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sábado, 27 de abril de 2024

Rabiscos sobe Nossa Parte de Noite, de Mariana Enriquez

 Nossa parte de noite, de Marina Enriquez.

Ed. Intrínseca, edição do clube de livro Intrínsecos (foto do conteúdo, que é um mimo aos leitores, abaixo).

Tradução de Elisa Menezes

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A primeira e terceira parte do livro possuem uma influência bem clara de Stephen King, com um toque de romance de formação na parte 3. 

Na primeira parte ainda há um quê de road movie.

A parte 2, narrada pelo médico Bradford, me lembrou Lovecraft e Arthur Machen, de O grande deus Pã. É apenas um interlúdio, mas não deixa de ser um vívido relato sobre as ilusões e falsas expectativas de alguém que se acha autorizado pelo poder do dinheiro e da influência familiar. 

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Algo que me incomodou na primeira parte foi a fantasia. Os rituais e "poderes" do medium da ordem, o melancólico e homem-deus Juan Peterson. Creio que eu não estava preparado para uma suspensão de crença, mas sim para algo mais sutil, no estilo da construção narrativa de Stephen King, o que a autora o faz de forma magistral na parte 2, em que acompanhamos Gaspar, filho de Juan, suas desventuras com seus amigos e o elemento sobrenatural aparecendo de forma sutil, aqui e ali, até que a sutileza não tem mais lugar...

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A parte 4, a mais longa, narrada por Rosario, é a parte de que mais gostei. 

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É gótico, possui diversas vozes narrativas, vários gêneros.

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Gaspar, assim como Juan, parecem, por vezes, pessoas mimadas demais. Talvez eu tenha essa impressão por reconhecimento próprio, hehe, mas também sei que isso se deve, no texto, a como eles foram criados, sem uma fonte  emocional de amor & limite - além de uma violência não explicada e sem direção.

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Não fiz dessa vez minhas "Impressões", uma resenha mais elaborada sobre o texto.

Esses rabiscos eu os fiz quando li o livro, meses atrás, e creio que valem pra serem publicados no blog.

Uma nota sobre a estrutura do livro é que, em cada parte, tem praticamente um gênero diferente, e isso diz muito sobre o processo criativo desse livro em particular, e não o da autora.

Aguardem uma impressão minha sobre o livro de contos "Os perigos de fumar na cama", também dessa autora (ainda nem tenho um exemplar, mas terei).





quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Impressões sangrentas sobre Seja Imortal, de Frederico Toscano



Fazia tempos que eu procurava um livro sobre/com vampiros que não se prendesse às questões melancólicas, às formas de sua destruição, ao sangue dos e das virgens - enfim, que fugisse aos clichês. Há sim essas questões, mas elas são menor ao enredo de Seja Imortal (Frederico Toscano, edição digital do autor) e são, ainda assim, constitutivas dele.

Não que Seja Imortal não nos traga uma familiaridade com o mito e suas diversas lendas, mas, se você procura os vampiros de Anne Rice, John Carpenter e Bram Stoker, vá diretamente nessas fontes. Os vampiros de Frederico Toscano estão mais próximos, para mim, dos de Stephen King em Salem's Lot (pela natureza), também presentes na saga A Torre Negra (em que há também uma questão corporativa).

Como suportar o jugo de viver para sempre, mas sem hormônios para regular nosso corpo, tendo de fugir do sol, de turbas ensandecidas etc. Bom, isso aqui não é um ensaio, mas vamos lá.

O livro conta a história de Eudora, mulher negra, portadora de deficiência física, e um gênio no seu campo de trabalho. Enquanto progride na carreira, chama atenção dos executivos vampirescos de uma empresa milenar que se instalou no Brasil - lugar, aliás, em que os imortais resolveram se revelar ao mundo. De sua cultura, eles trouxeram nomes, históricos ou não, lastreados na Grécia Antiga e até mesmo em mitos ainda mais antigos.

Voltando à natureza vampiresca, é impressionante como Frederico Toscano conseguiu nos mostrar diversas agendas dos vampiros e, no final, a síntese de todas elas, uma apoteose que volta ao início, como o dragão mordendo a própria cauda (mordendo de verdade, no pun intended) - mas deixarei para o leitor chegar nesse ponto.

O livro é imenso, super bem escrito, muito bem pesquisado (bom, o autor é mestre e doutor em História, convenhamos) e vai revelar ao leitor belas surpresas. Pra mim, houve aquele impacto de não querer largar o livro, mas, como tenho outras leituras, o momento de ler Seja Imortal geralmente era após às 22h, na cama, o ambiente escuro... Seja Corajoso hehehe.

O livro fala de abusos. Abusos políticos, individuais, coletivos. Fala de um país fraturado e dominado pela elite financeira. Fala também de resistência, independentemente do poder das elites. É um convite para a ação em meio à opressão. Senti ecos de leituras minhas anteriores: 1984, Admirável Mundo Novo (Soma neste; Ambrosia e o Elixir em Seja Imortal); A Rainha dos Condenados (da Anne Rice, mas ruim), Fahrenheit 451, e até de Assassin's Creed Odissey (só quem se apaixonou por Kassandra e sua jornada sabe...).

Bom, espero que venham continuações ou outras histórias no mesmo universo. Serão muito bem vindas.


* O livro é uma edição do autor, então possui pequenos erros que não passariam em uma revisão, mas nada que comprometa a leitura. Quero que essa obra caia logo no radar das editoras, merece muito uma edição física.

sábado, 4 de julho de 2020

Impressões sobre Carapaça Escura

Impressões sobre Carapaça Escura,

de Frederico Toscano.

Patuá Editora, 96 páginas.


Eu acabara de ler Otelo, então estava rodeado por água - Veneza e Chipre - e no qual o principal assassinato é por sufocamento.

Em seguida, assisti, por três dias, à minissérie O Terror (The Terror), a qual adaptou o livro de Dan Simmons à telinha, e que reconta, de forma magistral, e com um toque de terror, a Expedição Franklin - em que o Comandante Sir John Franklin tentava descobrir e singrar a "Passagem Noroeste" entre o Atlântico e o Pacífico, este no Estreito de Bering.

Água, afogamento (a maioria dos marinheiros contratados antigamente não sabiam nadar, vai saber…), envenenamento, urso gigante, doenças e um escafandro…

Eu pensei em ler um livro de contos policiais no leitor digital, mas então me lembrei - acabei de me lembrar - de que havia separado este livro:


Muito mais do que atraído pela capa, a qual me provoca admiração estética e um certo calafrio (palavra usada pelo autor em sua dedicatória a mim), eu estava imerso em uma sensação de ser assimilado pelo que minha cidade - Recife - tem a oferecer em termos estéticos quando se trata de água, pavor e os demônios que habitam os pátios eclesiásticos.

Mergulhei, então, na leitura do livro.

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Nos dois primeiros contos me fascinou a linguagem usada pelo autor, com um vocabulário regional, delicioso… eu até parecia ver a pessoa falar ao meu lado.

Vi um pouco da vida que também é e foi minha: morando, quando criança, no limite oeste do bairro de Boa Viagem, minha rua era de barro, continuação da rua de uma favela, então havia um muro invisível que de vez em quando nós transpúnhamos… Ralar o joelho, pular muro dos vizinhos, voltar melado de barro para a barra da saia da mãe, isso teve… Teve também o mistério de uma casa que parecia ter um lago dentro de si, com uma jangada… bem, essa história vou contar depois.

Já na Avenida Boa Viagem, limite leste do bairro junto ao mar, vimos o outro lado, um decadente militar de classe média alta, com seus crimes e violência patriarcal escondidos pela caserna, faz uma descoberta junto ao quebra-mar que vai mudar sua vida, sendo, ao mesmo tempo, uma visita do passado.

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Essas histórias retiveram em mim uma sensação pueril de estranhamento quanto ao mundo, muito maior do que eu apreendera até aquele momento.

E, ainda, em termos de nota pessoal, e porque penso que fiquei contaminado com o "urso" que apareceu na série O Terror, senti que algumas das cenas muito bem mostradas, poderiam ficar mais na insinuação do que explicitadas - mas, repito, isso é um gosto estético que, penso, vai de encontro à proposta do livro, assumidamente de literatura fantástica. Prossigamos…

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Algo no livro que me encantou foi a escrita. Frederico teve um cuidado artesanal com a linguagem.

Frases como "Ascendeu devagar em direção à luminosidade tremulante e, resignado, deixou-se abandonar aos caprichos daquela vontade superior, qual mamulengo ao final do espetáculo", sobre a retirada de um escafandrista da água, no conto Carapaça Escura.

Uma assombração em uma pista de barro, sob a luz de uma lamparina e companhia do mato ao redor é "uma alvura suspensa na curva da estrada", e não adianta se afastar, pois a assombração continua lá, como "uma impressão pesando-lhe sobre a nuca", em A Estrada Dela.

Uma simples imagem que nos remete à vida e ao nascimento é transformada em um horror lovecraftiano, descrito, em O Abismo no Céu, "como uma placenta repleta de olhos e membros retorcidos".

Isso só demonstra uma patente transpiração, sem artificialismos.

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Se você gosta de literatura, leia; se gosta de literatura fantástica, leia.