quinta-feira, 17 de setembro de 2020

The Boys - Ficções, Política e o Outro


 

The Boys é uma série - baseada no quadrinho homônimo criado por Garth Ennis e Darick Robertson - na qual uma equipe de super-heróis é patrocinada por uma empresa chamada Vought. A empresa tenta fazer com que os heróis atendam a chamados globais de enfrentamento a ameaças terroristas, e muito do que ocorre nos bastidores é a manipulação do governo americano para que isso seja sancionado. 

Questões corporativas ficam à margem quando as questões pessoais dos heróis surgem, e daí vemos porque não é possível existir, de verdade, uma Liga da Justiça nem os Vingadores como os vimos retratados - isso sim é uma utopia. A série possui muita violência gráfica, mas esta acaba sendo quase um refrigério em comparação às questões morais e políticas colocadas. Não há preto nem branco, e sim uma longa faixa cinza interrompida de vez em quando por um vermelho bem forte - não o vermelho de "ameaça comunista", mas de sangue, sangue dos que sofrem com a manipulação governamental e corporativa da qual, transportada da tela para nossa vida, somos vítimas. 

Nesse aspecto, uma das cenas mais interessantes na série The Boys é o confronto entre Stormfront e Homelander no quarto episódio da segunda temporada. Homelander, um Peter Pan anabolizado com problemas narcisísticos em nível homicida, acusa a "heroína" de roubar a popularidade que ele, líder d'Os Sete, possui. Ela diz que ele está muito enganado, que não se preocupa com cinquenta milhões de votos por ele recebidos na enquete sobre a qual discutem, e que ele tem de se antenar aos novos tempos e se comunicar de maneira mais rápida e eficiente com os seguidores, porque ela precisa de apenas uns cinco milhões, e não dez vezes isso, desde que esses sejam crentes e raivosos porque assim ela teria uma massa de manobra que poderia agir de forma muito rápida, e de modo eficiente, a espalhar o que ela tem a dizer, e não teria uma vontade diluída em algumas dezenas de milhões que não fazem nada.

A arte imita a vida, não? O quanto esse episódio foi escrito pensando nos apoiadores de Trump lá nos EUA - e, por extensão óbvia à minha pretensão, aos apoiadores de Bolsonaro aqui no Brasil? Há uma escalada de coisificação elevada à idolatria que vem ocorrendo aqui no BR. A massa de manobra do presidente, ainda que haja pessoas inteligentes nela (pior por isso, vide o nazismo), é movida por vontade e interesses puramente egoístas - perpetuar seus ganhos materiais e ter a expectativa dessa continuidade, melhor ainda quando feito com a coisa pública para obtenção de interesses privados. Bolsonaro eleva a cloroquina a objeto sagrado, sem comprovação científica, um graal profano de uma Narrativa quixotesca, enquanto várias pesquisas sérias desenvolvem vacinas que são tidas pela base de apoio do presidente como coisa do demônio, que pode prejudicar as pessoas. A posse do Ministro da Saúde demonstrou bem isso. O presidente e seu governo exclui o social, o meio ambiente, o outro que necessita de apoio de políticas governamentais (e que deveriam ser de Estado), a comunidade negra, a comunidade LGBTQA+. Os outros são homo sacer - pessoas sagradas, simples Biós, passíveis de serem excluídas e exterminadas; são impedidas de realizar aquilo que nós temos em comum como seres humanos - a capacidade de sofrer e reconhecer o sofrimento no outro, ou seja, de desenvolver a Zoé.

A ficão científica e suas alegorias não são apenas prospectivas. Não são mesmo, especialmente as que têm em seu cerne questões políticas e sociais. Mas também não são redutivas, não se restringindo a simplesmente apontar o dedo - apesar de pôr bem o dedo na ferida.

sábado, 4 de julho de 2020

Impressões sobre Carapaça Escura

Impressões sobre Carapaça Escura,

de Frederico Toscano.

Patuá Editora, 96 páginas.


Eu acabara de ler Otelo, então estava rodeado por água - Veneza e Chipre - e no qual o principal assassinato é por sufocamento.

Em seguida, assisti, por três dias, à minissérie O Terror (The Terror), a qual adaptou o livro de Dan Simmons à telinha, e que reconta, de forma magistral, e com um toque de terror, a Expedição Franklin - em que o Comandante Sir John Franklin tentava descobrir e singrar a "Passagem Noroeste" entre o Atlântico e o Pacífico, este no Estreito de Bering.

Água, afogamento (a maioria dos marinheiros contratados antigamente não sabiam nadar, vai saber…), envenenamento, urso gigante, doenças e um escafandro…

Eu pensei em ler um livro de contos policiais no leitor digital, mas então me lembrei - acabei de me lembrar - de que havia separado este livro:


Muito mais do que atraído pela capa, a qual me provoca admiração estética e um certo calafrio (palavra usada pelo autor em sua dedicatória a mim), eu estava imerso em uma sensação de ser assimilado pelo que minha cidade - Recife - tem a oferecer em termos estéticos quando se trata de água, pavor e os demônios que habitam os pátios eclesiásticos.

Mergulhei, então, na leitura do livro.

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Nos dois primeiros contos me fascinou a linguagem usada pelo autor, com um vocabulário regional, delicioso… eu até parecia ver a pessoa falar ao meu lado.

Vi um pouco da vida que também é e foi minha: morando, quando criança, no limite oeste do bairro de Boa Viagem, minha rua era de barro, continuação da rua de uma favela, então havia um muro invisível que de vez em quando nós transpúnhamos… Ralar o joelho, pular muro dos vizinhos, voltar melado de barro para a barra da saia da mãe, isso teve… Teve também o mistério de uma casa que parecia ter um lago dentro de si, com uma jangada… bem, essa história vou contar depois.

Já na Avenida Boa Viagem, limite leste do bairro junto ao mar, vimos o outro lado, um decadente militar de classe média alta, com seus crimes e violência patriarcal escondidos pela caserna, faz uma descoberta junto ao quebra-mar que vai mudar sua vida, sendo, ao mesmo tempo, uma visita do passado.

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Essas histórias retiveram em mim uma sensação pueril de estranhamento quanto ao mundo, muito maior do que eu apreendera até aquele momento.

E, ainda, em termos de nota pessoal, e porque penso que fiquei contaminado com o "urso" que apareceu na série O Terror, senti que algumas das cenas muito bem mostradas, poderiam ficar mais na insinuação do que explicitadas - mas, repito, isso é um gosto estético que, penso, vai de encontro à proposta do livro, assumidamente de literatura fantástica. Prossigamos…

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Algo no livro que me encantou foi a escrita. Frederico teve um cuidado artesanal com a linguagem.

Frases como "Ascendeu devagar em direção à luminosidade tremulante e, resignado, deixou-se abandonar aos caprichos daquela vontade superior, qual mamulengo ao final do espetáculo", sobre a retirada de um escafandrista da água, no conto Carapaça Escura.

Uma assombração em uma pista de barro, sob a luz de uma lamparina e companhia do mato ao redor é "uma alvura suspensa na curva da estrada", e não adianta se afastar, pois a assombração continua lá, como "uma impressão pesando-lhe sobre a nuca", em A Estrada Dela.

Uma simples imagem que nos remete à vida e ao nascimento é transformada em um horror lovecraftiano, descrito, em O Abismo no Céu, "como uma placenta repleta de olhos e membros retorcidos".

Isso só demonstra uma patente transpiração, sem artificialismos.

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Se você gosta de literatura, leia; se gosta de literatura fantástica, leia.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Impressões sobre O Legado de Eszter, de Sándor Márai

- Qual é seu limite, Lajos?
- Que pergunta é essa, qual o limite?
- Qual é o limite? - repeti. - Imagino que todo homem tenha algum limite em que há uma medida para o bem e para o mal. De certo modo, para tudo o que é possível entre os homens. Mas você não tem limites.

Eszter, uma mulher. Seu legado, mais do que um patrimônio dilapidado pelo homem que um dia amou, e de forma recíproca também foi amada.
Mas esse homem só vivia por e para sua própria vontade, alheio aos demais, como um dionisíaco nietzscheano cujos atos se tornavam meras desculpas na mente dos outros.

Depois de vinte anos essa sombra do passado retorna. Seus impulsos são uma história de poesia, como diz Eva, sua filha e também vítima, e não de memória.
Lajos, para a filha, é como um caçador que precisa desbravar a selva e, após encontro fatídico para a presa, continuar, pois o que importa é a caçada, e não o troféu.

Eszter, narradora da história, e psicologicamente muito bem construída, nos leva a seguir as mentiras em que ela própria acreditava. Ela é acossada por figuras do passado, vivas e mortas; por uma juventude - representada pelos sobrinhos - cujos termos do contrato social lhe escapam e pelo pacto com a morte que parece ter realizado com Nunu, a antiga governanta da casa e que desempenha, na trama, o lúgubre papel sapiencial dos que estão além do véu das coisas palpáveis.
Nunu é apresentada como alguém que ficou na casa de Eszter porque ocupou o papel social da matrona. Veste-se de negro da manhã à noite, e é a única que, desde o início da obra e em meio às vítimas de Lajos, parece saber o que traz este de volta à casa.

No fim, Lajos, além e acima de todos os limites, reconhece que até direitos possuem limites, mas, no seu caso, os da prescrição, ou seja, em seu benefício. Em sua intimidade com os demais ele não reconhece limites, ou os flexiona até o ponto de ruptura...

Para Eszter, ainda que em um momento patético quanto ao que Lajos sentia por ela, ele era tão bom no que fazia que conseguia "mentir inclusive com fatos", e nisso Márai foi grandioso, não sacrificou a frágil integridade de Eszter a um enlace de redenção passional. Como Lajos diz-lhe: "Uma mulher, uma mulher. (...) Trata-se de você, Eszter. Trata-se de você".

O livro tem um tom que lembra os das peças de teatro, com diálogos rápidos e reflexões monologais. A moralidade que perpassa a obra demonstra a separação, nas relações humanas, entre o legal e o legítimo, e em que a fé é a dos espaços sociais, a crença de que se pode contar em ser algoz, pois a mesa da vítima já está posta. 

Vale muito a leitura. 

O Legado de Eszter, de Sándor Márai. Escrito em 1938.
Cia das Letras
Trad.: Paulo Schiller


Cartão Postal - Hungria, década de 1930

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Impressões sobre ASSOCIAÇÃO ROBERT WALSER PARA SÓSIAS ANÔNIMOS

ASSOCIAÇÃO ROBERT WALSER PARA SÓSIAS ANÔNIMOS

CEPE
226 p.
2015
Lido no Kindle

O primeiro romance do autor Tadeu Sarmento é contado em duas frentes, digamos assim. Uma na cidade paraguaia de Nueva Königsberg, e a outra dentro de um clube - a associação - para sósias.

A associação lembra mais - tanto pelo tom do texto como pelas práticas adotadas pelo sósia Hussein - um espaço para desintoxicação, algo como um "narcóticos anônimos". O sósia  do filho do ditador, cujas práticas mais remetem às de um professor em um acampamento, tenta levar os demais membros a práticas capazes de fazerem com que eles retornem a suas identidades originais - ou assim parece ser.
Achei isso genial - um sósia que se apaga de si mesmo.
Nesse momento da narrativa - em relação ao tempo cronológico, mesmo - a história é contada em primeira pessoa por um sósia que apenas se deixou tornar (como o escritor apagado, que lembra a Chiquinha do Chaves, com seu bigodinho abrilhantado por manteiga) o próprio Robert Walser - prolífico, mas esquecido pela posteridade - porque se apaixonou por uma garota que viu em um sebo, e se deixou levar pela ideia de desaparecer e tomar o lugar do escritor cujos livros ela buscava com tanta intensidade...



Em outro momento e espaço geográfico, mas sob um calor danado, vemos a chegada do filósofo Jean-Baptiste Botul à também fictícia Nueva Königsberg, no Paraguai, a qual abriga sósias de Kant - e estes fazem sua notória promenade sempre às 14h, faça chuva ou faça sol. Esse trecho do livro se passa na década de 60 do século XX, momento de intensa caçada a nazistas no cone sul, e Botul vai à cidade não apenas como um filósofo que faria conferências, mas também como um aparente caçador de nazistas.
Esse cenário da obra foi o que mais gostei. Aqui a história é contada em terceira pessoa, e captei aqui um misto de gêneros: das narrativas de fantasia quando o grupo de heróis entra em uma taverna, das histórias de caçadores de recompensa - modernas ou de faroeste - e do simples discutir filosófico sobre a vida. 
Um exemplo e uma síntese do que acima menciono é quando Sobol, em Nueva Königsberg, ao experimentar uma cerveja recém produzida, ao mesmo tempo sente raiva ao elucubrar sobre atos homicidas - ou seriam heroicos? De repente ele percebe que a cerveja não estava boa o suficiente para enviar para "A Coruja de Minerva" - a tal da taverna (mais uma estalagem). Ela havia azedado, concluiu o mestre-cervejeiro. Foi um boa mostra de como nossa percepção de mundo é temperada pelas nossas emoções.

A associação, por seu turno, possui muitos diálogos nos quais os personagens soltam frases de efeito praticamente toda vez em que aparecem - em especial Mark (sim, o Chapman). Há passagens geniais, ainda assim: a relação entre Mark e Lennon, que fingem não se incomodar, mas nunca estão no mesmo cômodo ao mesmo tempo; o aparecimento de sósias de badalados famosos que logo vão embora porque o local não era o ambiente festivo e de flerte que imaginaram; as elucubrações do narrador sobre a garota e sobre o que o levou a estar ali, e se seria possível retornar a(o) que(m) era.

Outra coisa que me incomodou foi que a narração em primeira pessoa tem uma sintaxe e performance muito aproximada da fala dos personagens que estão na associação, e até mesmo o tom dos diálogos é bem parecido, pois as frases de efeitos não são ditas apenas pelo sósia Mark. Antes fosse estilo indireto livre, mas isso permeia diversas falas, como mencionei. Creio que essa caricatura tenha sido proposital até determinado ponto, contudo a linha do exagero foi ultrapassada.

Quanto à narrativa, um dos capítulos de que mais gostei foi "o coração machucado como um pêssego, no qual o autor nos mostra como se perder na própria vida, sem chance de ser redescoberto e sem esperanças de que alguém peça resgate. Nesse capítulo o autor faz um paralelo entre a vida do sósia de Udai Hussein e determinadas escolhas que (se) faz(emos) na vida. Aqui fica claro para mim como podemos agir de forma neurótica para agradarmos alguém aquela parcela de nossa alma que quer agradar alguém. Solidão, carência, ambição, falso-amor... Quando não somos nós mesmos, e observando as escolhas em retrospectiva, o que de memória ainda queremos preservar?

Algo de que também gostei, e com a qual me identifiquei, por ser fã deste autor, é que a história tem um pouco dos absurdos e dos questionamentos existenciais trazidos nos livros do Enrique Vila-Matas (por falar nele, estou me devendo ler a coleção de contos Vampire in Love - reunião de contos em uma edição inglesa -, o romance Mac e seu Contratempo - pela Cia das Letras em 2018 - e Não há lugar para lógica em Kassel - pela ausente Kosac&Naify em 2015).

Vou poupá-los dos spoilers pesados, mas vou dizer que: Saddam não é quem parece ser, as linhas narrativas têm uma convergência, Lennon e Chapman têm novamente um encontro mortal.

Esse é o primeiro romance publicado de Tadeu Sarmento. Vale a leitura.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Impressões sobre o livro de contos Na Outra Margem, O Leviatã




Às vezes fico tentado a adquirir "Os melhores contos..." de um determinado autor - de que gosto; desconhecido, mas por cuja obra tenho curiosidade etc.

Percebi, contudo, que os melhores contos nem sempre devem vir todos juntos em uma mesma obra - embalados a vácuo e no frigorífico de algum supermercado. Uma melhor experiência a respeito da composição autoral e do diálogo de determinado conto "sensacional" deveria ser desfrutada na leitura da obra em que o conto teve sua gênese. 

Enxergo isso nos contos de Sidney Rocha; em Guimarães Rosa e em alguns livros de contos do Stephen King - porque neste autor a reunião de alguns é gratuita, simplesmente contos muito grandes para serem lançados em revistas como "contos" e pequenos demais para os padrões editoriais para sair como livro, e eles não tem coragem de chamá-los de "novela". 

A reunião de contos sobre a qual quero despejar minhas impressões tem essa qualidade de fazer parte de um universo - música de galáxia ao fundo - e me levou a um caminhar cheio de incertezas e de questionamentos enquanto eu vestia os calçados de seus personagens.

Falo de Na Outra Margem, o Leviatã (Ed. Lote 42, 112 páginas, 2018 - belíssima diagramação), do autor e acadêmico Cristhiano Aguiar.

Parece-me óbvio que alguns fatos no livro surgiram de experiências pelas quais o autor passou após sua chegada em São Paulo - Cristhiano é de Campina Grande, na Paraíba e morou por algum tempo em Recife-PE antes de cursar seu Doutorado em São Paulo -, e muito também de histórias orais e tradicionais do ambiente rural.

No ambiente urbano, destaco o Edifício Hannah quase como um personagem dentro de outro personagem, a própria cidade de São Paulo. No condomínio se passam algumas das histórias, e nelas me senti transportado para uma outra dimensão, na qual os pensamentos ganhavam vida de maneira objetiva e isso não era novidade para ninguém - repito, foi minha impressão subjetiva, como se algo de realismo fantástico pairasse dentro de mim mesmo enquanto lia a obra...

O primeiro conto são pequenas estórias - Miniatura.
  Em Um Piano no Domingo, a execução da música conduz o narrador a explorar um pouco seu olhar sobre os vizinhos e  aspectos antes não percebidos desse dia da semana tão fora do tempo. Somos submetidos a uma estranha contemporaneidade, pois o recorte parece uma descrição de alguém isolado em meio a recente pandemia do Covid-19 - para mim, no conto há também um índice de modernidade retirada da frase de Karl Marx utilizada por Marshall Berman no título do seu livro Tudo que é Sólido Desmancha no Ar: aqui não há a alegria dos músicos profissionais e/ou amadores em dividir suas imperfeitas execuções instrumentais com varandas e janelas solitárias e na expectativa de compartilhar algo em comum em meio ao isolamento - no mínimo calor humano, reconhecimento do sofrimento que nos é comum. Não, no conto vemos uma fotografia ou quadro que é a síntese de uma classe média urbana (a "negra de vestido branco limpava a janela", o idoso em cadeira de rodas que contemplava - o vazio? - pela janela) que irá colapsar ao primeiro sinal de crise.
  Em Tua Presença gostei do uso das metáforas. Elas contextualizam, em certos momentos, a cenografia, e dão impulso à narrativa, sem ser necessário uso de ação, como no "baú de coisas ausentes".
  Naturae me brindou com o realismo fantástico de que falei. As alegorias funcionam como gestos no ar que parecem passe de mágica; a rachadura no reflexo do espelho é uma distorção que a pessoa enxerga em si própria, não inata, mas fruto de sua vida vivida, sejam quais forem os percalços - "a rachadura sempre existiu ali".
  Em Trappist-1 o faxineiro me mostrou o tempo e a insignificância da duração de uma única vida.

Já no conto Recortes de Hannah, Lina e Lucas se conhecem em um elevador que acabara de quebrar. Enquanto conversam sobre como chegaram ali e o que fazem, lemos recortes de outras situações vividas por eles. Senti a existência da persona, da imagem a ser mostrada para os outros, um flerte com o inconsciente e com a psicanálise - "Ali, seu pai sempre vencia", no conflito de Lina com a forte presença da memória do pai, mesmo este em cadeira de rodas.
O insólito não estava na Graphic Novel escrita por Lucas, mas sim em uma cena em que dois monges barbeiam um mendigo - Caetano, figura que reaparece no ótimo conto Desaparecido - sobre como uma metrópole pode engolir, digerir parcialmente e regurgitar alguém em seu processo de loucura.
Na verdade Lina é quem entra em "pane" no seu encontro com o pai, e Lucas é quem vive uma situação insólita dentro do elevador.

Senti, no conto O Laboratório do Senhor Mosch Terpin, uma mudança na voz narrativa em cumplicidade com Faustine, personagem do miniconto Naturae. Foi o conto de que menos gostei, mas tem excelentes elipses - especialmente quanto ao tio Henrique do Natanael - e, como em outros recortes, referências à cultura pop.

Os Recém-Nascidos traz outro conflito de Faustine com seu passado, dessa vez por descobrir que seu avô era um fazendeiro/coronel que ajudava a ditadura e participou ativamente de sessões de tortura. Sua história é entremeada com a do professor Estêvão e da relação deste com sua mãe, cuja memória desperta ao escrever na lousa a frase de um poema, "Na voz quieta / O nascimento de criaturas marinhas". A recordação deles na praia em meio ao nascimento das tartarugas é de um lirismo bem legal, porém com um fundo pessimista que dá o tom da relação vivida por Estêvão com seus familiares. Há, no fim, uma conexão entre Estêvão e Faustine, mas me pareceu um pouco fora de propósito isso ter ocorrido no conto. As duas histórias poderiam ser contos separados sobre cada um dos personagens.

Terasa eu li e reli. Foi o conto de que mais gostei. Possui um lirismo não usado em outros contos do livro. Creio que seja um dos contos mais maduros, junto com Desaparecido e Laviatã - justamente os três últimos. Há um dialogismo bem presente com obras clássicas, como o Velho Testamento (a mulher samaritana) e a Odisseia. (Tem um anagrama lá, coisa pra nerd feito eu descobrir: Esparta, p. 75).
Teresa vive sua vida com seu marido que retornou de São Paulo e parece ter arrumado alguns problemas ao amealhar seu quinhão de glória monetária para abrir um pequeno negócio na cidade natal. Enquanto isso, ela revive momentos de espera, leituras ao pé do sono, pássaros que abundam em silêncio. E somos apresentados aos poucos a uma tragédia que ocorre no lugar em que ela mora. Parece-me que já estava escrito pelos deuses.
Por coincidência eu escutava Echoes do Pink Floyd ao ler o conto, e repeti a faixa assim que repeti a leitura. 

E por coincidência também eu escutei Seamus e Shine on you Crazy Diamond (tem um cão no conto e um uivando na música Seamus, e Shine... bem, já diz tudo) ao ler Desaparecido, um recorte da história de Caetano, já mencionada acima.

Leviatã, outro excelente conto, tem duas estórias - Faustine na Planície e Natanael e o Rio.
Faustine na Planície, não só pelo título, mas também pelo tom, me lembrou do filme Pauline na Praia e das histórias congêneres do Eric Rohmer. Em uma ONG no interior (da Paraíba?) ela percebe que a ação humana, o verter humano sobre outro é barrado por questões burocráticas não apenas fora, mas principalmente dentro da atividade da organização. Em certo momento ela tem um contato com a natureza para além da apreensão subjetiva das coisas, mas ela se torna o seu redor. Uma cena de apenas dois parágrafos, escrita belamente.
Natanael e o Rio para mim foi o trecho mais bem escrito do livro. Uma aula de literatura, de como conquistar o leitor. Natanael tenta viver uma experiência, ao escrever um livro, com um mergulhador profissional no rio Tietê. Ele conta como foi a Lucas, o narrador, e a Faustine. Em determinado momento, já no rio, Natanael encontra algo que o transporta, mesmo que por poucos segundos, a um onde que parece mais o Reino Quântico do filme Homem Formiga, um portal para o por dentro do dentro das coisas. O mergulho em si tem um quê de história de pescador com espírito de pirata, e o desfecho é voltar para a barriga do monstro, a cidade.

Digo algo: leiam o livro. Cristhiano precisa nos brindar com mais de suas estórias, e as últimas desse livro têm uma grande chance de nos mostrar o que esperar de futuros trabalhos.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Bloodchild, novela de Octavia Butler

Como seria um homem grávido? Como seria sermos mantidos em um "cativeiro seguro" por outra espécie? Como é crescer em meio a isso em outro planeta? A autora não nos dá uma resposta definitiva, mas nos dá sua melhor resposta por meio da narrativa de Gan, o protagonista do conto.

Os seres humanos que conseguiram escapar da Terra se abrigaram em um planeta no qual já havia outra espécie inteligente, e há uma necessidade de compartilhamento até mesmo parasitário para a sobrevivência dessa espécie, os Tlic.

O texto narra um momento na vida da família de Gan, seu convívio com irmão e irmãs e a mãe, sua escolha como favorito pela líder dos Tlic, a busca pelo cumprimento de uma promessa feita no passado e a implicação de Gan nisso tudo. 

É uma história sobre crescimento, maturidade, escolhas, responsabilidade perante a vida, perante a morte. 

Octavia Butler é magistral na narrativa. Ela nos faz presente na pele de Gan, sentimos o que ele sente, respiramos suas angústias, seu desejo, dói na pele aquele tapa dado pelo irmão mais velho. 

Eu recomendo muito a leitura, especialmente porque, para além do apuro estético, Butler nos fala sobre convivência em meio à diferença, sobre a dor do outro e da miséria que somos capazes de impor a nós mesmos.

Ganhador, na categoria novella dos prêmios Hugo, Nebulla e Locus de ficção científica.

Lido no idioma original, no Kindle.
Editora Headline




quinta-feira, 19 de março de 2020

A verdade sobre os CLICHÊS do caso Harry Quebert



"Todo mundo tem seus demônios. A questão é simplesmente saber até que ponto esses demônios são toleráveis."

Essa frase é do personagem narrador do livro, Marcus (Mark) Goldman, e resume bem o espírito da obra como um todo - seja em relação à escrita: uma ética do escritor, a relação comercial editor-escritor-agente; ao sistema judiciário; à investigação policial e, já me adiantando aqui, à percepção em relação aos nossos ídolos.


É também um livro sobre o amor, na verdade sobre relacionamentos, sobre quando uma relação entre um homem mais velho e uma mulher mais nova pode ser considerada pedofilia. Ecos de Lolita, sim, o romance tem isso - Harry Quebert -->  Humbert Humbert (?). 


A Verdade sobre o caso Harry Quebert, do suíço Joël Dicker, tem muito é do relativismo que se tenta esconder nas grandes respostas a questionamentos universais.


A metalinguagem é usada no livro do início ao fim - os capítulos são compostos de dicas do mestre ao "aluno sobre como escrever um livro" - com uma analogia a esportes (boxe) e relacionamentos.


A estória e sua narração mostra acontecimentos que poderiam estar em Mindhunter, da Netflix, mas, da maneira como foram contados, não verossímeis, e essa é uma das belezas da literatura, especialmente nesse caso, em que o livro é narrado em primeira pessoa: vemos muito do que o Goldman sempre quis ser, uma "força da natureza", só que um anti-Odisseu, ou seja, os obstáculos são sempre inferiores para que ele nunca fracasse (eu particularmente me ponho muito nessa condição). Na primeira parte do livro, Marcus teve ajuda para superar essa sua trava mental, mas ao mesmo tempo sinto que sua investigação é apenas uma formalidade para a obtenção do resultado por ele já vislumbrado.


O que torna o livro intrigante e dinâmico é a heterogeneidade de gêneros, contudo isso também o faz ser desapontador: em alguns momentos, uma história de amor romântica com excesso de pieguismo; em outros, reflexões sobre o amor à vida, relacionamentos e o que nos torna humanos; em alguns momentos, um sensacional humor judeu, especialmente quando Marcus conversa com sua mãe; em outros, uma tentativa de humor a partir de uma mãe casamenteira que dirige seu negócio e seu lar com padrão militar, e cujo comportamento beira a psicose.


O erro não é apenas de tom. Sinto que as partes em que os personagens sejam caricatos e clichês - como o envolvimento na trama do motorista, saído de um filme de 007, do ricaço da região - atrapalham mesmo o desenvolvimento da trama. Talvez o simples fosse melhor executado.


Senti isso no final do livro, com suas reviravoltas e ajustes finais. E sabe quem executou maravilhosamente bem uma obra metalinguística sobre as agruras da escrita, a vontade ("e necessidade") de ser bem sucedido no meio, e cuja trama é uma replicação das dicas dadas por um escritor? O roteirista Charlie Kaufman na obra Adaptação, um dos melhores e dos poucos filmes em que Nicolas Cage e o Chris Cooper dão um show de interpretação (direção de Spike Jonze, se não me engano).


Por outro lado, os personagens são bem complexos no cerne dos clichês por eles vestidos. Vemos que o motorista possui um passado trágico, é sensível, amante das artes, ele próprio um artista de mão cheia. É assombrado pela perda da oportunidade de estar com sua amada Eleanore (Lenora de Poe?), em quem enxerga as jovens louras da cidade. Ele tem um passado trágico, e um futuro idem.


Aqui os clichês são importantes para o recado do escritor. Ele brinca com esses estereótipos, mas o faz com profundidade. O rico misterioso; a mãe judia; o editor ganancioso; o narrador atleta e escritor, mas que é um poseur. A mãe de Marcus, por exemplo: parece saída de alguma obra do Philip Roth ou de dramédias modernas de Ben Stiller à Maravilhosa Sra. Maisel.  Ela, porém, é quem tem valorosos insights, e por telefone; sugeriu a Marcus escrever sobre Harry Quebert e disse que o assassino da garota é quem provavelmente estava ameaçando Marc (contudo outro clichê, né?).


Não li críticas sobre o livro, apenas o marketing publicitário associado às frases curtas retiradas da mídia (tem um nome técnico pra esses laudatórios? É laudatório? rsrsrs Se sim, quero saber...), e senti que há muito incenso.


Esse incenso é uma parte importante do que o autor questiona acerca do mercado publicitário. Não busquei informação de como o livro foi lançado. O autor é suíço e ganhou muitos prêmios na França, mas ele faz um exagerado, mas providencial raio-x no mercado editorial americano (ah!, a capa do livro que eu li, pela Intrinseca, e não as clássicas da Alfaguara, é uma reprodução do quadro Retrato de Nova Orleans, 1950, de Edward Hopper, e parece trazer um alerta da podridão americana do pós-guerra: com perseguição a comunistas - o caso Rosemberg é citado algumas vezes - segregação etc., ou seja, o que jaz sob a superfície da vida pacata de uma cidade interiorana dos EUA). Ele cita o uso de ghost writers para ajudar os grandes escritores; a necessidade de se lançar uma obra que seja uma vitrine e que gere dinheiro, em detrimento da qualidade; a janela de lançamento por conta da eleição presidencial de 2008 - até mesmo com estudo mercadológico de por quanto tempo o livro estaria nas notícias, e assim na boca do povo, até novembro de 2008.


Além de criar personagens complexos sob o verniz do clichê (usei um metaclichê, agora!), o autor consegue entregar a trama proposta, mesmo com todas as reviravoltas. Não há furos, na verdade os furos fazem parte da trama, do "narrador mentiroso" ou que não presta atenção. Gostei muito disso, de como o narrador presume as coisas - e induz o leitor a cair nessa armadilha (It's a cliché trap!) - e no final vemos o castelo de cartas desmoronar (vai, tenho que ser clichezento também, né!)  achei muito bom o fato de a trama policial ser quase um jornalismo investigativo gonzo, meio Truman Capote.


Eu recomendo a leitura.


3.5/5


A VERDADE SOBRE O CASO HARRY QUEBERT


Autor JOËL DICKER
Ed. Intrínseca (o livro é de 2012, lançado aqui em 2014)
Lido no Kindle

P.S.: quando fui procurar a imagem da capa, hoje, descobri que há uma minissérie☺️ em dez capítulos, de 2018, com o Patrick Dempsey interpretando o Harry.