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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Valentina em poesia

Antes da minha filha nascer, escrevi um poema inspirado na sua abstrata presença.

VALENTINA

Vibra, vigora o vaticínio:
vem, virtude;
viaja o vespertino véu
via ventania e vagar.
Vai, voraz, verter o verso
no vergel da vida.
Viva, Valentina, viva.

domingo, 28 de agosto de 2016

Conto - O Duque


O DUQUE

Não era possível. Ele tinha fechado o jogo. Tinha certeza, venceriam por pontos. Colocou o duque lá, na ponta. O parceiro, encardido, enjoado, musicou e deu a vez. Ele sabia que ia fechar o jogo.

Bateram de Duque, que merda: Lá e Lô, e Cruzado! A carroça de Duque...

Pi .... Pi .... Pi .... Pi ... Pi ... Pi .. Pi . Pi Pi Pi Lá vem a Dona correndo. Pi Pi Pi .. Pi ... Pi ... Pi .... Pi ..... Lá vai a Dona correndo.

Parecia avisar que ele perdeu, mandou contar o tempo da última vez que ganhou. Piiii!!! Poderia ser a zombaria, sua zombaria particular, de quem não ganha há tempos. O Real perdido a cada rodada, mas o copo ganho sentado compensa a garrafa em pé. Afinal, ele era um dos Jogadores. Queria jogar...

Como ele não tinha percebido que eles tinham um duque? Ele tinha de ter contado, mas o parceiro não sabia que ele fingia contar as peças. Ficava assim, feito Terence, o mendigo, encostado na barraca de coco, todo de preto e espichado nesse sol, fingindo que não se interessava, fingindo que não pedia dinheiro, fingindo que ia embora. Fingia que contava. Mas Terence não jogava, não. A gente fingia e ele que não. Se escondia na frente de todo mundo e só falava quando falavam com ele. Levantava o braço e cumprimentava a maresia. Era feito a carroça de Duque não contada, uma pedra vesga, olhava e fingia que não olhava.

A Sofrência sacudiu a mesa e as peças se remexeram, pararam, caíram no colo. O Morto ficou ali, morto, as pedras equilibradas de cabeça prá baixo. Ele olhou pras suas peças, olhou pro morto, queria ressuscitar algumas, queria ganhar aquele jogo, queria ficar naquela estufa, mas o melhor era estar na água, se refrescar, na água quente da praia, se benzer no chuveiro salgado do sol. E se perdesse? Se perdesse era ruim, ruim mesmo, ele ia saber. Ia prá outra cerveja, de todo jeito iria, mas iria em pé, soltando graça para se fingir de graça, prá se desviar do quadrado do dominó para a roda da folia. O mar não dava liga, pros companheiros era só o banho antes do PE-15, da Integração...

Tava quente, e o cheiro fedia, fedia a sacolinha da prefeitura que deram pro lixo, prá consciência ambiental, pro homem de verde, para mim e para você. Prá que salvar tanta gente?, ele parecia pensar. Já tem um bocado. Em setenta eram noventa milhões em ação; agora, deve ser quase bilhão. Deixa como tá, se vai, vai. É só mais gente... Na casa dele eram cinco. E pensa que é falta do que fazer? Governo dando dinheiro, bolsa prá família... até certo ponto, quanto mais trabalho, melhor. E ele aqui, de seguro desemprego, olhando pras pedras, o riso escapou. “Tá rindo de quê? Joga nessa merda!”

Ele queria jogar e contava. Contava que tinha cinco pedras na mão. Calculava que era muito esforço para salvar o que só aumentava. É, no barraco o pirraia já dizia que Lula volta. E Dilma num veio também? E num foi? Feito a dona do Pi Pi Pi, quando vem, passa rápido.

A Dona volta. Pi .... Pi .... Pi ... Pi . Pi Pi PiPiPiPiPiPiPiPiPiPiiiPiiiPiiiPiiiii... A Dona cai. E eles bateram de novo. Lá e Lô, e Cruzado, e de Duque. Ah, não, os miseráveis tavam roubando. Esconderam a pedra quando mexeram. Com o olhar ele acusou o Morto, que ficou calado. O rebuliço foi geral! Os homens bateram suas camisas nas costas dele. “Vai ser pé ruim assim lá em casa!”

Piiiipiiiipiiiipiiiipiiipiiiipiiii

“É pé frio”, o outro gargalhava.

“Ei, porra, a Dona, mermão, a Dona!"

Aquilo veio como tsunami e se espalhou. Antes alegria, agora desolação, correria, a Dona no chão, ele olhando prás pedras, e eu já não. “Olha a Dona, pô!”

Ela tava deitada de costas, a camiseta azul arrochada, espalhada pela areia do calçadão, suada. Tava no exercício, era bom um regime, né? A viseira caída, o queixo tremendo.

Piiipiiipiiiipiiipiiiipiiipiiii

Já tinha gente demais, e eu vi mãos nos afastar, um círculo se formar e ele, de alguma forma lá dentro, pôs o boné prá trás e segurou os braços da Dona. Colocou a mão no centro do peito dela, era um prá cada lado, e segurou o pulso da coitada.

Então ele desatacou o relógio e jogou o bicho no chão. Olhou para mim e disse: “Pronto, quero ver agora!”.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Amargo a Setenta *


No centro da cidade a terra é definida pela água. São meandros, canais, braços de rio com desejo de mar, um mosaico de ilhas e aterros de uma agitação urbana. Pés caminham sobre locais de batalha, e artefatos históricos se escondem sob o pavimento. Monumentos em homenagem à defesa e à segurança são cercados pela modernidade onde antes era mar e arrebentação.
Caminhei entre os santos - de Santo Antônio a São José - com cautela, por causa da hora, mas certo de que o frescor da noite me afastaria de pensamentos desagradáveis.
Número 70 da Rua da Praia, foi o que me disseram. “Amor a 70”, diz a placa. Uma maçã desbotada sobre um coração não menos gasto. O suficiente. A morte a 70 é o que trago.
A madeira da escadaria é seca, empoeirada, sulcada no centro. Rangeria o eco solitário dos meus passos.
Um puteiro com seus segredos, paredes descascadas e espaços entre cantos preenchidos com promessas de um vislumbre. Pelo espelho duplo eu via corpos se tocarem, se trocarem, espalhados pela cama. Um clichê de cetim, brilho e reflexos filtrava a luz diáfana das lamparinas sobre o toucador. Eu assistia e resistia ao impulso de fazer parte dessa onírica melodia. Queria fugir sem me retirar, aplacar a angústia sem tocar na ferida, morder o chocolate sem retirar o delicadíssimo papel que o embrulhava.
Dezoito reais e noventa e nove centavos por cem gramas de chocolate amargo a setenta por cento. É bem mais do que eu preciso para uma só noite. Já não é uma excentricidade gostar desse tipo, mas um sorriso amigável, e à vista, é sempre bem-vindo.
Guardo a barra no bolso interno do meu casaco e volto a olhar pelo vidro. Os lençóis caem em cascata pelo chão. Ele, deitado, se recosta à fina parede, sua mão procurando um cigarro aceso que repousa no cinzeiro de metal. O tesão bateu mais forte, pois a cinza pende sob o efeito da gravidade e a brasa come, devagar, o papel seda.
Ela é magra, pernas compridas e finas bem desenhadas. Os ossos da pélvis são salientes, e seus seios preenchem o ar com suavidade e um viço juvenil invejado por muitas. A maquiagem pesada, à meia luz, torna incerta sua idade. Seu cabelo tem um corte engraçado, marca o rosto redondo e ossudo, e seu lábio inferior parece se fender quando ela sorri. Ela gira nos calcanhares, com um leve tremor. De onde estou não consigo ver o que está fazendo, mas logo ela deve trazer uma bandeja velha, porém bem cuidada, com pratos fumegantes e um par de drinques coloridos. Além da amarga sobremesa. O serviço fora entregue. Eu abro os olhos e paro de imaginar o que teria ocorrido naquela alcova.
Na verdade estou sentado. Sentado sobre uma das velhas e polidas pedras de lastro de navio que adornam as calçadas do centro da cidade, buscando conter meus pés que não conseguem se firmar sobre a sulcada superfície da rua, ainda mais porque molhada.
Eu me afasto quando escuto os primeiros gritos roucos e vozes estridentes. Chamariam o Samu? Acho que não. O que alguém como ele estaria fazendo ali?
À noite, o entorno do mercado contrasta a ebulição da feira diurna. Eu ouço vozes perdidas na rua deserta.
Sinto-me abundante, a plenos pulmões. Apenas os vapores são sentidos, formam uma crosta sobre as paredes e lajes dos antigos edifícios, cujas portas parecem apenas querer comércio. Dividem espaço com os moradores da região que, deitados sobre as calçadas, tentam fugir do vento quente trazido pela maresia.
Não há porque me preocupar com os restos de ontem, não há porque desfilar um conjunto de intenções presumidas, um salto no escuro dos acontecimentos. Eu queria era poder conseguir um grande furo e mandar parar as prensas, mas, no meu negócio, a fama é restrita. Deve ser acessível apenas aos que importam, e estes já se foram. Se você quiser atenção, não siga meus passos. Mas você quer. Acaba dando com a língua nos dentes. Quer falar, quer que o outro saiba quem você realmente é, quer dividir com o mundo as maravilhas de que é capaz. E o mundo é cruel com tipos como eu.
Não deixe que gostem de você, mas seja agradável. E, se você for curioso como eu, estude. Estude muito, ocupe seu tempo, faça alguns trabalhos manuais, aprenda alguns idiomas, viaje. Conheça novas pessoas longe de onde você mora. Frequente clubes de swing por prazer e não apenas profissionalmente, como eu. Há momentos em que a discrição ajuda. E ser solitário é chamar atenção. Tenha pessoas a seu redor, mas fique quieto. Eles querem um trabalho limpo e dão as diretrizes. Sempre sabem que órgãos a artéria principal alimenta. É uma questão de aprendizado, de erros e acertos, de aperfeiçoamento e constante purificação.
Olho para trás e vejo a ambulância chegar para atender a vítima de parada respiratória. Chamaram o Samu. Era alérgico, coitado, é o que sairá no laudo do IML.
Sim, eu voltarei a esse clube. A proprietária é bem discreta.
“Moço, moço”, sinto um puxão na perna e um tilintar de moedas, “me dá um dinheirinho”. Algumas moedas vão do meu bolso ao saco de lona puída que ela carrega. Dou o restante do chocolate, também. Vejo que ela o divide em dois e o joga dentro do saco. Alguém tem de ensiná-la a sobreviver. Primeiro, é de madrugada; depois, está tudo fechado; terceiro, quem arrecada dinheiro a essa hora? Ela se afasta em silêncio e balançando o saco enquanto anda. A vida ensina.
Agora eu giro nos calcanhares. Corro em direção à menina e a seguro bruscamente, deixando-a momentaneamente assustada. Para amenizar a situação, converso com ela em um patuá difícil de ser entendido. Ela se abraça ao saco e me olha com olhos capitalistas. Está prestes a agir em legítima defesa de sua propriedade turbada quando eu lhe estendo uma nota de dois reais novinha. Seus olhos se arregalam ainda mais. Eu teria achado isso impossível momentos antes, quando lhe dei o chocolate, que agora ela me devolve após uma justa e difícil negociação. Algo tão banal quanto lhe devolver a vida – “Amorte a 70”. Por hoje não mais. É uma questão de aprendizado, de erros e acertos, de aperfeiçoamento e constante purificação.

* Esse conto foi um dos vencedores do concurso de Literatura do Tribunal de Justiça de Pernambuco em 2015.
Em tempo: sou aluno de Sidney Rocha, mas produzi esse conto antes das primeiras aulas com o mestre, senão teria aplicado as edições que quis posteriormente fazer. Por honestidade intelectual, segue o conto como fora publicado.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Costeleta de porco ao molho de mel e mostarda







Preparei uma costeleta de porco com um deliciosíssimo molho. Sim, o molho foi o destaque, por pequenos erros que acabaram não sendo meros detalhes. Explico durante o processo...


Ingredientes:


1 tira de costela de porco aparada;
4 colheres (sopa) de mostarda dijon ao mel;
50 ml de óleo de gergelim;
10 ml de vodka ou cachaça;
Suco de 2 limões;
Sal e pimenta do reino;
Orégano;
2 colheres (sopa) de extrato de tomate;
Alguns ramos de alecrim;
Cebolinha francesa cortada (a parte branca).

Le Comofazê:

A costeleta tem de estar descongelada, fresca (e foi aí onde errei, pois a comprei congelada, pus a bicha na geladeira e comecei a preparar o prato com ela ainda durinha).

Deve-se preparar uma marinada com a Mostarda, o Óleo de Gergelim, a Vodka ou Cachaça, o Sal, o Orégano, o Extrato de Tomate e o Limão.

Ponha a costeleta em uma assadeira, despeje a marinada, os ramos de alecrim, a cebolinha picada, cubra-a com papel alumínio e devolva-a à geladeira por pelo menos 6 horas.

Pre-aqueça o forno a 180º, por dez minutos. Após retirar a costeleta da geladeira, asse-a por 30 a 40 min (tem gente que recomenda 200º por 20 min - outro erro meu, deixei a 200º por mais de 30 minutos!, somando-se ao primeiro erro, a carne não ficou macia, mas ficou saborosa). Depois retire o papel alumínio e deixe dourar por mais 20 minutos.

Está pronto! Eu servi com uma batata aos murros temperada com sal e azeite. 

Dica: recomento temperar a costeleta com sal grosso. A carne não ficará salgada - o sal grosso é absorvido na quantidade necessária (osmose!).

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Bolo de Laranja com Capuccino Cremoso


Após um Acidente de Proporções Gastronômicas, pude apreciar na cozinha de casa o por do sol em algum lugar por trás dos espigões que cobrem minha visão. É tudo uma questão de imagem e imaginação.


O acidente ocorreu após uma queda vertiginosa na qual massa e ovos (ainda na casca) se misturaram sem precedentes.


O resultado, como vocês veem nessa foto pessimamente enquadrada, foi um delicioso bolo de laranja acompanhado de um não menos palatável capuccino caseiro. 


Fiz essas receitas há meses. A lembrança me trouxe boas risadas e um gosto residual que só a memória proporciona.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Eu ando pelo mundo prestanto atenção..."

 Ou não!


Será esse o espírito d'O Diletante?


Cores das quais não sei o nome; pratos deliciosos, frutos de uma petrificante alquimia, eles dizem: "Decifra-me para me devorar".


I'm a scavenger and I shall prevail.


Bem-vindo!


E, qualquer coisa, pergunte ao pó!



domingo, 20 de junho de 2010

Vodca e Literatura em um conto de Artur Lins

Este conto, Na Zdorovye, foi publicado no blog do Urros Masculinos em 2010. O link é este, mas você pode ler o conto aqui:

NA ZDOROVYE*

Sou chamado às claras por uma tontura persistente. Estou a três centímetros do travesseiro. O cobertor está engomado e dobrado ao meu lado. Minha bunda aponta para cima; minhas pernas, curvadas até a altura da barriga, e minhas costas oferecem uma pista de pouso para mosquitos indesejáveis.

Faz frio, muito frio, mas o que o corpo percebe a mente não quer processar. Sinto apenas o fedor etílico entornar por todo o quarto.

O braço tateia para os lados e de repente parece uma mangueira sem controle: dormente.

Estico as pernas e desabrocho em minha cama. Pego o lençol com a outra mão e faço do meu canto um sarcófago, enrolado como uma múmia. (A esperança de um sono tranqüilo cede à necessidade de um mijo insistente)

… que não quer parar e pinta o chão com a cor do sol. Bom, pinho sol amanhã de manhã. Não sei se tenho, mas vê lá, quem sabe?

Volto e penso naquela bundinha empinada… não, estou só. Delirante, companheiro. Que a vodka desperte em ti a pujança de um ardor ancestral no céu da boca. Só as de péssima qualidade. Deitada, arrepiada, tremendo de frio… e eu só olhando. A carne na cama. A vodka no congelador. Mas eu tô com frio. E ela não está lá. Já foi, não sei. Foi quando?, passou. Entornei de repente…

Eu sento. E só percebo a madeira embaixo de mim quando me deito. O corredor se fez notar em sua nuance familiar. Por esse ângulo demorou, mas nada que vinte anos de convivência imobiliária não resolvam.

Ficarei aqui, prostrado. Intitularei este momento “a razão de não voltar pra cama”. Ela não está lá.

(* saúde em russo)