sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Futuro do possível - Impressões sobre The Peripheral, de William Gibson

* Revisão da postagem após leitura da versão em português:

Periféricos, ed. Aleph, traduzido por Ludmila Hashimoto; 520 páginas.


Esse exercício ficcional de futurologia de William Gibson foi publicado em 2014. Fala em quase todas as mazelas que estamos vivendo, e provocadas por nós. Fala até em pandemia(s).

O livro é muito bom. É no futuro, e tem um futuro do futuro, após uma extinção em massa. A "viagem no tempo", se podemos nos referir a isso, é de informação. Dados, e com isso, manipulação. No futuro, em uma cleptocracia, filhinhos de papai se divertem jogando com o passado, alterando uma continuidade para se divertirem. Cada um em seu próprio braço temporal. Até que Flynne, a protagonista, testemunha algo, no futuro, que não deveria, então outros jogadores anônimos invadem o braço temporal dela, e daí a trama avança.

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A escrita de Gibson é um pouco opaca, você vai descobrindo as coisas, a geografia etc, à medida que vai lendo, o que acho bem legal, apesar de uma desorientação no início. Só tinha lido três livros dele antes e alguns contos, então a maneira de ele compor me retornou aos poucos.

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Cada personagem tem um sabor especial, e ele sabe manter essa constância. Temos dois pdv narrativos. O de Flynne no nosso futuro e o de Wilf Netherton, em uma Londres no futuro dela. Netherton é basicamente responsável por Flynne ter visto o que não deveria ter visto, mas não darei spoilers.

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Um dos aspectos de que gosto das obras do William Gibson - pela congruência em seu opus - é que ele não vislumbra um possível temporal e sim um tempo possível; não é um possível futuro e sim um futuro de possibilidades a partir do presente em que ele escreve.

Por exemplo, em um determinado momento do livro, no futuro do futuro, um personagem menciona que os Estados Unidos chegaram a ser governados por uma junta militar após um golpe, e que esse grupo fez uma devassa nos documentos e registros da população; isso me lembrou muito O Conto da Aia, de Margareth Atwood, fruto também de um futuro do possível na época em que ela escreveu sua obra.

The Peripheral não traz apenas um futuro possível, mas dois. Um deles é ainda no século XX, a presidente dos EUA é uma mulher latina, e a Homeland Security (sim, de Carrie Mathison) patrulha o país e controla as demais agências federais, com constantes intervenções. Em uma Buttholevillage mora Flynne Fisher, uma libélula dos games que de vez em quando substitui seu irmão Burton em freelas relativos a testes de jogos etc.

Em uma dessas substituições (sub no jargão da época), Flynne testa um sistema de segurança em uma paisagem urbana estéril, fruto de uma IA, na qual um prédio parece ter vida própria e estar em constante sussurro.

Ela acaba vendo um macabro assassinato e vários glitches no jogo.

Setenta anos depois, já no século XXII - após um acontecimento apocalíptico chamado The Jackpot, em que 80% da população do mundo foi exterminada, "Sorte Grande" - encontramos Wilf Netherton, um publicitário. Ele vive em um mundo controlado por uma cleptocracia inglesa em constante competição com a China, e em que os EUA tem sua influência mitigada, mas ainda age como patrulheiro no mundo. Netherton em conjunto com Rainey - uma publicitária canadense que trabalha para o governo - prestam serviço de consultoria para Daedra West, uma celebridade performer cuja influência a leva a servir, também, como adida cultural para os EUA. Em um ponto no meio do Pacífico - o que seria hoje aquele imenso bolsão de lixo plástico - ela vai se encontrar com o líder de um grupo pós-humanos deformados e que usam o material - polímeros etc - para modificações corporais (chamados de The Patchers), mas algo dá errado e, após ela matar o líder dessas pessoas - um cara com cabeça que parece a de um sapo e dois pênis - o sistema automático de defesa e proteção dela (androides) entra em ação e extermina todos os que estavam nesse bolsão.

O interessante desse futuro, e de como surgiu, é que o Jackpot não foi uma hecatombe nuclear nem provocado pela queda de um meteorito ou algo assim, mas um acontecimento gradual, que já estava ocorrendo desde a época de Flynne, e teve relação com problemas ambientais, pandemias, como já dito, proxy-wars etc. 

A partir do aparente fiasco com Daedra, o futuro do nosso presente de Flynne converge com o futuro do futuro de Netherton. Não entrarei em detalhes aqui para não estragar a leitura. Digo, porém, que o mundo de Flynne, construído por Gibson, já é uma distopia mitigada do nosso presente. Nele as impressoras 3D são a mola mestra da tecnologia e para a vida privada - usadas para fabricação de alimentos até drogas - e, em larga medida, a economia local depende muito da produção das drogas. 

O irmão de Flyyne, Burton, é um veterano de uma unidade chamada Háptica, relativa a sensação tátil, e foi submetido a modificações subcutâneas para poder combater em sua unidade especial. Essa alteração corporal acabou por acarretar problemas neuronais nele, e isso fez com que ele fosse dispensado. Não que ele tenha ficado inválido, pelo contrário, ele é o líder de seu próprio bando (posse em inglês, algo que remete aos bandos do velho oeste). Uma das "atividades" em que ele está envolvido é tentar desbaratar protestos silenciosos de uma igreja (mais para grupo ou seita) chamada Lucas 4:5 - "Então o Diabo o levou a um lugar muito alto e lhe mostrou, em uma fração de tempo, todos os reinos do mundo" (versão do Rei James atualizada).

No livro, essa seita e outros acontecimentos a partir do contato temporal, leva menção, por parte do autor, a questões legais tanto de Direitos Humanos quanto de Direito Corporativo, as quais, apesar de superficialmente narradas, estão sempre presentes em nossas vidas.

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Os personagens que aparecem são bem interessantes, e aqui destaco alguns: Conner, melhor amigo de Burton e também veterano que perdeu boa parte do corpo, mas que não perdeu a razão e a força de viver; Madison e Janice, amigos de Flynne, casal gente boa que parece receber informações sobre tudo, mas não se abala; Ash e Ossian, dupla de especialistas em TI no futuro que servem como trouble shooters e mais para Lev, este vindo de uma família russoanglicana e um dos responsáveis pelo contato entre o futuro e o passado; Macon e Edward, technoboys que implementam toda a questão tecnológica no passado para possibilitar a comunicação com o futuro; ainda no passado, o meticuloso agente secreto Gryffyd, o qual usa os recursos e informações enviados do futuro para ajudar Flynne e Burton a resolverem, no futuro, a situação que Flynne viu no jogo testado no início do livro; Lowbeer e Clovis - e aqui não falo mais sobre estas personagens porque perderá a graça.

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Algo que me deixou ressabiado foi o uso da tecnologia de contato entre o presente e o futuro. No livro fica claro que, a partir desse contato, o presente de Flynne já não será mais o futuro de Netherton, o que é bem congruente, mas nada se explica quanto à tecnologia envolvida no processo. Até entendo. Como disse o professor e escritor Fábio Fernandes, Gibson escreve soft sci-fi e, de acordo com o desenrolar da trama, vemos um narrador em terceira pessoa que enxerga através dos olhos de Flynne e de Netherton, então apenas somos informados do que eles sabem.

O legal da viagem no tempo, na obra, é que o que viaja não são corpos humanos nem objetos, mas informação.

Além dessa tecnologia, a além da tecnologia no futuro de Flynne, é bem interessante a forma como Gibson imaginou o uso da medicina, da tecnologia de invisibilidade de materiais em veículos terrestres e uniformes militares (já aplicada hoje pelos EUA em sua aeronáutica).

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Gostei muito da alternância de capítulos entre o futuro do nosso presente e o futuro do futuro. Ambientei-me após o capítulo 15 (de 124) então consegui avançar sem percalços depois. Quando li a versão em português, não houve incômodo em relação a isso.

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Há cenas meio líricas, poéticas, quando vistas do ponto de vista de Flynne, que é muito ligada à família, mas, diferentemente de como muitos jovens do interior são retratados em obras americanas, ela não quer largar tudo e ir para a cidade grande, mas sim viver um amor, trabalhar, jogar, divertir-se. As mudanças em sua vida, após a comunicação com o futuro, são drásticas - aliás, a comunicação afeta o país todo. 

Em uma bela reflexão, Flynne percebe como o contato com o futuro a tirou de sua vida de pegar a bicicleta e ir ao bar, conversar com amigos, comer no Sushi Barn (isso, Celeiro Sushi, quase um oxímoro), mas em determinado momento, Netherton pensa sobre como Flynne lida com isso: "Ela tinha um jeito de simplesmente ir em frente".

(Nessa questão a tradução peca, por não conseguir captar o pouco de lirismo que o livro tem. Ficou algo meio sem sabor, mas a equivalência em português foi bem competente).

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Netherton, após o fiasco da visita de Daedra ao bolsão no pacífico, fica sem emprego e, na Inglaterra, procura refúgio com Lev, a fim de entender as consequências dos atos de sua cliente e espairecer. Ele é um alcoólatra e meio que não liga para muita coisa, mas permanecer vivo e bem é uma de suas prioridades, de preferência com um uísque triplo em mãos. O contato com o passado, porém, o modifica bastante. Penso que ele sim foi o personagem que mais evoluiu psicologicamente, não apenas por como ele lidou com a situação, mas pelo exemplo que recebeu dos que estavam a seu redor - especialmente Flynne. 

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As obras de Gibson muitas vezes nos mostram uma vida privada que tangencia a coisa pública, mas que, quando há um atravessamento de uma pela outra, geralmente é com som, fúria e ressentimento. Isso não quer dizer que o futuro, mesmo sombrio, não deva ser vivido, ainda que não concretizado da forma como esperamos. Assim como o tempo, devemos seguir: avante.

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A capa do livro aqui exibida é de uma nova edição, publicada após o lançamento do segundo livro (Agency) da agora série The Peripheral. 



O "periférico" do título é justamente uma analogia Cyberpunk aos periféricos de computadores, mas que servem, no futuro, para as pessoas usarem para estarem em outros locais, caso não possam ir fisicamente. São uma gama que vai de homúnculos para operar máquinas a trogloditas-guarda-costas-pé-de-valsa.

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Vai aqui a capa da versão pt-br:



Dados técnicos:

The Peripheral , de William Gibson

(The Peripheral #1)

Putnam Ed. (Penguin), 2014.

485 páginas.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Impressões sobre O Seminarista, de Rubem Fonseca

 Evocando o personagem epônimo, há uma estranha simetria entre a vida e a morte. O narrador-personagem, porém, apenas vai encontrar essa estranheza ao se aposentar.

José é um ex-seminarista que não conseguiu seguir a batina porque os desejos carnais tiveram preponderância sobre os divinos. Ele, então, se tornou um assassino profissional. E, no início da obra, aoesar de narrar alguns assassinatos encomendados para mostrar a que veio, o que ele textualmente diz no livro -- dentre eles uma passagem na qual ri muito (sim, tenho um humor mórbido em alguns momentos), quando o assassino procura um necrófilo e encontra o retrato de uma das suas vítimas, a qual José diz ser "bonita para necrófilo nenhum botar defeito --  a trama tem sua importância nos acontecimentos que se desenrolam após a aposentadoria. 

A partir daí, José percorre diversos pontos da cidade -- Rio de Janeiro -- imiscuindo-se com a burguesia mais sórdida e buscando ajuda junto a tipos suburbanos e que vivem à margem da lei -- estes quase sempre amigos do passado. Esses personagens mais periféricos têm nome, mas é o apelido que se sobressai: O Gralha, Sangue de Boi... Essa quase aventura começou porque José ficou desconfiado de que o estavam seguindo, isso depois de ele estar quase vivendo junto com sua namorada -- uma alemã que trabalhava com tradução. Não se engane o leitor, tudo é importante na obra, cada detalhe que Rubem Fonseca põe e que, lá na frente, salta do texto como se fosse nos pregar uma peça. 

O formato do livro é José narrando suas peripécias até o ponto em que ele se encontra -- na vida, na história -- no final do livro. Já me acostumei com as narrativas rápidas de Rubem Fonseca. Esta é uma delas, mais para uma novela do que um romance. Recomendo sua leitura em um dia, no fim da tarde...

O assassino tem ideias bem formadas quanto a seu envolvimento com mulheres -- devem ser magras, não muito altas, com barriga lisa, bumbum firme e seios pequenos -- quanto ao fato de não ler jornais e nem ter remorso algum. Suas paixões: ler poesia ouvindo rock, ver filmes e ir a sebos. Com o passar da trama, vemos José ser surpreendido por não ter visto determinada notícia, por ter comido um prato mais elaborado (e gostoso) em um restaurante mais caro, por ter conhecido alguém com quem vale a pena estar junto. As elipses são interessantes na obra porque Fonseca não precisa explicar nada, basta prestar atenção nas escolhas e mudanças do personagem -- por ex.: ele foi chamado de frouxo e maricas por seus amigos quando era guri porque não quis matar um galo (por princípio, ele não matava animais), mas algo muda nisso, e só você lendo para descobrir.

Em alguns momentos -- como quando da explicação sobre a adega de vinho ou sobre que tipo de bacalhau será servido -- os personagens apresentam um ar professoral que destoa da obra. Creio, porém, que o pedantismo é proposital, basta situar o livro no opus de Fonseca: ele descasca a hipocrisia da burguesia e apresenta personagens que vivem em uma miséria física e espiritual, e tudo o que vem de personagens ricos nos livros dele parece ser um verniz que esconde uma podridão moral e também ética. Parafraseando o autor, os pobres fazem o necessário em sua luta pela sobrevivência no ambiente urbano, enquanto a burguesia afia os arames farpados.

José apenas queria tranquilidade, mas não esperava uma aposentadoria tão "rica". A riqueza com a qual nos brinda Rubem Fonseca é mostrar, sem psicologismos, a mudança de atitudes de José, especialmente em algumas ações destoantes do que ele propagava.


O Seminarista, de Rubem Fonseca.
Ed. Ediouro, 120 páginas, Kindle.

sábado, 7 de novembro de 2020

Impressões e emoções sobre Território Lovecraft, de Matt Ruff

Matt Ruff é um escritor que conseguiu me deixar angustiado, nervoso, aflito, com raiva. 

E não foi porque um shoggoth apareceu e ameaçou devorar os heróis e heroínas do livro. As cenas as quais me refiro dizem respeito às "normas do pôr do sol", ao "guia rodoviário do viajante negro", às leis segregacionistas Jim Crow nos EUA, que duraram para além da década de 1960 -- e não era apenas no sul que havia segregação, pois  os democratas nos estados é que foram responsáveis pela ferrenha aprovação e repristinação de leis discriminatórias, vejam só.

Em uma particular rememoração -- muito bem escrita -- do início do que hoje conhecemos como "massacre de Tulsa", vemos que tudo começou porque um homem negro apenas esbarrou em uma ascensorista branca e ela gritou que havia sido atacada. Ele foi levado ao tribunal, óbvio, mas muitos negros souberam do ocorrido e foram protestar, e logo brancos armados e em grupos cada vez maiores começaram a perseguição, massacre e expulsão dos homens, das mulheres e das crianças que viviam em Tulsa, mesmo que tivessem de queimar todas as casas para garantir que isso ocorresse. E as leis Jim Crow não vigoravam lá...

Bom, o livro é mais do que isso. Diz respeito à busca por ancestralidade, afirmação do humano, ocupar espaços, sobreviver. Quando Atticus, um dos personagens principais, retorna da Guerra da Coreia para Chicago, Illinois, encontra a casa de Montrose, seu pai, vazia, e parte com seu tio George e a vizinha Letitia para encontrar o velho. As únicas pistas: uma carta de seu pai, um Daimler prateado dirigido por um homem branco -- com quem seu pai foi visto, contudo interagindo de forma amistosa -- e a possibilidade de irem a Ardham, ao que no livro é conhecido como Território Lovecraft, um local estranho, em que uma comunidade construiu a pequena cidade de Bideford, politicamente separada do condado de Ardham, e onde negros não eram bem-vindos. Detalhe, essa comunidade é formada por pessoas que queimavam bruxas na Inglaterra.

O livro me pareceu ter a estrutura de diversos contos que revelam um suíte bem amarrada. Lembra-me mais um fix-up do que um romance, já que os capítulos, com exceção dos dois primeiros, possuem protagonistas e histórias diversas. Há sim um aspecto de horror cósmico -- e, SPOILER ALERT!, uma senzala cósmica, no estranho e excelente capítulo em que a personagem principal é Hippolyta -- esposa de George, e mãe do adolescente Horace, talentoso desenhista e que também tem uma história maravilhosa, e que lembra mais um conto de horror de Stephen King. 

Outro capítulo fascinante é Jakyll in Hyde Park, em que Ruby, irmã de Letitia, é a condutora da história, em uma sensual e estranha -- e também, pelos motivos errados, libertadora -- emulação da arquetípica dominação do eu pela sombra (ou mesmo pela inflação da persona, diga lá?).

Todos os capítulos costuram a história que começa lá com a viagem de Atticus, e se você espera que o mythos esteja bem presente aqui, saiba que o autor investe mais em camarilas & sociedades secretas, maçonaria e magia. Senti um incômodo na leitura. Creio que ingressei na história com o pensamento errado, como se as lendas lovecraftianas se inserissem na história em uma intertextualidade para além das metáforas, mas o incomum aqui é a magia. Ocorre que esse elemento extrafísico perpassa a obra com certa familiaridade, mesmo para aqueles personagens que não tiveram contato anterior com os estranhos acontecimentos, como é o caso dos amigos maçons de George. É como se as "maravilhas" ocorressem de forma a não maravilhar ninguém. Isso pode ter sido mais falha do Ruff ao narrar certas passagens do que sua original intenção. 

Encontrei alguns outros problemas também: em determinada cena, um personagem esperou uns instantes para que "sua frequência cardíaca diminuísse"; em cena do início do livro, o autor explica em off o que se passara entre dois personagens, quando poderia ter mostrado a cena, o que seria algo rápido.

Apesar disso, as demais descrições, ambientações e interações entre os personagens são bem escritas, cumprem com a proposta de gerar tensão e de contar uma boa história de entretenimento e de recuperação da História do sofrimento -- ainda presente -- da população negra nos EUA.


Ps.: Em tempo, vi o primeiro episódio da série Lovecraft Country, da HBO, quando se encontrava disponível no canal oficial da emissora no YouTube, e posso dizer que o episódio é melhor do que o início do livro -- desenvolve melhor os personagens e é mais assustador.





Território Lovecraft, de Matt Ruff.

Tradução de Thais Paiva.

Editora Intrínseca, 352 páginas.

Edição Kindle 



domingo, 4 de outubro de 2020

Sagrado e Profano - impressões sobre a Trilogia dos Brutos, de Ana Paula Maia

 Gosto das histórias de Ana Paula Maia. Talvez porque elas habitem o mesmo imaginário em que em mim habitam as histórias de samurais, cangaceiros e westerns. 

Um ambiente crepuscular entre a ordem e o caos, em que mais vale a honra do que a lei e em que, em alguns casos, a honra é a lei.

A ordem social, a figura do direito público e suas normas de conduta existem em todas esses cenários, mas quase sempre à margem. O exercício unilateral das próprias razões, mediado pela imposição da própria força é o que prevalece. Os dados rolam e a vida segue seu caminho. Mas grandes obras e grandes histórias apenas são possíveis com a lente privilegiada de uma autoria.  Ana Paula Maia escolheu a dedo seus protagonistas e foi pinçar fatos da vida em que aparentes tragédias são motivo ou consequência dos acontecimentos.


Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos

Já havia lido esse livro, creio que há uns dez anos.

A releitura foi uma oportunidade de entrar em contato novamente com a obra dessa super talentosa autora, e me descobrir um leitor mais maduro e exigente. O livro é um bom ponto de contato com a obra de Maia, pois ela escrevera outros dois textos anteriores — se não me engano (ainda não os li). 

Como tentei dizer, é obra de uma escritora em maturação, e em alguns momentos o narrador solta frases desnecessárias quando poderia mostrar o dito em ação ou mesmo omitir determinada sequência.

A poesia existe na vida desses homens limitados pela falta de oportunidades e que se movem com um senso de sobrevivência em meio à hegemonia dos outros. Quando há sonhos de algo além do que vivem, é uma visão trazida à beira da morte - "vá ver a neve" - ou ao se olhar para o céu, cujas nuvens poderiam até mesmo ser cortadas por um facão. 

Nesta passagem, Ana Paula Maia é de um lirismo assombroso:

"Às vezes, até as estrelas parecem fazer sombra. Mesmo mortas, insistem em ofuscar com seu insistente senso de infinito. E ao pensar nas estrelas, às vezes ele gostaria de ter uma escadaria para o céu. Para apagá-las com um sopro."

E, para esses homens, abandonados pelo mundo, a vida é mesmo um rápido estertor.

O que Gerson e Edgar Wilson, abatedores de porcos, não têm de "sociabilidade", ou a têm limitadamente, é compensado com quase um bromance de brutos, e uma contemplação de "fim de dia", mas que, em alguns momentos — e na soma desses momentos — mostra-se em demasia. Não chega a ser fastidioso, porque as imagens "captadas" por Ana é da alma dos seus personagens, e a coerência e o estilo são marcantes.


Na novela O Trabalho Sujo dos Outros, há uma aproximação ao que Bauman definiu como "a sociedade do descarte", pois vivemos para consumir, mas desde que haja uma obsolescência programada geral — das coisas, mas das pessoas também. Erasmo Wagner faz um dos trabalhos mais importantes para a sociedade urbana, e isso é bem marcante na história, ele tem consciência disso, apesar de sua melancolia; acredito que esse estado depressivo do personagem foi resultado do encontro do seu desejo por mais com a situação de miséria e apagamento na qual ele e seus colegas vivem.


Carvão Animal

Encontrei os opostos nesse texto de Ana Paula Maia, romance que encerra a trilogia dos brutos.

Na obra o fogo, e o carvão, produto de queima, é uma excelente metáfora para a vida e para a morte, e as histórias do romance são alegorias dessa jornada.

Os cenários do livro todos têm relação com o fogo: Corpo de Bombeiros, uma olaria, uma carvoaria, um crematório, uma mina de carvão que explode.

O único lugar que parece não queimar é a casa do bombeiro Ernesto Wesley, mas aí queima sim: o rancor pela morte da filha causado por um irmão que está preso; a raiva que a vizinha sente da cadela Jocasta; o calor de uma compostagem caseira etc.

No crematório "(o) carteado é religioso", um profano sagrado em meio a um mecânico e demorado ritual de cremação em uma funerária. Aqui há o verniz do respeito com os parentes dos mortos, que lançam parte das cinzas ao pé de roseiras bem cuidadas, enquanto que as sobras e cinzas não reclamadas são descartadas em um matagal que margeia a parte de trás da funerária, em meio à imundície acumulada e bichos oportunistas.

Palmiro, Ronivon (irmão de Ernesto Wesley), Geverson, Aparício, o coveiro, e JG trabalham em uma funerária especializada em cremação de corpos. São pessoas que, em bela síntese da autora, esperam pelos mortos para a vida prosseguir.

A gama de personagens de Ana Paula Maia, assim como "a maioria dos homens(,) é moldada a concreto. São duros feito rocha. Inquebrantáveis de espírito, torpes" (Carvão Animal, l. 1243)

Gosto do nome dos heróis de Ana Paula Maia - se bem que os chamar assim é um desrespeito à jornada deles: Edgar Wilson, Ernesto Wesley e Erasmo Wagner. Todos E W. Sim, tem um motivo, e conheço pelo menos o do primeiro: Edgar (Allan Poe) Wilson (do conto de Poe, William Wilson).


A autora não reduz a história a um determinismo naturalista, mas não nega a influência do meio - assim como eu também, como leitor, não a nego.


Peguei essa foto da Ilustríssima, em artigo de Joca Rainers Terron o qual li após a escrita dessas impressões; recomendo fortemente a leitura, pois nos fala da repercussão internacional da obra da autora e da vanguarda da sua literatura; ainda não li os publicados depois da trilogia aqui enfrentada, "mas vos digo, caso não saibais" - ela foi vencedora por duas vezes do Prêmio São Paulo de literatura, em 2018 e em 2019; antes de passar para a leitura dessas obras premiadas, quero ler "A Guerra dos Bastardos", de 2007 e "De Gado e Homens", de 2013 (há um ainda anterior - "O Habitante das Falhas Subterrâneas", de 2003, mas esgotado). Segue AQUI o link para o artigo do Joca Terron







quinta-feira, 17 de setembro de 2020

The Boys - Ficções, Política e o Outro


 

The Boys é uma série - baseada no quadrinho homônimo criado por Garth Ennis e Darick Robertson - na qual uma equipe de super-heróis é patrocinada por uma empresa chamada Vought. A empresa tenta fazer com que os heróis atendam a chamados globais de enfrentamento a ameaças terroristas, e muito do que ocorre nos bastidores é a manipulação do governo americano para que isso seja sancionado. 

Questões corporativas ficam à margem quando as questões pessoais dos heróis surgem, e daí vemos porque não é possível existir, de verdade, uma Liga da Justiça nem os Vingadores como os vimos retratados - isso sim é uma utopia. A série possui muita violência gráfica, mas esta acaba sendo quase um refrigério em comparação às questões morais e políticas colocadas. Não há preto nem branco, e sim uma longa faixa cinza interrompida de vez em quando por um vermelho bem forte - não o vermelho de "ameaça comunista", mas de sangue, sangue dos que sofrem com a manipulação governamental e corporativa da qual, transportada da tela para nossa vida, somos vítimas. 

Nesse aspecto, uma das cenas mais interessantes na série The Boys é o confronto entre Stormfront e Homelander no quarto episódio da segunda temporada. Homelander, um Peter Pan anabolizado com problemas narcisísticos em nível homicida, acusa a "heroína" de roubar a popularidade que ele, líder d'Os Sete, possui. Ela diz que ele está muito enganado, que não se preocupa com cinquenta milhões de votos por ele recebidos na enquete sobre a qual discutem, e que ele tem de se antenar aos novos tempos e se comunicar de maneira mais rápida e eficiente com os seguidores, porque ela precisa de apenas uns cinco milhões, e não dez vezes isso, desde que esses sejam crentes e raivosos porque assim ela teria uma massa de manobra que poderia agir de forma muito rápida, e de modo eficiente, a espalhar o que ela tem a dizer, e não teria uma vontade diluída em algumas dezenas de milhões que não fazem nada.

A arte imita a vida, não? O quanto esse episódio foi escrito pensando nos apoiadores de Trump lá nos EUA - e, por extensão óbvia à minha pretensão, aos apoiadores de Bolsonaro aqui no Brasil? Há uma escalada de coisificação elevada à idolatria que vem ocorrendo aqui no BR. A massa de manobra do presidente, ainda que haja pessoas inteligentes nela (pior por isso, vide o nazismo), é movida por vontade e interesses puramente egoístas - perpetuar seus ganhos materiais e ter a expectativa dessa continuidade, melhor ainda quando feito com a coisa pública para obtenção de interesses privados. Bolsonaro eleva a cloroquina a objeto sagrado, sem comprovação científica, um graal profano de uma Narrativa quixotesca, enquanto várias pesquisas sérias desenvolvem vacinas que são tidas pela base de apoio do presidente como coisa do demônio, que pode prejudicar as pessoas. A posse do Ministro da Saúde demonstrou bem isso. O presidente e seu governo exclui o social, o meio ambiente, o outro que necessita de apoio de políticas governamentais (e que deveriam ser de Estado), a comunidade negra, a comunidade LGBTQA+. Os outros são homo sacer - pessoas sagradas, simples Biós, passíveis de serem excluídas e exterminadas; são impedidas de realizar aquilo que nós temos em comum como seres humanos - a capacidade de sofrer e reconhecer o sofrimento no outro, ou seja, de desenvolver a Zoé.

A ficão científica e suas alegorias não são apenas prospectivas. Não são mesmo, especialmente as que têm em seu cerne questões políticas e sociais. Mas também não são redutivas, não se restringindo a simplesmente apontar o dedo - apesar de pôr bem o dedo na ferida.

sábado, 4 de julho de 2020

Impressões sobre Carapaça Escura

Impressões sobre Carapaça Escura,

de Frederico Toscano.

Patuá Editora, 96 páginas.


Eu acabara de ler Otelo, então estava rodeado por água - Veneza e Chipre - e no qual o principal assassinato é por sufocamento.

Em seguida, assisti, por três dias, à minissérie O Terror (The Terror), a qual adaptou o livro de Dan Simmons à telinha, e que reconta, de forma magistral, e com um toque de terror, a Expedição Franklin - em que o Comandante Sir John Franklin tentava descobrir e singrar a "Passagem Noroeste" entre o Atlântico e o Pacífico, este no Estreito de Bering.

Água, afogamento (a maioria dos marinheiros contratados antigamente não sabiam nadar, vai saber…), envenenamento, urso gigante, doenças e um escafandro…

Eu pensei em ler um livro de contos policiais no leitor digital, mas então me lembrei - acabei de me lembrar - de que havia separado este livro:


Muito mais do que atraído pela capa, a qual me provoca admiração estética e um certo calafrio (palavra usada pelo autor em sua dedicatória a mim), eu estava imerso em uma sensação de ser assimilado pelo que minha cidade - Recife - tem a oferecer em termos estéticos quando se trata de água, pavor e os demônios que habitam os pátios eclesiásticos.

Mergulhei, então, na leitura do livro.

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Nos dois primeiros contos me fascinou a linguagem usada pelo autor, com um vocabulário regional, delicioso… eu até parecia ver a pessoa falar ao meu lado.

Vi um pouco da vida que também é e foi minha: morando, quando criança, no limite oeste do bairro de Boa Viagem, minha rua era de barro, continuação da rua de uma favela, então havia um muro invisível que de vez em quando nós transpúnhamos… Ralar o joelho, pular muro dos vizinhos, voltar melado de barro para a barra da saia da mãe, isso teve… Teve também o mistério de uma casa que parecia ter um lago dentro de si, com uma jangada… bem, essa história vou contar depois.

Já na Avenida Boa Viagem, limite leste do bairro junto ao mar, vimos o outro lado, um decadente militar de classe média alta, com seus crimes e violência patriarcal escondidos pela caserna, faz uma descoberta junto ao quebra-mar que vai mudar sua vida, sendo, ao mesmo tempo, uma visita do passado.

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Essas histórias retiveram em mim uma sensação pueril de estranhamento quanto ao mundo, muito maior do que eu apreendera até aquele momento.

E, ainda, em termos de nota pessoal, e porque penso que fiquei contaminado com o "urso" que apareceu na série O Terror, senti que algumas das cenas muito bem mostradas, poderiam ficar mais na insinuação do que explicitadas - mas, repito, isso é um gosto estético que, penso, vai de encontro à proposta do livro, assumidamente de literatura fantástica. Prossigamos…

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Algo no livro que me encantou foi a escrita. Frederico teve um cuidado artesanal com a linguagem.

Frases como "Ascendeu devagar em direção à luminosidade tremulante e, resignado, deixou-se abandonar aos caprichos daquela vontade superior, qual mamulengo ao final do espetáculo", sobre a retirada de um escafandrista da água, no conto Carapaça Escura.

Uma assombração em uma pista de barro, sob a luz de uma lamparina e companhia do mato ao redor é "uma alvura suspensa na curva da estrada", e não adianta se afastar, pois a assombração continua lá, como "uma impressão pesando-lhe sobre a nuca", em A Estrada Dela.

Uma simples imagem que nos remete à vida e ao nascimento é transformada em um horror lovecraftiano, descrito, em O Abismo no Céu, "como uma placenta repleta de olhos e membros retorcidos".

Isso só demonstra uma patente transpiração, sem artificialismos.

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Se você gosta de literatura, leia; se gosta de literatura fantástica, leia.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Impressões sobre O Legado de Eszter, de Sándor Márai

- Qual é seu limite, Lajos?
- Que pergunta é essa, qual o limite?
- Qual é o limite? - repeti. - Imagino que todo homem tenha algum limite em que há uma medida para o bem e para o mal. De certo modo, para tudo o que é possível entre os homens. Mas você não tem limites.

Eszter, uma mulher. Seu legado, mais do que um patrimônio dilapidado pelo homem que um dia amou, e de forma recíproca também foi amada.
Mas esse homem só vivia por e para sua própria vontade, alheio aos demais, como um dionisíaco nietzscheano cujos atos se tornavam meras desculpas na mente dos outros.

Depois de vinte anos essa sombra do passado retorna. Seus impulsos são uma história de poesia, como diz Eva, sua filha e também vítima, e não de memória.
Lajos, para a filha, é como um caçador que precisa desbravar a selva e, após encontro fatídico para a presa, continuar, pois o que importa é a caçada, e não o troféu.

Eszter, narradora da história, e psicologicamente muito bem construída, nos leva a seguir as mentiras em que ela própria acreditava. Ela é acossada por figuras do passado, vivas e mortas; por uma juventude - representada pelos sobrinhos - cujos termos do contrato social lhe escapam e pelo pacto com a morte que parece ter realizado com Nunu, a antiga governanta da casa e que desempenha, na trama, o lúgubre papel sapiencial dos que estão além do véu das coisas palpáveis.
Nunu é apresentada como alguém que ficou na casa de Eszter porque ocupou o papel social da matrona. Veste-se de negro da manhã à noite, e é a única que, desde o início da obra e em meio às vítimas de Lajos, parece saber o que traz este de volta à casa.

No fim, Lajos, além e acima de todos os limites, reconhece que até direitos possuem limites, mas, no seu caso, os da prescrição, ou seja, em seu benefício. Em sua intimidade com os demais ele não reconhece limites, ou os flexiona até o ponto de ruptura...

Para Eszter, ainda que em um momento patético quanto ao que Lajos sentia por ela, ele era tão bom no que fazia que conseguia "mentir inclusive com fatos", e nisso Márai foi grandioso, não sacrificou a frágil integridade de Eszter a um enlace de redenção passional. Como Lajos diz-lhe: "Uma mulher, uma mulher. (...) Trata-se de você, Eszter. Trata-se de você".

O livro tem um tom que lembra os das peças de teatro, com diálogos rápidos e reflexões monologais. A moralidade que perpassa a obra demonstra a separação, nas relações humanas, entre o legal e o legítimo, e em que a fé é a dos espaços sociais, a crença de que se pode contar em ser algoz, pois a mesa da vítima já está posta. 

Vale muito a leitura. 

O Legado de Eszter, de Sándor Márai. Escrito em 1938.
Cia das Letras
Trad.: Paulo Schiller


Cartão Postal - Hungria, década de 1930