, onde foi recém-criado um departamento para resolução de crimes contra ou praticados por hadens.


A trama para mim foi muito óbvia, apesar das tentativas do autor de fazer reviravoltas e criar elipses quanto aos planos dos personagens para capturarem os antagonistas, algo típico de romances policiais de baixa qualidade - apesar disso, o livro é bem escrito, usa boas metáforas, tem diálogos interessantes e possui boa sequência detetivescas.


Um assassinato aparentemente cometido por um integrador em serviço - por isso o envolvimento do FBI - ocorre em Washington DC no período de entrada em vigor de uma lei que acaba ou reduz bastante os subsídios do governo para tudo relacionado aos haden. 


Uma greve nacional dos haden ocorre ao mesmo tempo em que uma passeata e reunião é realizada na capital dos EUA - algo que me remeteu aos Panteras Negras e a Marcha sobre Washington pelos Civil Rights (Direitos Humanos). 


Vários integradores aparecem mais como estofo do que para dar qualidade ao romance,  servem para fazer a história avançar - e me pergunto: se há apenas dez mil integradores no mundo todo, porque aparecem uns cinco em um período de uma semana e em espaço tão restrito? Foi bem conveniente.
Notei alguns clichês em relação a alguns personagens, e não falo dos empresários e políticos ricos que aparecem nem dos Navajos, mas dos policiais, agentes burocratas e outros. Além disso, o autor criou algumas frases de efeito e frases prontas que poderiam ser ditas por dois ou três personagens indistintamente. 


Uma das personagens mais bem construídas foi a da agente Vann, parceira Senior do protagonista. Ela é uma ex-integradora e sua relação com esse período é bem interessante. 

Tenho a impressão de que Scalzi escreveu o romance tendo como pressa um dos principais ingredientes. Os personagens quase sempre têm resposta pra tudo e de forma reativa.
Destaco os conflitos psicológicos de quatro personagens - Shane, Vann, Lucas Hubbard e Cassandra Bell. Não vou elaborar para não estragar.


A questão ética é bem presente no livro, e sempre mostrada, e não contada. Scalzi optou por narrar experiências nas quais os integradores são levados a limites; são postas questões humanas e materiais acerca da manutenção dos corpos dos hadens; o preconceito também é abordado, e também penso que houve clichês quanto a isso, mas a obra nos faz pensar sobre segregação, meritocracia, discurso de ódio.


A ficção científica hard é bem caracterizada no livro, com implicações e aplicações em linguagem de programação, neuroanatomia, economia e negócios.


A tradução feita por Patê Rissatti está primorosa, e a editora Aleph fez um bom trabalho de editoração e diagramação.

No final das contas, o livro é divertido, prende - porque você quer resolver os mistérios - mas a obra parece mais um jogo de tabuleiro para a geração "pera com leite", para a qual tudo deve ser bem mastigadinho e explicado.
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Ebook Kindle.
Editora Aleph.
328 páginas.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

"Olha uma última vez para cima"

Era uma vez um empresário do ramo de biscoitos e bolachas (para agradar a ambos...) que vendeu sua fábrica, aboletou-se para São Paulo para participar de um leilão de um super terreno em Recife (!), terreno da União, em que há (havia) galpões, trilhos de trem etc. Juntou-se a uma mega construtora, pagaram apenas cinquenta milhões de reais pelo terreno - arremataram-no! - e criaram um projeto, encampado pelo prefeito da cidade - no escurinho do cinema - para a construção de imóveis (torres) de luxo em uma área junto ao rio. Acreditando que essa área deveria ser preservada, posta a uso pela cidade como um todo, e que, em qualquer caso, deveria haver discussão prévia sobre o caso, o Movimento Cidade Plana (MCP) surgiu e foi debelado em uma ação totalitária pelas autoridades locais... isso poderia ser ficção, e é, mas não folclore. Wellington de Melo, em seu romance "Felicidade", nos mostra o que ocorre no MCP após a desocupação - quando então a cúpula do movimento decide agir: quarenta membros cometeriam suicídio atirando-se de diversos prédios espalhados pela cidade. 
No meio desse ato, surge Ademir, principal voz do livro. O enredo parece-nos mostrar, em meio à crítica social, as ações de Ademir e suas consequências. Ademir é Narciso, Ademir é Édipo cego, é o Osiris de Isis... quer paixão, reconhecimento, sua carência é palpável; sua revolta, um sofrimento dentro de si.
Ademir é personagem de seu amante, Ignácio; sua vida contada é uma traição imperdoável - há incesto, estupro, abandono afetivo, idolatria; ele quer a redenção com sua irmã/irmão Zê, a atenção de Ignácio, a cama com seu cliente Pedro. 
Pedro, esse misterioso personagem... segurança de rua ou "agente provocador"? Os dois. Pedro que surge para assombrar Ademir ou é o próprio Ademir em suas memórias bloqueadas? Essas dúvidas não respondidas in totum dão ao romance uma profundidade psicológica, põem Ademir a circular em nossa mente.
A descida de Ademir no redemoinho que se segue parece ter seu rosebud em um evento quando era criança, um jogo de futebol e as "brincadeiras" que envolvem a descoberta da sexualidade. O que desencadeia seus atos narrados no livro pode ter sido essa fixação e paixão (consumada ou não consumada? Consumida?) por sua irmã/irmão; ou a(s) traição(ões) de Ignácio - por minha vez, penso que Ignácio não é estopim, mas engrenagem.


O livro é dividido em três partes que se interpenetram, não lineares, aparentemente circulares.
Quero chamar essas impressões de "Notas sobre Felicidade":
Parte 1 - Beleza - metáforas de construções e espaços urbanos; "horizontalização" dos ricos, uma homogeneidade que remete a questões de gosto, Pierre Bourdieu.
Pra mim, a frase que resume a parte Beleza é "All memory has its price, baby", porque em inglês ficou melhor (p. 23).
A interação entre Mário, Ignácio e Ademir (este conhece Ignácio por meio de Mário) parece ser o ponto alto da primeira parte. Há uma voz ali que critica a literatura hoje, o "movimento literário", o culto aos autores de frases feitas. 
Há uma voz ali que quer agir, libertar-se do papel, atacar e sumir, covarde e provocadora. Provocou-me angústia, e isso me agradou muito.
Parte 2 - Julgamento - O diálogo entre Lorena (membro do MCP) e Ademir é quase metonímico: conversão, reconciliação, crença, morte. Palavras não ditas pro que só foi dito em parte. A morte os interrompe - só não sei se como tabu ou como omertá.
Entendi como se Ademir tivesse sofrido um estupro coletivo aos oito, nove anos. Isso seria uma justificativa do autor para a homossexualidade da personagem, para sua prostituição? ("Falo. Tudo que vem à boca, falo" - belíssima passagem).
Ademir parece ser apático ao Movimento Cidade Plana (MCP), apesar de ser um dos seus participantes e estar prestes a fazer seu salto de protesto.
Há um diálogo, o "é preciso seguir em frente", que só nos mostra como esse tipo de perlocução é falsa, como nos enganamos sobre o luto e sobre aquilo de que não queremos recordar. O reprimido é a História.
O encontro entre Ademir e Marcelo nos mostra que a praça de alimentação hoje é o altar dos templos do consumo. Uma procissão, uma reunião, uma comunhão.
Parte 3 - Misericórdia - O julgamento nas redes sociais nos perfis dos suicidas; os anjos caídos; como se enterravam os reis, rei Ignácio, nascido do 🔥; o tempo avança sem misericórdia; semente para fugir do nada; a perda do amor: sem Zê, Ademir não era nada nem ninguém - o alfa e o Ômega, de A a Z.
Essas notas me tomaram como assombração. Foram quase um fluxo do inconsciente. E por que não fazer crítica/resenha/apontamentos/gosto assim? Eu adorei! Não sou vinculado à academia - pelo menos de crítica literária - então me sinto e sou dono desse espaço. Sim, isso é uma justificativa ao método e aos haters...

Voltando ao romance.
Os perfis dos personagens de classe média alta que aparecem são estereotipados - pessoas fruto de uma educação patriarcal, machista e segregacionista. Não são, porém - e ainda bem - caricaturas. 
Os prédios antropomorfizados - eram as vivas (inertes, mas com vida apenas intestina) homenagens aos antigos proprietários das terras em que foram edificados. 
O MCP tem seu intento - para chamar atenção ou mesmo se implodir com o Ato - visto por inúmeras pessoas, mas estranhamente os noticiários são silentes. Ainda que haja uma ética de não se noticiarem suicídios, os atos do MCP são quase terroristas, no mínimo políticos.
A voz narrativa dominante, a de Ademir, coloca-nos sob o signo da ausência, ausência dos corpos, da verdade, ausência de si. A literatura nos mostra no outro, nos traz conhecimento e nos brinda com a possibilidade de sairmos mais sábios após as últimas páginas de um livro.
Li em algumas resenhas que Wellington pecou ao tentar realizar uma alegoria sem se aprofundar na crítica social. Como já afirmei antes, o romance não é folclore (nem uma cena do filme The Wall). A história de Ademir - tendo como pano de fundo a crítica político-social em relação à urbanização desenfreada do Recife, o controle do governo sobre a mídia local, a sociedade patriarcal - sobressai-se porque o indivíduo é, antes de tudo assujeitado - às ideologias, ao inconsciente, a seus traumas psicofísicos - tudo em meio a uma tentativa de se emancipar, ainda que desconhecida ou vã - como ocorreu com Ademir, pois ele parece se perder, desmanchar-se no(s) outro(s).
Por fim, Ademir se compromete com escolhas definitivas? 
Vai ler o livro!