sábado, 27 de abril de 2024

Rabiscos sobe Nossa Parte de Noite, de Mariana Enriquez

 Nossa parte de noite, de Marina Enriquez.

Ed. Intrínseca, edição do clube de livro Intrínsecos (foto do conteúdo, que é um mimo aos leitores, abaixo).

Tradução de Elisa Menezes

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A primeira e terceira parte do livro possuem uma influência bem clara de Stephen King, com um toque de romance de formação na parte 3. 

Na primeira parte ainda há um quê de road movie.

A parte 2, narrada pelo médico Bradford, me lembrou Lovecraft e Arthur Machen, de O grande deus Pã. É apenas um interlúdio, mas não deixa de ser um vívido relato sobre as ilusões e falsas expectativas de alguém que se acha autorizado pelo poder do dinheiro e da influência familiar. 

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Algo que me incomodou na primeira parte foi a fantasia. Os rituais e "poderes" do medium da ordem, o melancólico e homem-deus Juan Peterson. Creio que eu não estava preparado para uma suspensão de crença, mas sim para algo mais sutil, no estilo da construção narrativa de Stephen King, o que a autora o faz de forma magistral na parte 2, em que acompanhamos Gaspar, filho de Juan, suas desventuras com seus amigos e o elemento sobrenatural aparecendo de forma sutil, aqui e ali, até que a sutileza não tem mais lugar...

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A parte 4, a mais longa, narrada por Rosario, é a parte de que mais gostei. 

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É gótico, possui diversas vozes narrativas, vários gêneros.

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Gaspar, assim como Juan, parecem, por vezes, pessoas mimadas demais. Talvez eu tenha essa impressão por reconhecimento próprio, hehe, mas também sei que isso se deve, no texto, a como eles foram criados, sem uma fonte  emocional de amor & limite - além de uma violência não explicada e sem direção.

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Não fiz dessa vez minhas "Impressões", uma resenha mais elaborada sobre o texto.

Esses rabiscos eu os fiz quando li o livro, meses atrás, e creio que valem pra serem publicados no blog.

Uma nota sobre a estrutura do livro é que, em cada parte, tem praticamente um gênero diferente, e isso diz muito sobre o processo criativo desse livro em particular, e não o da autora.

Aguardem uma impressão minha sobre o livro de contos "Os perigos de fumar na cama", também dessa autora (ainda nem tenho um exemplar, mas terei).





quarta-feira, 21 de junho de 2023

Certeza sobre o fim, incertezas quanto à vida de leitor

 O livro, a história, o enredo, a danação veloz na hora da leitura.

Cada vez menos uso a antiga régua de "li tantos livros" para medir minha paixão pela literatura.

Tardiamente, apenas após quarenta voltas ao redor do sol, em espiral cortante pelo cosmos, percebo que vale mais para mim apreciar a obra de arte a que me propus desvelar do que contabilizar o li ou não li, o vi ou não vi (porque também me considero cinéfilo).

Para uma síntese: deixei de ser um nerd abestalhado, que queria ver e ler tudo, e passei a ler mais devagar, para apreciar a obra, e a continuar a ler e ver apenas se a obra é interessante para mim, e não pela obrigação de se chegar ao fim.

O que acham disso?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Impressões sangrentas sobre Seja Imortal, de Frederico Toscano



Fazia tempos que eu procurava um livro sobre/com vampiros que não se prendesse às questões melancólicas, às formas de sua destruição, ao sangue dos e das virgens - enfim, que fugisse aos clichês. Há sim essas questões, mas elas são menor ao enredo de Seja Imortal (Frederico Toscano, edição digital do autor) e são, ainda assim, constitutivas dele.

Não que Seja Imortal não nos traga uma familiaridade com o mito e suas diversas lendas, mas, se você procura os vampiros de Anne Rice, John Carpenter e Bram Stoker, vá diretamente nessas fontes. Os vampiros de Frederico Toscano estão mais próximos, para mim, dos de Stephen King em Salem's Lot (pela natureza), também presentes na saga A Torre Negra (em que há também uma questão corporativa).

Como suportar o jugo de viver para sempre, mas sem hormônios para regular nosso corpo, tendo de fugir do sol, de turbas ensandecidas etc. Bom, isso aqui não é um ensaio, mas vamos lá.

O livro conta a história de Eudora, mulher negra, portadora de deficiência física, e um gênio no seu campo de trabalho. Enquanto progride na carreira, chama atenção dos executivos vampirescos de uma empresa milenar que se instalou no Brasil - lugar, aliás, em que os imortais resolveram se revelar ao mundo. De sua cultura, eles trouxeram nomes, históricos ou não, lastreados na Grécia Antiga e até mesmo em mitos ainda mais antigos.

Voltando à natureza vampiresca, é impressionante como Frederico Toscano conseguiu nos mostrar diversas agendas dos vampiros e, no final, a síntese de todas elas, uma apoteose que volta ao início, como o dragão mordendo a própria cauda (mordendo de verdade, no pun intended) - mas deixarei para o leitor chegar nesse ponto.

O livro é imenso, super bem escrito, muito bem pesquisado (bom, o autor é mestre e doutor em História, convenhamos) e vai revelar ao leitor belas surpresas. Pra mim, houve aquele impacto de não querer largar o livro, mas, como tenho outras leituras, o momento de ler Seja Imortal geralmente era após às 22h, na cama, o ambiente escuro... Seja Corajoso hehehe.

O livro fala de abusos. Abusos políticos, individuais, coletivos. Fala de um país fraturado e dominado pela elite financeira. Fala também de resistência, independentemente do poder das elites. É um convite para a ação em meio à opressão. Senti ecos de leituras minhas anteriores: 1984, Admirável Mundo Novo (Soma neste; Ambrosia e o Elixir em Seja Imortal); A Rainha dos Condenados (da Anne Rice, mas ruim), Fahrenheit 451, e até de Assassin's Creed Odissey (só quem se apaixonou por Kassandra e sua jornada sabe...).

Bom, espero que venham continuações ou outras histórias no mesmo universo. Serão muito bem vindas.


* O livro é uma edição do autor, então possui pequenos erros que não passariam em uma revisão, mas nada que comprometa a leitura. Quero que essa obra caia logo no radar das editoras, merece muito uma edição física.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Ctrl+Alt+Frk (ou Horas atrás, fiz uma canção para uma coceira no pé)

    Frente a desafios de elevada estatura, se o choro me corre solto, é menos pela minha velocidade e mais pela minha inanição.

    Exagero.

    Mais que isso, sei que alguma máquina pode derrubar essas barreiras por mim, na coluna do meio.

   Horas atrás, fiz uma canção para uma coceira no pé, e é por conta desses momentos que as portas não serão fechadas.

   É interessante também eu ter evitado usar fantasias, pois só as crianças usam fantasias como se não fossem elas. 

    

    

sábado, 6 de novembro de 2021

"(...) a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção."



Como me restringir a apenas "impressões", como usualmente epigrafo meus textos neste blog?

Virginia Woolf traça não apenas o curso da, até então -- 1928, porém ainda persistente -- situação de submissão em que as mulheres são enquadradas nas sociedades patriarcais (estas como aquelas a cujo acesso ao poder econômico, familiar, religioso e social é dos homens -- não chega nem a ser retirado das mulheres, elas nunca o haviam tido).

Woolf apresentou, tendo como pano de fundo o acesso das mulheres inglesas à escrita (de romances, peças teatrais, poemas etc.), como a sociedade patriarcal é moldada para que as mulheres permaneçam nos serviços domésticos, de cozinha e sempre disponíveis às ordens dos homens; quando não deles, de outras mulheres mais velhas que perpetuam com seus comandos essa condição.

Ela então nos conta a saga das mulheres para receberem educação superior na Inglaterra, o fato de não haver bolsas para custeio e manutenção das faculdades, e em como é importante, material e simbolicamente, ter dinheiro e um teto todo seu para que as mulheres possam garantir a independência necessária a se dedicarem a uma atividade intelectual. Isso não quer dizer que a mulher não possa, caso queira, optar por atividades caseiras, à simples contemplação das coisas de seu ambiente. Ela exorta algo assim: "Deixar de ter filhos? Não, mas que tenhamos dois ou três, e não dez ou treze".

A partir disso, ela nos demonstra que a possibilidade de a mulher inglesa escrever parte da necessidade econômica, quando os homens viram que a mulher poderia ajudar nas despesas da casa -- tudo isso graças a Aphra Behn, poetisa e dramaturga do séc. XVII, a qual, após a morte prematura do esposo, teve de sustentar a sua família com suas produções literárias. Então que ela escrevesse textos para jornais, peças teatrais etc. Mas, até o século XIX, com todos os gêneros literários dominados e moldados por homens, restou às mulheres serem mestras no "romance" (novel no original, e ela brinca com a mesma origem etimológica da palavra, em inglês, à "novidade" -- novelty).

Daí surgiram "as quatro grandes romancistas" em língua inglesa dessa época: George Eliot, as irmãs Brontë e Jane Austen, e só depois da época delas, e já no início do século XX, as mulheres puderam ter uma participação intelectual maior em livros de biografia, científicos, de relatos de viagens etc.

Woolf, que havia herdado há poucos anos (em 1919, se não me engano, mesmo ano da liberação para as mulheres votarem na Inglaterra) uma pequena pensão de uma tia, desperta nas mulheres a consciência de que apenas com sua independência é que ela poderia se integrar ao masculino, e que apenas um homem com uma alma feminina poderia se integrar ao aspecto feminino do mundo. Há um quê de psicológico nisso, e, como ela própria indica, de forma bem diletante ela fala do  ideal de andrógino a partir de Samuel Taylor Coleridge, da união dos opostos na mente do homem e da mulher; em como, talvez, Shakespeare tenha conseguido isso, mas que isso não deveria, de modo algum, impedir as conquistas e lutas das mulheres, mas sim fazer com que os homens deixassem de usar como argumento a fragilidade do sexo feminino.

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Estou numa reading spree de Virginia Woolf. Ainda há outros aqui comigo para leitura, e o próximo será Orlando (talvez nesse romance ela tenha ilustrado o pensamento contido nos ensaios: a vida de Orlando desde o fim do século XVI ao início do século XX; de seu início como um homem colérico e conquistador; sua androginia, e a bissexualidade da própria VW, e a maturidade atingida quando se é mulher, casada e com filho). 

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Virginia Woolf

Um Teto Todo Seu, 141 p.

Tradução de Vera Ribeiro

Apresentação por Ana Maria Machado

Ed. Kindle

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Futuro do possível - Impressões sobre The Peripheral, de William Gibson

* Revisão da postagem após leitura da versão em português:

Periféricos, ed. Aleph, traduzido por Ludmila Hashimoto; 520 páginas.


Esse exercício ficcional de futurologia de William Gibson foi publicado em 2014. Fala em quase todas as mazelas que estamos vivendo, e provocadas por nós. Fala até em pandemia(s).

O livro é muito bom. É no futuro, e tem um futuro do futuro, após uma extinção em massa. A "viagem no tempo", se podemos nos referir a isso, é de informação. Dados, e com isso, manipulação. No futuro, em uma cleptocracia, filhinhos de papai se divertem jogando com o passado, alterando uma continuidade para se divertirem. Cada um em seu próprio braço temporal. Até que Flynne, a protagonista, testemunha algo, no futuro, que não deveria, então outros jogadores anônimos invadem o braço temporal dela, e daí a trama avança.

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A escrita de Gibson é um pouco opaca, você vai descobrindo as coisas, a geografia etc, à medida que vai lendo, o que acho bem legal, apesar de uma desorientação no início. Só tinha lido três livros dele antes e alguns contos, então a maneira de ele compor me retornou aos poucos.

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Cada personagem tem um sabor especial, e ele sabe manter essa constância. Temos dois pdv narrativos. O de Flynne no nosso futuro e o de Wilf Netherton, em uma Londres no futuro dela. Netherton é basicamente responsável por Flynne ter visto o que não deveria ter visto, mas não darei spoilers.

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Um dos aspectos de que gosto das obras do William Gibson - pela congruência em seu opus - é que ele não vislumbra um possível temporal e sim um tempo possível; não é um possível futuro e sim um futuro de possibilidades a partir do presente em que ele escreve.

Por exemplo, em um determinado momento do livro, no futuro do futuro, um personagem menciona que os Estados Unidos chegaram a ser governados por uma junta militar após um golpe, e que esse grupo fez uma devassa nos documentos e registros da população; isso me lembrou muito O Conto da Aia, de Margareth Atwood, fruto também de um futuro do possível na época em que ela escreveu sua obra.

The Peripheral não traz apenas um futuro possível, mas dois. Um deles é ainda no século XX, a presidente dos EUA é uma mulher latina, e a Homeland Security (sim, de Carrie Mathison) patrulha o país e controla as demais agências federais, com constantes intervenções. Em uma Buttholevillage mora Flynne Fisher, uma libélula dos games que de vez em quando substitui seu irmão Burton em freelas relativos a testes de jogos etc.

Em uma dessas substituições (sub no jargão da época), Flynne testa um sistema de segurança em uma paisagem urbana estéril, fruto de uma IA, na qual um prédio parece ter vida própria e estar em constante sussurro.

Ela acaba vendo um macabro assassinato e vários glitches no jogo.

Setenta anos depois, já no século XXII - após um acontecimento apocalíptico chamado The Jackpot, em que 80% da população do mundo foi exterminada, "Sorte Grande" - encontramos Wilf Netherton, um publicitário. Ele vive em um mundo controlado por uma cleptocracia inglesa em constante competição com a China, e em que os EUA tem sua influência mitigada, mas ainda age como patrulheiro no mundo. Netherton em conjunto com Rainey - uma publicitária canadense que trabalha para o governo - prestam serviço de consultoria para Daedra West, uma celebridade performer cuja influência a leva a servir, também, como adida cultural para os EUA. Em um ponto no meio do Pacífico - o que seria hoje aquele imenso bolsão de lixo plástico - ela vai se encontrar com o líder de um grupo pós-humanos deformados e que usam o material - polímeros etc - para modificações corporais (chamados de The Patchers), mas algo dá errado e, após ela matar o líder dessas pessoas - um cara com cabeça que parece a de um sapo e dois pênis - o sistema automático de defesa e proteção dela (androides) entra em ação e extermina todos os que estavam nesse bolsão.

O interessante desse futuro, e de como surgiu, é que o Jackpot não foi uma hecatombe nuclear nem provocado pela queda de um meteorito ou algo assim, mas um acontecimento gradual, que já estava ocorrendo desde a época de Flynne, e teve relação com problemas ambientais, pandemias, como já dito, proxy-wars etc. 

A partir do aparente fiasco com Daedra, o futuro do nosso presente de Flynne converge com o futuro do futuro de Netherton. Não entrarei em detalhes aqui para não estragar a leitura. Digo, porém, que o mundo de Flynne, construído por Gibson, já é uma distopia mitigada do nosso presente. Nele as impressoras 3D são a mola mestra da tecnologia e para a vida privada - usadas para fabricação de alimentos até drogas - e, em larga medida, a economia local depende muito da produção das drogas. 

O irmão de Flyyne, Burton, é um veterano de uma unidade chamada Háptica, relativa a sensação tátil, e foi submetido a modificações subcutâneas para poder combater em sua unidade especial. Essa alteração corporal acabou por acarretar problemas neuronais nele, e isso fez com que ele fosse dispensado. Não que ele tenha ficado inválido, pelo contrário, ele é o líder de seu próprio bando (posse em inglês, algo que remete aos bandos do velho oeste). Uma das "atividades" em que ele está envolvido é tentar desbaratar protestos silenciosos de uma igreja (mais para grupo ou seita) chamada Lucas 4:5 - "Então o Diabo o levou a um lugar muito alto e lhe mostrou, em uma fração de tempo, todos os reinos do mundo" (versão do Rei James atualizada).

No livro, essa seita e outros acontecimentos a partir do contato temporal, leva menção, por parte do autor, a questões legais tanto de Direitos Humanos quanto de Direito Corporativo, as quais, apesar de superficialmente narradas, estão sempre presentes em nossas vidas.

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Os personagens que aparecem são bem interessantes, e aqui destaco alguns: Conner, melhor amigo de Burton e também veterano que perdeu boa parte do corpo, mas que não perdeu a razão e a força de viver; Madison e Janice, amigos de Flynne, casal gente boa que parece receber informações sobre tudo, mas não se abala; Ash e Ossian, dupla de especialistas em TI no futuro que servem como trouble shooters e mais para Lev, este vindo de uma família russoanglicana e um dos responsáveis pelo contato entre o futuro e o passado; Macon e Edward, technoboys que implementam toda a questão tecnológica no passado para possibilitar a comunicação com o futuro; ainda no passado, o meticuloso agente secreto Gryffyd, o qual usa os recursos e informações enviados do futuro para ajudar Flynne e Burton a resolverem, no futuro, a situação que Flynne viu no jogo testado no início do livro; Lowbeer e Clovis - e aqui não falo mais sobre estas personagens porque perderá a graça.

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Algo que me deixou ressabiado foi o uso da tecnologia de contato entre o presente e o futuro. No livro fica claro que, a partir desse contato, o presente de Flynne já não será mais o futuro de Netherton, o que é bem congruente, mas nada se explica quanto à tecnologia envolvida no processo. Até entendo. Como disse o professor e escritor Fábio Fernandes, Gibson escreve soft sci-fi e, de acordo com o desenrolar da trama, vemos um narrador em terceira pessoa que enxerga através dos olhos de Flynne e de Netherton, então apenas somos informados do que eles sabem.

O legal da viagem no tempo, na obra, é que o que viaja não são corpos humanos nem objetos, mas informação.

Além dessa tecnologia, a além da tecnologia no futuro de Flynne, é bem interessante a forma como Gibson imaginou o uso da medicina, da tecnologia de invisibilidade de materiais em veículos terrestres e uniformes militares (já aplicada hoje pelos EUA em sua aeronáutica).

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Gostei muito da alternância de capítulos entre o futuro do nosso presente e o futuro do futuro. Ambientei-me após o capítulo 15 (de 124) então consegui avançar sem percalços depois. Quando li a versão em português, não houve incômodo em relação a isso.

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Há cenas meio líricas, poéticas, quando vistas do ponto de vista de Flynne, que é muito ligada à família, mas, diferentemente de como muitos jovens do interior são retratados em obras americanas, ela não quer largar tudo e ir para a cidade grande, mas sim viver um amor, trabalhar, jogar, divertir-se. As mudanças em sua vida, após a comunicação com o futuro, são drásticas - aliás, a comunicação afeta o país todo. 

Em uma bela reflexão, Flynne percebe como o contato com o futuro a tirou de sua vida de pegar a bicicleta e ir ao bar, conversar com amigos, comer no Sushi Barn (isso, Celeiro Sushi, quase um oxímoro), mas em determinado momento, Netherton pensa sobre como Flynne lida com isso: "Ela tinha um jeito de simplesmente ir em frente".

(Nessa questão a tradução peca, por não conseguir captar o pouco de lirismo que o livro tem. Ficou algo meio sem sabor, mas a equivalência em português foi bem competente).

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Netherton, após o fiasco da visita de Daedra ao bolsão no pacífico, fica sem emprego e, na Inglaterra, procura refúgio com Lev, a fim de entender as consequências dos atos de sua cliente e espairecer. Ele é um alcoólatra e meio que não liga para muita coisa, mas permanecer vivo e bem é uma de suas prioridades, de preferência com um uísque triplo em mãos. O contato com o passado, porém, o modifica bastante. Penso que ele sim foi o personagem que mais evoluiu psicologicamente, não apenas por como ele lidou com a situação, mas pelo exemplo que recebeu dos que estavam a seu redor - especialmente Flynne. 

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As obras de Gibson muitas vezes nos mostram uma vida privada que tangencia a coisa pública, mas que, quando há um atravessamento de uma pela outra, geralmente é com som, fúria e ressentimento. Isso não quer dizer que o futuro, mesmo sombrio, não deva ser vivido, ainda que não concretizado da forma como esperamos. Assim como o tempo, devemos seguir: avante.

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A capa do livro aqui exibida é de uma nova edição, publicada após o lançamento do segundo livro (Agency) da agora série The Peripheral. 



O "periférico" do título é justamente uma analogia Cyberpunk aos periféricos de computadores, mas que servem, no futuro, para as pessoas usarem para estarem em outros locais, caso não possam ir fisicamente. São uma gama que vai de homúnculos para operar máquinas a trogloditas-guarda-costas-pé-de-valsa.

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Vai aqui a capa da versão pt-br:



Dados técnicos:

The Peripheral , de William Gibson

(The Peripheral #1)

Putnam Ed. (Penguin), 2014.

485 páginas.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Impressões sobre O Seminarista, de Rubem Fonseca

 Evocando o personagem epônimo, há uma estranha simetria entre a vida e a morte. O narrador-personagem, porém, apenas vai encontrar essa estranheza ao se aposentar.

José é um ex-seminarista que não conseguiu seguir a batina porque os desejos carnais tiveram preponderância sobre os divinos. Ele, então, se tornou um assassino profissional. E, no início da obra, aoesar de narrar alguns assassinatos encomendados para mostrar a que veio, o que ele textualmente diz no livro -- dentre eles uma passagem na qual ri muito (sim, tenho um humor mórbido em alguns momentos), quando o assassino procura um necrófilo e encontra o retrato de uma das suas vítimas, a qual José diz ser "bonita para necrófilo nenhum botar defeito --  a trama tem sua importância nos acontecimentos que se desenrolam após a aposentadoria. 

A partir daí, José percorre diversos pontos da cidade -- Rio de Janeiro -- imiscuindo-se com a burguesia mais sórdida e buscando ajuda junto a tipos suburbanos e que vivem à margem da lei -- estes quase sempre amigos do passado. Esses personagens mais periféricos têm nome, mas é o apelido que se sobressai: O Gralha, Sangue de Boi... Essa quase aventura começou porque José ficou desconfiado de que o estavam seguindo, isso depois de ele estar quase vivendo junto com sua namorada -- uma alemã que trabalhava com tradução. Não se engane o leitor, tudo é importante na obra, cada detalhe que Rubem Fonseca põe e que, lá na frente, salta do texto como se fosse nos pregar uma peça. 

O formato do livro é José narrando suas peripécias até o ponto em que ele se encontra -- na vida, na história -- no final do livro. Já me acostumei com as narrativas rápidas de Rubem Fonseca. Esta é uma delas, mais para uma novela do que um romance. Recomendo sua leitura em um dia, no fim da tarde...

O assassino tem ideias bem formadas quanto a seu envolvimento com mulheres -- devem ser magras, não muito altas, com barriga lisa, bumbum firme e seios pequenos -- quanto ao fato de não ler jornais e nem ter remorso algum. Suas paixões: ler poesia ouvindo rock, ver filmes e ir a sebos. Com o passar da trama, vemos José ser surpreendido por não ter visto determinada notícia, por ter comido um prato mais elaborado (e gostoso) em um restaurante mais caro, por ter conhecido alguém com quem vale a pena estar junto. As elipses são interessantes na obra porque Fonseca não precisa explicar nada, basta prestar atenção nas escolhas e mudanças do personagem -- por ex.: ele foi chamado de frouxo e maricas por seus amigos quando era guri porque não quis matar um galo (por princípio, ele não matava animais), mas algo muda nisso, e só você lendo para descobrir.

Em alguns momentos -- como quando da explicação sobre a adega de vinho ou sobre que tipo de bacalhau será servido -- os personagens apresentam um ar professoral que destoa da obra. Creio, porém, que o pedantismo é proposital, basta situar o livro no opus de Fonseca: ele descasca a hipocrisia da burguesia e apresenta personagens que vivem em uma miséria física e espiritual, e tudo o que vem de personagens ricos nos livros dele parece ser um verniz que esconde uma podridão moral e também ética. Parafraseando o autor, os pobres fazem o necessário em sua luta pela sobrevivência no ambiente urbano, enquanto a burguesia afia os arames farpados.

José apenas queria tranquilidade, mas não esperava uma aposentadoria tão "rica". A riqueza com a qual nos brinda Rubem Fonseca é mostrar, sem psicologismos, a mudança de atitudes de José, especialmente em algumas ações destoantes do que ele propagava.


O Seminarista, de Rubem Fonseca.
Ed. Ediouro, 120 páginas, Kindle.

sábado, 7 de novembro de 2020

Impressões e emoções sobre Território Lovecraft, de Matt Ruff

Matt Ruff é um escritor que conseguiu me deixar angustiado, nervoso, aflito, com raiva. 

E não foi porque um shoggoth apareceu e ameaçou devorar os heróis e heroínas do livro. As cenas as quais me refiro dizem respeito às "normas do pôr do sol", ao "guia rodoviário do viajante negro", às leis segregacionistas Jim Crow nos EUA, que duraram para além da década de 1960 -- e não era apenas no sul que havia segregação, pois  os democratas nos estados é que foram responsáveis pela ferrenha aprovação e repristinação de leis discriminatórias, vejam só.

Em uma particular rememoração -- muito bem escrita -- do início do que hoje conhecemos como "massacre de Tulsa", vemos que tudo começou porque um homem negro apenas esbarrou em uma ascensorista branca e ela gritou que havia sido atacada. Ele foi levado ao tribunal, óbvio, mas muitos negros souberam do ocorrido e foram protestar, e logo brancos armados e em grupos cada vez maiores começaram a perseguição, massacre e expulsão dos homens, das mulheres e das crianças que viviam em Tulsa, mesmo que tivessem de queimar todas as casas para garantir que isso ocorresse. E as leis Jim Crow não vigoravam lá...

Bom, o livro é mais do que isso. Diz respeito à busca por ancestralidade, afirmação do humano, ocupar espaços, sobreviver. Quando Atticus, um dos personagens principais, retorna da Guerra da Coreia para Chicago, Illinois, encontra a casa de Montrose, seu pai, vazia, e parte com seu tio George e a vizinha Letitia para encontrar o velho. As únicas pistas: uma carta de seu pai, um Daimler prateado dirigido por um homem branco -- com quem seu pai foi visto, contudo interagindo de forma amistosa -- e a possibilidade de irem a Ardham, ao que no livro é conhecido como Território Lovecraft, um local estranho, em que uma comunidade construiu a pequena cidade de Bideford, politicamente separada do condado de Ardham, e onde negros não eram bem-vindos. Detalhe, essa comunidade é formada por pessoas que queimavam bruxas na Inglaterra.

O livro me pareceu ter a estrutura de diversos contos que revelam um suíte bem amarrada. Lembra-me mais um fix-up do que um romance, já que os capítulos, com exceção dos dois primeiros, possuem protagonistas e histórias diversas. Há sim um aspecto de horror cósmico -- e, SPOILER ALERT!, uma senzala cósmica, no estranho e excelente capítulo em que a personagem principal é Hippolyta -- esposa de George, e mãe do adolescente Horace, talentoso desenhista e que também tem uma história maravilhosa, e que lembra mais um conto de horror de Stephen King. 

Outro capítulo fascinante é Jakyll in Hyde Park, em que Ruby, irmã de Letitia, é a condutora da história, em uma sensual e estranha -- e também, pelos motivos errados, libertadora -- emulação da arquetípica dominação do eu pela sombra (ou mesmo pela inflação da persona, diga lá?).

Todos os capítulos costuram a história que começa lá com a viagem de Atticus, e se você espera que o mythos esteja bem presente aqui, saiba que o autor investe mais em camarilas & sociedades secretas, maçonaria e magia. Senti um incômodo na leitura. Creio que ingressei na história com o pensamento errado, como se as lendas lovecraftianas se inserissem na história em uma intertextualidade para além das metáforas, mas o incomum aqui é a magia. Ocorre que esse elemento extrafísico perpassa a obra com certa familiaridade, mesmo para aqueles personagens que não tiveram contato anterior com os estranhos acontecimentos, como é o caso dos amigos maçons de George. É como se as "maravilhas" ocorressem de forma a não maravilhar ninguém. Isso pode ter sido mais falha do Ruff ao narrar certas passagens do que sua original intenção. 

Encontrei alguns outros problemas também: em determinada cena, um personagem esperou uns instantes para que "sua frequência cardíaca diminuísse"; em cena do início do livro, o autor explica em off o que se passara entre dois personagens, quando poderia ter mostrado a cena, o que seria algo rápido.

Apesar disso, as demais descrições, ambientações e interações entre os personagens são bem escritas, cumprem com a proposta de gerar tensão e de contar uma boa história de entretenimento e de recuperação da História do sofrimento -- ainda presente -- da população negra nos EUA.


Ps.: Em tempo, vi o primeiro episódio da série Lovecraft Country, da HBO, quando se encontrava disponível no canal oficial da emissora no YouTube, e posso dizer que o episódio é melhor do que o início do livro -- desenvolve melhor os personagens e é mais assustador.





Território Lovecraft, de Matt Ruff.

Tradução de Thais Paiva.

Editora Intrínseca, 352 páginas.

Edição Kindle 



domingo, 4 de outubro de 2020

Sagrado e Profano - impressões sobre a Trilogia dos Brutos, de Ana Paula Maia

 Gosto das histórias de Ana Paula Maia. Talvez porque elas habitem o mesmo imaginário em que em mim habitam as histórias de samurais, cangaceiros e westerns. 

Um ambiente crepuscular entre a ordem e o caos, em que mais vale a honra do que a lei e em que, em alguns casos, a honra é a lei.

A ordem social, a figura do direito público e suas normas de conduta existem em todas esses cenários, mas quase sempre à margem. O exercício unilateral das próprias razões, mediado pela imposição da própria força é o que prevalece. Os dados rolam e a vida segue seu caminho. Mas grandes obras e grandes histórias apenas são possíveis com a lente privilegiada de uma autoria.  Ana Paula Maia escolheu a dedo seus protagonistas e foi pinçar fatos da vida em que aparentes tragédias são motivo ou consequência dos acontecimentos.


Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos

Já havia lido esse livro, creio que há uns dez anos.

A releitura foi uma oportunidade de entrar em contato novamente com a obra dessa super talentosa autora, e me descobrir um leitor mais maduro e exigente. O livro é um bom ponto de contato com a obra de Maia, pois ela escrevera outros dois textos anteriores — se não me engano (ainda não os li). 

Como tentei dizer, é obra de uma escritora em maturação, e em alguns momentos o narrador solta frases desnecessárias quando poderia mostrar o dito em ação ou mesmo omitir determinada sequência.

A poesia existe na vida desses homens limitados pela falta de oportunidades e que se movem com um senso de sobrevivência em meio à hegemonia dos outros. Quando há sonhos de algo além do que vivem, é uma visão trazida à beira da morte - "vá ver a neve" - ou ao se olhar para o céu, cujas nuvens poderiam até mesmo ser cortadas por um facão. 

Nesta passagem, Ana Paula Maia é de um lirismo assombroso:

"Às vezes, até as estrelas parecem fazer sombra. Mesmo mortas, insistem em ofuscar com seu insistente senso de infinito. E ao pensar nas estrelas, às vezes ele gostaria de ter uma escadaria para o céu. Para apagá-las com um sopro."

E, para esses homens, abandonados pelo mundo, a vida é mesmo um rápido estertor.

O que Gerson e Edgar Wilson, abatedores de porcos, não têm de "sociabilidade", ou a têm limitadamente, é compensado com quase um bromance de brutos, e uma contemplação de "fim de dia", mas que, em alguns momentos — e na soma desses momentos — mostra-se em demasia. Não chega a ser fastidioso, porque as imagens "captadas" por Ana é da alma dos seus personagens, e a coerência e o estilo são marcantes.


Na novela O Trabalho Sujo dos Outros, há uma aproximação ao que Bauman definiu como "a sociedade do descarte", pois vivemos para consumir, mas desde que haja uma obsolescência programada geral — das coisas, mas das pessoas também. Erasmo Wagner faz um dos trabalhos mais importantes para a sociedade urbana, e isso é bem marcante na história, ele tem consciência disso, apesar de sua melancolia; acredito que esse estado depressivo do personagem foi resultado do encontro do seu desejo por mais com a situação de miséria e apagamento na qual ele e seus colegas vivem.


Carvão Animal

Encontrei os opostos nesse texto de Ana Paula Maia, romance que encerra a trilogia dos brutos.

Na obra o fogo, e o carvão, produto de queima, é uma excelente metáfora para a vida e para a morte, e as histórias do romance são alegorias dessa jornada.

Os cenários do livro todos têm relação com o fogo: Corpo de Bombeiros, uma olaria, uma carvoaria, um crematório, uma mina de carvão que explode.

O único lugar que parece não queimar é a casa do bombeiro Ernesto Wesley, mas aí queima sim: o rancor pela morte da filha causado por um irmão que está preso; a raiva que a vizinha sente da cadela Jocasta; o calor de uma compostagem caseira etc.

No crematório "(o) carteado é religioso", um profano sagrado em meio a um mecânico e demorado ritual de cremação em uma funerária. Aqui há o verniz do respeito com os parentes dos mortos, que lançam parte das cinzas ao pé de roseiras bem cuidadas, enquanto que as sobras e cinzas não reclamadas são descartadas em um matagal que margeia a parte de trás da funerária, em meio à imundície acumulada e bichos oportunistas.

Palmiro, Ronivon (irmão de Ernesto Wesley), Geverson, Aparício, o coveiro, e JG trabalham em uma funerária especializada em cremação de corpos. São pessoas que, em bela síntese da autora, esperam pelos mortos para a vida prosseguir.

A gama de personagens de Ana Paula Maia, assim como "a maioria dos homens(,) é moldada a concreto. São duros feito rocha. Inquebrantáveis de espírito, torpes" (Carvão Animal, l. 1243)

Gosto do nome dos heróis de Ana Paula Maia - se bem que os chamar assim é um desrespeito à jornada deles: Edgar Wilson, Ernesto Wesley e Erasmo Wagner. Todos E W. Sim, tem um motivo, e conheço pelo menos o do primeiro: Edgar (Allan Poe) Wilson (do conto de Poe, William Wilson).


A autora não reduz a história a um determinismo naturalista, mas não nega a influência do meio - assim como eu também, como leitor, não a nego.


Peguei essa foto da Ilustríssima, em artigo de Joca Rainers Terron o qual li após a escrita dessas impressões; recomendo fortemente a leitura, pois nos fala da repercussão internacional da obra da autora e da vanguarda da sua literatura; ainda não li os publicados depois da trilogia aqui enfrentada, "mas vos digo, caso não saibais" - ela foi vencedora por duas vezes do Prêmio São Paulo de literatura, em 2018 e em 2019; antes de passar para a leitura dessas obras premiadas, quero ler "A Guerra dos Bastardos", de 2007 e "De Gado e Homens", de 2013 (há um ainda anterior - "O Habitante das Falhas Subterrâneas", de 2003, mas esgotado). Segue AQUI o link para o artigo do Joca Terron







quinta-feira, 17 de setembro de 2020

The Boys - Ficções, Política e o Outro


 

The Boys é uma série - baseada no quadrinho homônimo criado por Garth Ennis e Darick Robertson - na qual uma equipe de super-heróis é patrocinada por uma empresa chamada Vought. A empresa tenta fazer com que os heróis atendam a chamados globais de enfrentamento a ameaças terroristas, e muito do que ocorre nos bastidores é a manipulação do governo americano para que isso seja sancionado. 

Questões corporativas ficam à margem quando as questões pessoais dos heróis surgem, e daí vemos porque não é possível existir, de verdade, uma Liga da Justiça nem os Vingadores como os vimos retratados - isso sim é uma utopia. A série possui muita violência gráfica, mas esta acaba sendo quase um refrigério em comparação às questões morais e políticas colocadas. Não há preto nem branco, e sim uma longa faixa cinza interrompida de vez em quando por um vermelho bem forte - não o vermelho de "ameaça comunista", mas de sangue, sangue dos que sofrem com a manipulação governamental e corporativa da qual, transportada da tela para nossa vida, somos vítimas. 

Nesse aspecto, uma das cenas mais interessantes na série The Boys é o confronto entre Stormfront e Homelander no quarto episódio da segunda temporada. Homelander, um Peter Pan anabolizado com problemas narcisísticos em nível homicida, acusa a "heroína" de roubar a popularidade que ele, líder d'Os Sete, possui. Ela diz que ele está muito enganado, que não se preocupa com cinquenta milhões de votos por ele recebidos na enquete sobre a qual discutem, e que ele tem de se antenar aos novos tempos e se comunicar de maneira mais rápida e eficiente com os seguidores, porque ela precisa de apenas uns cinco milhões, e não dez vezes isso, desde que esses sejam crentes e raivosos porque assim ela teria uma massa de manobra que poderia agir de forma muito rápida, e de modo eficiente, a espalhar o que ela tem a dizer, e não teria uma vontade diluída em algumas dezenas de milhões que não fazem nada.

A arte imita a vida, não? O quanto esse episódio foi escrito pensando nos apoiadores de Trump lá nos EUA - e, por extensão óbvia à minha pretensão, aos apoiadores de Bolsonaro aqui no Brasil? Há uma escalada de coisificação elevada à idolatria que vem ocorrendo aqui no BR. A massa de manobra do presidente, ainda que haja pessoas inteligentes nela (pior por isso, vide o nazismo), é movida por vontade e interesses puramente egoístas - perpetuar seus ganhos materiais e ter a expectativa dessa continuidade, melhor ainda quando feito com a coisa pública para obtenção de interesses privados. Bolsonaro eleva a cloroquina a objeto sagrado, sem comprovação científica, um graal profano de uma Narrativa quixotesca, enquanto várias pesquisas sérias desenvolvem vacinas que são tidas pela base de apoio do presidente como coisa do demônio, que pode prejudicar as pessoas. A posse do Ministro da Saúde demonstrou bem isso. O presidente e seu governo exclui o social, o meio ambiente, o outro que necessita de apoio de políticas governamentais (e que deveriam ser de Estado), a comunidade negra, a comunidade LGBTQA+. Os outros são homo sacer - pessoas sagradas, simples Biós, passíveis de serem excluídas e exterminadas; são impedidas de realizar aquilo que nós temos em comum como seres humanos - a capacidade de sofrer e reconhecer o sofrimento no outro, ou seja, de desenvolver a Zoé.

A ficão científica e suas alegorias não são apenas prospectivas. Não são mesmo, especialmente as que têm em seu cerne questões políticas e sociais. Mas também não são redutivas, não se restringindo a simplesmente apontar o dedo - apesar de pôr bem o dedo na ferida.

sábado, 4 de julho de 2020

Impressões sobre Carapaça Escura

Impressões sobre Carapaça Escura,

de Frederico Toscano.

Patuá Editora, 96 páginas.


Eu acabara de ler Otelo, então estava rodeado por água - Veneza e Chipre - e no qual o principal assassinato é por sufocamento.

Em seguida, assisti, por três dias, à minissérie O Terror (The Terror), a qual adaptou o livro de Dan Simmons à telinha, e que reconta, de forma magistral, e com um toque de terror, a Expedição Franklin - em que o Comandante Sir John Franklin tentava descobrir e singrar a "Passagem Noroeste" entre o Atlântico e o Pacífico, este no Estreito de Bering.

Água, afogamento (a maioria dos marinheiros contratados antigamente não sabiam nadar, vai saber…), envenenamento, urso gigante, doenças e um escafandro…

Eu pensei em ler um livro de contos policiais no leitor digital, mas então me lembrei - acabei de me lembrar - de que havia separado este livro:


Muito mais do que atraído pela capa, a qual me provoca admiração estética e um certo calafrio (palavra usada pelo autor em sua dedicatória a mim), eu estava imerso em uma sensação de ser assimilado pelo que minha cidade - Recife - tem a oferecer em termos estéticos quando se trata de água, pavor e os demônios que habitam os pátios eclesiásticos.

Mergulhei, então, na leitura do livro.

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Nos dois primeiros contos me fascinou a linguagem usada pelo autor, com um vocabulário regional, delicioso… eu até parecia ver a pessoa falar ao meu lado.

Vi um pouco da vida que também é e foi minha: morando, quando criança, no limite oeste do bairro de Boa Viagem, minha rua era de barro, continuação da rua de uma favela, então havia um muro invisível que de vez em quando nós transpúnhamos… Ralar o joelho, pular muro dos vizinhos, voltar melado de barro para a barra da saia da mãe, isso teve… Teve também o mistério de uma casa que parecia ter um lago dentro de si, com uma jangada… bem, essa história vou contar depois.

Já na Avenida Boa Viagem, limite leste do bairro junto ao mar, vimos o outro lado, um decadente militar de classe média alta, com seus crimes e violência patriarcal escondidos pela caserna, faz uma descoberta junto ao quebra-mar que vai mudar sua vida, sendo, ao mesmo tempo, uma visita do passado.

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Essas histórias retiveram em mim uma sensação pueril de estranhamento quanto ao mundo, muito maior do que eu apreendera até aquele momento.

E, ainda, em termos de nota pessoal, e porque penso que fiquei contaminado com o "urso" que apareceu na série O Terror, senti que algumas das cenas muito bem mostradas, poderiam ficar mais na insinuação do que explicitadas - mas, repito, isso é um gosto estético que, penso, vai de encontro à proposta do livro, assumidamente de literatura fantástica. Prossigamos…

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Algo no livro que me encantou foi a escrita. Frederico teve um cuidado artesanal com a linguagem.

Frases como "Ascendeu devagar em direção à luminosidade tremulante e, resignado, deixou-se abandonar aos caprichos daquela vontade superior, qual mamulengo ao final do espetáculo", sobre a retirada de um escafandrista da água, no conto Carapaça Escura.

Uma assombração em uma pista de barro, sob a luz de uma lamparina e companhia do mato ao redor é "uma alvura suspensa na curva da estrada", e não adianta se afastar, pois a assombração continua lá, como "uma impressão pesando-lhe sobre a nuca", em A Estrada Dela.

Uma simples imagem que nos remete à vida e ao nascimento é transformada em um horror lovecraftiano, descrito, em O Abismo no Céu, "como uma placenta repleta de olhos e membros retorcidos".

Isso só demonstra uma patente transpiração, sem artificialismos.

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Se você gosta de literatura, leia; se gosta de literatura fantástica, leia.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Impressões sobre O Legado de Eszter, de Sándor Márai

- Qual é seu limite, Lajos?
- Que pergunta é essa, qual o limite?
- Qual é o limite? - repeti. - Imagino que todo homem tenha algum limite em que há uma medida para o bem e para o mal. De certo modo, para tudo o que é possível entre os homens. Mas você não tem limites.

Eszter, uma mulher. Seu legado, mais do que um patrimônio dilapidado pelo homem que um dia amou, e de forma recíproca também foi amada.
Mas esse homem só vivia por e para sua própria vontade, alheio aos demais, como um dionisíaco nietzscheano cujos atos se tornavam meras desculpas na mente dos outros.

Depois de vinte anos essa sombra do passado retorna. Seus impulsos são uma história de poesia, como diz Eva, sua filha e também vítima, e não de memória.
Lajos, para a filha, é como um caçador que precisa desbravar a selva e, após encontro fatídico para a presa, continuar, pois o que importa é a caçada, e não o troféu.

Eszter, narradora da história, e psicologicamente muito bem construída, nos leva a seguir as mentiras em que ela própria acreditava. Ela é acossada por figuras do passado, vivas e mortas; por uma juventude - representada pelos sobrinhos - cujos termos do contrato social lhe escapam e pelo pacto com a morte que parece ter realizado com Nunu, a antiga governanta da casa e que desempenha, na trama, o lúgubre papel sapiencial dos que estão além do véu das coisas palpáveis.
Nunu é apresentada como alguém que ficou na casa de Eszter porque ocupou o papel social da matrona. Veste-se de negro da manhã à noite, e é a única que, desde o início da obra e em meio às vítimas de Lajos, parece saber o que traz este de volta à casa.

No fim, Lajos, além e acima de todos os limites, reconhece que até direitos possuem limites, mas, no seu caso, os da prescrição, ou seja, em seu benefício. Em sua intimidade com os demais ele não reconhece limites, ou os flexiona até o ponto de ruptura...

Para Eszter, ainda que em um momento patético quanto ao que Lajos sentia por ela, ele era tão bom no que fazia que conseguia "mentir inclusive com fatos", e nisso Márai foi grandioso, não sacrificou a frágil integridade de Eszter a um enlace de redenção passional. Como Lajos diz-lhe: "Uma mulher, uma mulher. (...) Trata-se de você, Eszter. Trata-se de você".

O livro tem um tom que lembra os das peças de teatro, com diálogos rápidos e reflexões monologais. A moralidade que perpassa a obra demonstra a separação, nas relações humanas, entre o legal e o legítimo, e em que a fé é a dos espaços sociais, a crença de que se pode contar em ser algoz, pois a mesa da vítima já está posta. 

Vale muito a leitura. 

O Legado de Eszter, de Sándor Márai. Escrito em 1938.
Cia das Letras
Trad.: Paulo Schiller


Cartão Postal - Hungria, década de 1930

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Impressões sobre ASSOCIAÇÃO ROBERT WALSER PARA SÓSIAS ANÔNIMOS

ASSOCIAÇÃO ROBERT WALSER PARA SÓSIAS ANÔNIMOS

CEPE
226 p.
2015
Lido no Kindle

O primeiro romance do autor Tadeu Sarmento é contado em duas frentes, digamos assim. Uma na cidade paraguaia de Nueva Königsberg, e a outra dentro de um clube - a associação - para sósias.

A associação lembra mais - tanto pelo tom do texto como pelas práticas adotadas pelo sósia Hussein - um espaço para desintoxicação, algo como um "narcóticos anônimos". O sósia  do filho do ditador, cujas práticas mais remetem às de um professor em um acampamento, tenta levar os demais membros a práticas capazes de fazerem com que eles retornem a suas identidades originais - ou assim parece ser.
Achei isso genial - um sósia que se apaga de si mesmo.
Nesse momento da narrativa - em relação ao tempo cronológico, mesmo - a história é contada em primeira pessoa por um sósia que apenas se deixou tornar (como o escritor apagado, que lembra a Chiquinha do Chaves, com seu bigodinho abrilhantado por manteiga) o próprio Robert Walser - prolífico, mas esquecido pela posteridade - porque se apaixonou por uma garota que viu em um sebo, e se deixou levar pela ideia de desaparecer e tomar o lugar do escritor cujos livros ela buscava com tanta intensidade...



Em outro momento e espaço geográfico, mas sob um calor danado, vemos a chegada do filósofo Jean-Baptiste Botul à também fictícia Nueva Königsberg, no Paraguai, a qual abriga sósias de Kant - e estes fazem sua notória promenade sempre às 14h, faça chuva ou faça sol. Esse trecho do livro se passa na década de 60 do século XX, momento de intensa caçada a nazistas no cone sul, e Botul vai à cidade não apenas como um filósofo que faria conferências, mas também como um aparente caçador de nazistas.
Esse cenário da obra foi o que mais gostei. Aqui a história é contada em terceira pessoa, e captei aqui um misto de gêneros: das narrativas de fantasia quando o grupo de heróis entra em uma taverna, das histórias de caçadores de recompensa - modernas ou de faroeste - e do simples discutir filosófico sobre a vida. 
Um exemplo e uma síntese do que acima menciono é quando Sobol, em Nueva Königsberg, ao experimentar uma cerveja recém produzida, ao mesmo tempo sente raiva ao elucubrar sobre atos homicidas - ou seriam heroicos? De repente ele percebe que a cerveja não estava boa o suficiente para enviar para "A Coruja de Minerva" - a tal da taverna (mais uma estalagem). Ela havia azedado, concluiu o mestre-cervejeiro. Foi um boa mostra de como nossa percepção de mundo é temperada pelas nossas emoções.

A associação, por seu turno, possui muitos diálogos nos quais os personagens soltam frases de efeito praticamente toda vez em que aparecem - em especial Mark (sim, o Chapman). Há passagens geniais, ainda assim: a relação entre Mark e Lennon, que fingem não se incomodar, mas nunca estão no mesmo cômodo ao mesmo tempo; o aparecimento de sósias de badalados famosos que logo vão embora porque o local não era o ambiente festivo e de flerte que imaginaram; as elucubrações do narrador sobre a garota e sobre o que o levou a estar ali, e se seria possível retornar a(o) que(m) era.

Outra coisa que me incomodou foi que a narração em primeira pessoa tem uma sintaxe e performance muito aproximada da fala dos personagens que estão na associação, e até mesmo o tom dos diálogos é bem parecido, pois as frases de efeitos não são ditas apenas pelo sósia Mark. Antes fosse estilo indireto livre, mas isso permeia diversas falas, como mencionei. Creio que essa caricatura tenha sido proposital até determinado ponto, contudo a linha do exagero foi ultrapassada.

Quanto à narrativa, um dos capítulos de que mais gostei foi "o coração machucado como um pêssego, no qual o autor nos mostra como se perder na própria vida, sem chance de ser redescoberto e sem esperanças de que alguém peça resgate. Nesse capítulo o autor faz um paralelo entre a vida do sósia de Udai Hussein e determinadas escolhas que (se) faz(emos) na vida. Aqui fica claro para mim como podemos agir de forma neurótica para agradarmos alguém aquela parcela de nossa alma que quer agradar alguém. Solidão, carência, ambição, falso-amor... Quando não somos nós mesmos, e observando as escolhas em retrospectiva, o que de memória ainda queremos preservar?

Algo de que também gostei, e com a qual me identifiquei, por ser fã deste autor, é que a história tem um pouco dos absurdos e dos questionamentos existenciais trazidos nos livros do Enrique Vila-Matas (por falar nele, estou me devendo ler a coleção de contos Vampire in Love - reunião de contos em uma edição inglesa -, o romance Mac e seu Contratempo - pela Cia das Letras em 2018 - e Não há lugar para lógica em Kassel - pela ausente Kosac&Naify em 2015).

Vou poupá-los dos spoilers pesados, mas vou dizer que: Saddam não é quem parece ser, as linhas narrativas têm uma convergência, Lennon e Chapman têm novamente um encontro mortal.

Esse é o primeiro romance publicado de Tadeu Sarmento. Vale a leitura.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Impressões sobre o livro de contos Na Outra Margem, O Leviatã




Às vezes fico tentado a adquirir "Os melhores contos..." de um determinado autor - de que gosto; desconhecido, mas por cuja obra tenho curiosidade etc.

Percebi, contudo, que os melhores contos nem sempre devem vir todos juntos em uma mesma obra - embalados a vácuo e no frigorífico de algum supermercado. Uma melhor experiência a respeito da composição autoral e do diálogo de determinado conto "sensacional" deveria ser desfrutada na leitura da obra em que o conto teve sua gênese. 

Enxergo isso nos contos de Sidney Rocha; em Guimarães Rosa e em alguns livros de contos do Stephen King - porque neste autor a reunião de alguns é gratuita, simplesmente contos muito grandes para serem lançados em revistas como "contos" e pequenos demais para os padrões editoriais para sair como livro, e eles não tem coragem de chamá-los de "novela". 

A reunião de contos sobre a qual quero despejar minhas impressões tem essa qualidade de fazer parte de um universo - música de galáxia ao fundo - e me levou a um caminhar cheio de incertezas e de questionamentos enquanto eu vestia os calçados de seus personagens.

Falo de Na Outra Margem, o Leviatã (Ed. Lote 42, 112 páginas, 2018 - belíssima diagramação), do autor e acadêmico Cristhiano Aguiar.

Parece-me óbvio que alguns fatos no livro surgiram de experiências pelas quais o autor passou após sua chegada em São Paulo - Cristhiano é de Campina Grande, na Paraíba e morou por algum tempo em Recife-PE antes de cursar seu Doutorado em São Paulo -, e muito também de histórias orais e tradicionais do ambiente rural.

No ambiente urbano, destaco o Edifício Hannah quase como um personagem dentro de outro personagem, a própria cidade de São Paulo. No condomínio se passam algumas das histórias, e nelas me senti transportado para uma outra dimensão, na qual os pensamentos ganhavam vida de maneira objetiva e isso não era novidade para ninguém - repito, foi minha impressão subjetiva, como se algo de realismo fantástico pairasse dentro de mim mesmo enquanto lia a obra...

O primeiro conto são pequenas estórias - Miniatura.
  Em Um Piano no Domingo, a execução da música conduz o narrador a explorar um pouco seu olhar sobre os vizinhos e  aspectos antes não percebidos desse dia da semana tão fora do tempo. Somos submetidos a uma estranha contemporaneidade, pois o recorte parece uma descrição de alguém isolado em meio a recente pandemia do Covid-19 - para mim, no conto há também um índice de modernidade retirada da frase de Karl Marx utilizada por Marshall Berman no título do seu livro Tudo que é Sólido Desmancha no Ar: aqui não há a alegria dos músicos profissionais e/ou amadores em dividir suas imperfeitas execuções instrumentais com varandas e janelas solitárias e na expectativa de compartilhar algo em comum em meio ao isolamento - no mínimo calor humano, reconhecimento do sofrimento que nos é comum. Não, no conto vemos uma fotografia ou quadro que é a síntese de uma classe média urbana (a "negra de vestido branco limpava a janela", o idoso em cadeira de rodas que contemplava - o vazio? - pela janela) que irá colapsar ao primeiro sinal de crise.
  Em Tua Presença gostei do uso das metáforas. Elas contextualizam, em certos momentos, a cenografia, e dão impulso à narrativa, sem ser necessário uso de ação, como no "baú de coisas ausentes".
  Naturae me brindou com o realismo fantástico de que falei. As alegorias funcionam como gestos no ar que parecem passe de mágica; a rachadura no reflexo do espelho é uma distorção que a pessoa enxerga em si própria, não inata, mas fruto de sua vida vivida, sejam quais forem os percalços - "a rachadura sempre existiu ali".
  Em Trappist-1 o faxineiro me mostrou o tempo e a insignificância da duração de uma única vida.

Já no conto Recortes de Hannah, Lina e Lucas se conhecem em um elevador que acabara de quebrar. Enquanto conversam sobre como chegaram ali e o que fazem, lemos recortes de outras situações vividas por eles. Senti a existência da persona, da imagem a ser mostrada para os outros, um flerte com o inconsciente e com a psicanálise - "Ali, seu pai sempre vencia", no conflito de Lina com a forte presença da memória do pai, mesmo este em cadeira de rodas.
O insólito não estava na Graphic Novel escrita por Lucas, mas sim em uma cena em que dois monges barbeiam um mendigo - Caetano, figura que reaparece no ótimo conto Desaparecido - sobre como uma metrópole pode engolir, digerir parcialmente e regurgitar alguém em seu processo de loucura.
Na verdade Lina é quem entra em "pane" no seu encontro com o pai, e Lucas é quem vive uma situação insólita dentro do elevador.

Senti, no conto O Laboratório do Senhor Mosch Terpin, uma mudança na voz narrativa em cumplicidade com Faustine, personagem do miniconto Naturae. Foi o conto de que menos gostei, mas tem excelentes elipses - especialmente quanto ao tio Henrique do Natanael - e, como em outros recortes, referências à cultura pop.

Os Recém-Nascidos traz outro conflito de Faustine com seu passado, dessa vez por descobrir que seu avô era um fazendeiro/coronel que ajudava a ditadura e participou ativamente de sessões de tortura. Sua história é entremeada com a do professor Estêvão e da relação deste com sua mãe, cuja memória desperta ao escrever na lousa a frase de um poema, "Na voz quieta / O nascimento de criaturas marinhas". A recordação deles na praia em meio ao nascimento das tartarugas é de um lirismo bem legal, porém com um fundo pessimista que dá o tom da relação vivida por Estêvão com seus familiares. Há, no fim, uma conexão entre Estêvão e Faustine, mas me pareceu um pouco fora de propósito isso ter ocorrido no conto. As duas histórias poderiam ser contos separados sobre cada um dos personagens.

Terasa eu li e reli. Foi o conto de que mais gostei. Possui um lirismo não usado em outros contos do livro. Creio que seja um dos contos mais maduros, junto com Desaparecido e Laviatã - justamente os três últimos. Há um dialogismo bem presente com obras clássicas, como o Velho Testamento (a mulher samaritana) e a Odisseia. (Tem um anagrama lá, coisa pra nerd feito eu descobrir: Esparta, p. 75).
Teresa vive sua vida com seu marido que retornou de São Paulo e parece ter arrumado alguns problemas ao amealhar seu quinhão de glória monetária para abrir um pequeno negócio na cidade natal. Enquanto isso, ela revive momentos de espera, leituras ao pé do sono, pássaros que abundam em silêncio. E somos apresentados aos poucos a uma tragédia que ocorre no lugar em que ela mora. Parece-me que já estava escrito pelos deuses.
Por coincidência eu escutava Echoes do Pink Floyd ao ler o conto, e repeti a faixa assim que repeti a leitura. 

E por coincidência também eu escutei Seamus e Shine on you Crazy Diamond (tem um cão no conto e um uivando na música Seamus, e Shine... bem, já diz tudo) ao ler Desaparecido, um recorte da história de Caetano, já mencionada acima.

Leviatã, outro excelente conto, tem duas estórias - Faustine na Planície e Natanael e o Rio.
Faustine na Planície, não só pelo título, mas também pelo tom, me lembrou do filme Pauline na Praia e das histórias congêneres do Eric Rohmer. Em uma ONG no interior (da Paraíba?) ela percebe que a ação humana, o verter humano sobre outro é barrado por questões burocráticas não apenas fora, mas principalmente dentro da atividade da organização. Em certo momento ela tem um contato com a natureza para além da apreensão subjetiva das coisas, mas ela se torna o seu redor. Uma cena de apenas dois parágrafos, escrita belamente.
Natanael e o Rio para mim foi o trecho mais bem escrito do livro. Uma aula de literatura, de como conquistar o leitor. Natanael tenta viver uma experiência, ao escrever um livro, com um mergulhador profissional no rio Tietê. Ele conta como foi a Lucas, o narrador, e a Faustine. Em determinado momento, já no rio, Natanael encontra algo que o transporta, mesmo que por poucos segundos, a um onde que parece mais o Reino Quântico do filme Homem Formiga, um portal para o por dentro do dentro das coisas. O mergulho em si tem um quê de história de pescador com espírito de pirata, e o desfecho é voltar para a barriga do monstro, a cidade.

Digo algo: leiam o livro. Cristhiano precisa nos brindar com mais de suas estórias, e as últimas desse livro têm uma grande chance de nos mostrar o que esperar de futuros trabalhos.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Bloodchild, novela de Octavia Butler

Como seria um homem grávido? Como seria sermos mantidos em um "cativeiro seguro" por outra espécie? Como é crescer em meio a isso em outro planeta? A autora não nos dá uma resposta definitiva, mas nos dá sua melhor resposta por meio da narrativa de Gan, o protagonista do conto.

Os seres humanos que conseguiram escapar da Terra se abrigaram em um planeta no qual já havia outra espécie inteligente, e há uma necessidade de compartilhamento até mesmo parasitário para a sobrevivência dessa espécie, os Tlic.

O texto narra um momento na vida da família de Gan, seu convívio com irmão e irmãs e a mãe, sua escolha como favorito pela líder dos Tlic, a busca pelo cumprimento de uma promessa feita no passado e a implicação de Gan nisso tudo. 

É uma história sobre crescimento, maturidade, escolhas, responsabilidade perante a vida, perante a morte. 

Octavia Butler é magistral na narrativa. Ela nos faz presente na pele de Gan, sentimos o que ele sente, respiramos suas angústias, seu desejo, dói na pele aquele tapa dado pelo irmão mais velho. 

Eu recomendo muito a leitura, especialmente porque, para além do apuro estético, Butler nos fala sobre convivência em meio à diferença, sobre a dor do outro e da miséria que somos capazes de impor a nós mesmos.

Ganhador, na categoria novella dos prêmios Hugo, Nebulla e Locus de ficção científica.

Lido no idioma original, no Kindle.
Editora Headline