sábado, 3 de dezembro de 2016

A estética e o vinho

A arte da garrafa.

Poderíamos chamar assim ao produto derivado de um contínuo e por vezes longevo processo de produção.

Não há um bom vinho que venha de um lugar feio. A terra, o ar, o sol, a água - seja orvalho, rega, chuva ou suor.

O trabalho em si não envolve glamour. É sim fruto de pesquisas, contingências climáticas e, principalmente, experiência - tentativa e erro.

Isso é arte. É a capacidade humana de transformar seu entorno e criar um produto que nos faça questionar o próprio ar que ocupamos, os espaços entre ele, que nos emocione. 

Sem emoção não há arte, não há produção que vingue.  Não há vinho que valha a pena ser sorvido.

Skilt!

sábado, 15 de outubro de 2016

O que é literatura?

Terry Eagleton ainda não me respondeu. Nem me responderam meus professores nem o senso comum das redes sociais. Há vislumbres, porém…

Fiquei impressionado com a comoção quanto à escolha de Bob Dylan como representante da literatura para o comitê do Nobel. Impressionado por conta da recepção polarizada à premiação.

O que é literatura?

Em 1991, Neil Gaiman ganhou o World Fantasy Award de melhor conto com “Sonho de uma Noite de Verão”, edição nº 19 da série regular de Sandman. A história não era o que se considera Grafic Novel. Não!, era uma edição de uma série regular e mensal…

Shakespeare escrevia teatro e poemas. Hoje é o representante máximo da literatura em inglês. “Mas teatro é um roteiro, né?” É? Sam Shepard faz literatura?

Qual a intenção por trás das obras? Dylan compõe canções ou sua obra é poesia musicada? Podemos rotular de “literatura” apenas aquilo que é feito com “intenção literária”? (Uma intenção poética…) O leitor é quem deve descobrir isso? Qual o papel da autoria…

Que critério posso utilizar para separar uma composição que se considere literatura de algo feito apenas para entreter e ganhar dinheiro? As “imagens poéticas”, pelas quais Dylan foi saudado pelo comitê do Nobel? A pergunta inicial nem é essa, e sim “uma composição é literatura?”.

A intenção do autor está superada. Essa intenção é fictícia, não pode devorar a própria cauda. Escapa a quando os fólios de Shakespeare foram primeiro encenados (e lidos!), escapa a sejam lá quais fossem as críticas que ele intencionava à(na) Era Elizabetana, mas sinto que está presente na “imagem poética” do texto.

Li ontem a recepção do meio acadêmico, do meio crítico, do meio literário. Muitos doutores saudaram a escolha de Dylan, outros não. Muitos autores disseram que a literatura perdeu com essa premiação, outros ficaram felizes com a escolha. Penso ser legítima a crítica de que há compositores melhores do que Dylan, mas isso é fazer um desvio quanto ao objeto deste texto.

A quem a razão alimenta? Quem defeca o saber? Será que é assim?

Não enxergar um caráter literário em uma composição musical é diminuir a poesia - e há alguns escritores e acadêmicos que não consideram poesia como literatura -, é tirar a beleza do olhar humano, é fechar as possibilidades da expressão artística. A pergunta “o que é literatura?” deságua em “o que é arte?”, e ainda lerei a resposta de Tolstói a esta questão.

Dizer que isso ou aquilo não é literatura, sem um embasamento teórico, sem uma pesquisa profunda nas formas materiais, enfim sem uma vivência é, também, tachar a realidade por meio de um subjetivismo limitador. Creio que também seja uma forma de preconceito.

Márcia Tiburi e Rubens Casara escreveram, recentemente, que:

<<O preconceituoso é, na verdade, em um sentido um pouco mais profundo, alguém que tem muito medo, mas em vez de enfrentar seu medo com coragem, ele usa a covardia, justamente porque é impotente para enfrentar seu próprio medo. // O preconceituoso é, basicamente, um covarde.>> (fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2016/10/50931/).

Tenhamos coragem de questionar o que a literatura representa. No atual estado das coisas, ela não “é”, ela “está”, e as formas materiais de expressão, mais do que “meios de representação da arte”, nos levarão sempre a desafiar os limites do humano.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Trânsito

Não deixo de transitar
por vários mundos
e ficar escancarado
à espera de algo
que me arrebate

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Saída

Cedo ou não para falar sobre isso, sinto que é necessário.
É como um compartilhar para o bem do próximo.
Comecei um processo de análise. Foi apenas um par de sessão.
Pensei que eu entraria em um labirinto e encontraria sua saída.
As paredes altas convidariam à pressa e à insegurança, as curvas e meandros trariam uma expectativa e incerteza quanto ao que (não) se espera.
A SAÍDA seria como um portal rumo à liberdade. 
Não foi por aí.
Buscar a saída é vê-la espelhada, é adiar o encontro consigo.
Senti-me como sendo suturado; a agulha fura, corta e fere, mas vai, nessa tessitura, fazendo buracos nas paredes dos labirintos, entrelaçando aspectos que talvez nem fossem vislumbrados. 
Quem sabe eu me vista desse tecido? O processo é longo, sinto que é necesário.
E então a chegada e a saída dirão apenas respeito às duas certezas coletivamente compartilhadas, a vida e a morte.



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Amor, maldição!

E existe amar no mau sentido? Não confunda amor e paixão, atração, maldição! Há amor sem paixão, atração sem paixão, paixão sem amor. Mas se pode amar mal, ah e como se ama, como mal se ama.

Não possuímos a simplicidade das plantas, volúveis e voláteis, levadas pelo vento para germinar quem se encontra pela frente. É uma cópula termal, folhagens balouçantes, ondeantes, raízes se entrelaçando, trepando umas nas outras com muita simplicidade e naturalidade.

Os animais... São os mestres. Fulano é um galinha. A outra, uma piranha. Aquele ali come que nem um coelho. E nós, enganados nesse antropomorfismo discriminatório. Os irracionais são tão simples, sabem o que querem, conhecem os riscos e investem em suas pulsões. 

Irracionais ou não, sempre temos de equacionar as pequenas variáveis. Um amontoado de sentimentos, sensações, beliscões e tapinhas de um intercurso cheio de interlúdios. Cheio de contas mal feitas e resultados sem explicações.

Amor, paixão, atração, tudo é um exercício intelectual para nós, humanas criaturas. O sexo selvagem é uma mentira inventada para enganar nossos hormônios, para nos despistar e nos fazer parar de pensar em sexo.

Mas que é bom, é.

E o amor? Filho dos deuses ou criação humana, desgarrada das convenções sociais mais hostis? O amor é fogo, ferida, doença, bálsamo, panaceia. Até agora, isto sim, um grande efeito placebo. O amor é o país dos viajantes perdidos, ninguém voltou para dele falar em definitivo. Há aproximações desalinhadas, conceitos tautológicos, tergiversações de uma má retórica.

Não desista, porém. Quem sou eu para falar sobre o amor?

Mas se o amor se explica, isso revela muita coisa. Fico com Osho quando ele diz que "as explicações são enganosas". E ele diz mais: "O perfeito amor dispensa demonstrações (...) não tem know-how", não precisa ser ensinado.

Ame, ache que ame, ame o amor e ame amar. Se sentir uma explosão inominável, aceite. O amor, afinal, é uma roleta russa.

domingo, 28 de agosto de 2016

Conto - O Duque


O DUQUE

Não era possível. Ele tinha fechado o jogo. Tinha certeza, venceriam por pontos. Colocou o duque lá, na ponta. O parceiro, encardido, enjoado, musicou e deu a vez. Ele sabia que ia fechar o jogo.

Bateram de Duque, que merda: Lá e Lô, e Cruzado! A carroça de Duque...

Pi .... Pi .... Pi .... Pi ... Pi ... Pi .. Pi . Pi Pi Pi Lá vem a Dona correndo. Pi Pi Pi .. Pi ... Pi ... Pi .... Pi ..... Lá vai a Dona correndo.

Parecia avisar que ele perdeu, mandou contar o tempo da última vez que ganhou. Piiii!!! Poderia ser a zombaria, sua zombaria particular, de quem não ganha há tempos. O Real perdido a cada rodada, mas o copo ganho sentado compensa a garrafa em pé. Afinal, ele era um dos Jogadores. Queria jogar...

Como ele não tinha percebido que eles tinham um duque? Ele tinha de ter contado, mas o parceiro não sabia que ele fingia contar as peças. Ficava assim, feito Terence, o mendigo, encostado na barraca de coco, todo de preto e espichado nesse sol, fingindo que não se interessava, fingindo que não pedia dinheiro, fingindo que ia embora. Fingia que contava. Mas Terence não jogava, não. A gente fingia e ele que não. Se escondia na frente de todo mundo e só falava quando falavam com ele. Levantava o braço e cumprimentava a maresia. Era feito a carroça de Duque não contada, uma pedra vesga, olhava e fingia que não olhava.

A Sofrência sacudiu a mesa e as peças se remexeram, pararam, caíram no colo. O Morto ficou ali, morto, as pedras equilibradas de cabeça prá baixo. Ele olhou pras suas peças, olhou pro morto, queria ressuscitar algumas, queria ganhar aquele jogo, queria ficar naquela estufa, mas o melhor era estar na água, se refrescar, na água quente da praia, se benzer no chuveiro salgado do sol. E se perdesse? Se perdesse era ruim, ruim mesmo, ele ia saber. Ia prá outra cerveja, de todo jeito iria, mas iria em pé, soltando graça para se fingir de graça, prá se desviar do quadrado do dominó para a roda da folia. O mar não dava liga, pros companheiros era só o banho antes do PE-15, da Integração...

Tava quente, e o cheiro fedia, fedia a sacolinha da prefeitura que deram pro lixo, prá consciência ambiental, pro homem de verde, para mim e para você. Prá que salvar tanta gente?, ele parecia pensar. Já tem um bocado. Em setenta eram noventa milhões em ação; agora, deve ser quase bilhão. Deixa como tá, se vai, vai. É só mais gente... Na casa dele eram cinco. E pensa que é falta do que fazer? Governo dando dinheiro, bolsa prá família... até certo ponto, quanto mais trabalho, melhor. E ele aqui, de seguro desemprego, olhando pras pedras, o riso escapou. “Tá rindo de quê? Joga nessa merda!”

Ele queria jogar e contava. Contava que tinha cinco pedras na mão. Calculava que era muito esforço para salvar o que só aumentava. É, no barraco o pirraia já dizia que Lula volta. E Dilma num veio também? E num foi? Feito a dona do Pi Pi Pi, quando vem, passa rápido.

A Dona volta. Pi .... Pi .... Pi ... Pi . Pi Pi PiPiPiPiPiPiPiPiPiPiiiPiiiPiiiPiiiii... A Dona cai. E eles bateram de novo. Lá e Lô, e Cruzado, e de Duque. Ah, não, os miseráveis tavam roubando. Esconderam a pedra quando mexeram. Com o olhar ele acusou o Morto, que ficou calado. O rebuliço foi geral! Os homens bateram suas camisas nas costas dele. “Vai ser pé ruim assim lá em casa!”

Piiiipiiiipiiiipiiiipiiipiiiipiiii

“É pé frio”, o outro gargalhava.

“Ei, porra, a Dona, mermão, a Dona!"

Aquilo veio como tsunami e se espalhou. Antes alegria, agora desolação, correria, a Dona no chão, ele olhando prás pedras, e eu já não. “Olha a Dona, pô!”

Ela tava deitada de costas, a camiseta azul arrochada, espalhada pela areia do calçadão, suada. Tava no exercício, era bom um regime, né? A viseira caída, o queixo tremendo.

Piiipiiipiiiipiiipiiiipiiipiiii

Já tinha gente demais, e eu vi mãos nos afastar, um círculo se formar e ele, de alguma forma lá dentro, pôs o boné prá trás e segurou os braços da Dona. Colocou a mão no centro do peito dela, era um prá cada lado, e segurou o pulso da coitada.

Então ele desatacou o relógio e jogou o bicho no chão. Olhou para mim e disse: “Pronto, quero ver agora!”.