sexta-feira, 5 de abril de 2019

Sonhos Elétricos


Philip K. Dick era há muitos anos, para mim, uma sombra que envolvia Blade Runner. Eu, com pouco menos de dez anos, quando via Blade Runner só para me excitar com a beleza loira de Daryl Hannah, não sabia que esse filme transformaria o que o gênero da ficção científica representa para mim - muito mais do que especulação,  o direito de sonhar pela humanidade, de o indivíduo ir além de seus limites por meio da tecnologia,  de pensarmos em um mundo que não deu certo e em como evitar isso, dentre outras questões.
Li poucos textos de PKD, mas eles têm essas questões que, como disse Nelson de Oliveira, falam de coisas e lugares, mas, essencialmente, de pessoas.
Os textos, os contos do livro Sonhos Elétricos flertam com diferentes gêneros. Parece um livro de contos do Stephen King, mas sem flertar com o terror tradicional. Há sim horror, horror cósmico a la Lovecraft. (Não vi ainda a série do Amazon Prime, mas me pareceu, pelo trailer, que as adaptações foram feitas com uma iluminação otimista, e o tom dos contos é algo mais para o dark/noir).
Só espero que vocês leiam antes de assistir a quaisquer dos episódios.
Ou melhor, não assistam, leiam.

Voltando a Blade Runner, o livro do caçador de ovelhas elétricas é muuuito bom. Ele na verdade serve como uma antecipação ao filme. São textos que dialogam entre si, e o roteiro do filme é excepcionalmente bem escrito.

Pintura de Emily Balivet


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Crônicas oníricas, mitos e contos

Comecei uma pós em Psicologia Analítica (Uniara Online).
Penso em escrever aqui um pouco do material que tenho apresentado durante o curso.
Estudamos nesse primeiro momento, que é o Módulo 2, a linguagem simbólica, os sonhos,  sua interpretação, a psique e suas funções, dentre outros conceitos formulados por Jung.
Como em um sonho desconexo, começamos pelo Módulo 2, e o Módulo 1, que é de introdução à Psicologia, veremos depois (não gostei disso, mas não quis desistir por esse motivo; penso que eu, que sou de outra área, posso dar conta).
Achei que minha especialização em Linguística Aplicada a Práticas Discursivas (Fafire) pudesse me dar um alicerce teórico agora, mas não; por outro lado, já me fornece um alicerce prático, em termos de Metodologia e práticas para trabalhos acadêmicos.
Em um próximo post, falarei sobre linguagem simbólica na visão da Psicologia Analítica. Em outro momento,  quero falar sobre o porquê de Jung e o que quero com esse ensinamento em minha vida.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Contido

Sou alinhado ao processo de busca pela eterna compreensão das coisas 

(isso está ligado ao Dasein heideggeriano? - creio que sim).
Perco-me em gostos e acho-me em caminhos diversos.
Já fui contido e autocontido.
Já professei, confessei, devassei e, após um não sei, sigo um caminho não marcado, mas bastante iluminado. Possui várias entradas e saídas, alguns umbrais umbigoides, guardiões solipsistas, mas sem retenções. Se as sombras se alongam, é porque a luz é intensa.
Gasto horas, dias, meses, anos... pareço não chegar a lugar algum, mas para se chegar ao cume não é necessário atravessar ao outro lado. 
Aprendi ou me ensinei a me desapegar de doutrinas que me continham; que procuravam, ainda que de boa-fé, me arrebanhar. Não falo de proselitismos, mas sim de um movimento que resvala o inconsciente - ou que é mesmo dessa qualidade - de se preferir o conforto de um dogma à liberdade de uma "eterna" busca - ainda que o horizonte pareça inatingível, ou por causa disso... a verdade tem limites (horos - limite).
Não nos limitemos.
Não nos deixemos ser contidos.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Encarcerados



Comecei a ler o romance de sci-fi do John Scalzi (autor do excelente Guerra do Velho) com a esperança de que não fosse apenas uma história que falasse da relação de robôs conscientes e humanos.

Os "Encarcerados" do título não são simples robôs, mas sim humanos acometidos por uma estranha gripe que provoca uma paralisia total do corpo, com a manutenção da consciência como em uma prisão. Por causa de mudanças na anatomia e fisiologia cerebrais provocadas pela doença, e com avanços científicos proporcionados pelos EUA e parceiros comerciais, androides foram criados para dar guarida à mente dos humanos encarcerados.
A doença também provocou a alteração no cérebro de pouco mais de dez mil humanos que se tornaram "integradores", ou seja, permitem que um encarcerado use o corpo desse humano, como se em uma possessão espírita, com a manutenção em segundo plano do integrador que ele possa dar suporte ao encarcerado e evitar que este faça algo estúpido ou seja ajudado quando não consiga ou tenha dificuldade para dominar o corpo ocupado. A premissa básica é essa.

A história é narrada em primeira pessoa, do ponto de vista de um encarcerado, ou haden -  em homenagem à Sra. Haden, a primeira dama dos Estados Unidos, e a encarcerada mais famosa - Chris Shane. Encarcerado quando criança, filho único de uma família rica, querendo independência e sem ter o que fazer após sua formação em Letras - o que é explicado no livro - ele opta por ingressar no FBI, onde foi recém-criado um departamento para resolução de crimes contra ou praticados por hadens.


A trama para mim foi muito óbvia, apesar das tentativas do autor de fazer reviravoltas e criar elipses quanto aos planos dos personagens para capturarem os antagonistas, algo típico de romances policiais de baixa qualidade - apesar disso, o livro é bem escrito, usa boas metáforas, tem diálogos interessantes e possui boa sequência detetivescas.


Um assassinato aparentemente cometido por um integrador em serviço - por isso o envolvimento do FBI - ocorre em Washington DC no período de entrada em vigor de uma lei que acaba ou reduz bastante os subsídios do governo para tudo relacionado aos haden. 


Uma greve nacional dos haden ocorre ao mesmo tempo em que uma passeata e reunião é realizada na capital dos EUA - algo que me remeteu aos Panteras Negras e a Marcha sobre Washington pelos Civil Rights (Direitos Humanos). 


Vários integradores aparecem mais como estofo do que para dar qualidade ao romance,  servem para fazer a história avançar - e me pergunto: se há apenas dez mil integradores no mundo todo, porque aparecem uns cinco em um período de uma semana e em espaço tão restrito? Foi bem conveniente.
Notei alguns clichês em relação a alguns personagens, e não falo dos empresários e políticos ricos que aparecem nem dos Navajos, mas dos policiais, agentes burocratas e outros. Além disso, o autor criou algumas frases de efeito e frases prontas que poderiam ser ditas por dois ou três personagens indistintamente. 


Uma das personagens mais bem construídas foi a da agente Vann, parceira Senior do protagonista. Ela é uma ex-integradora e sua relação com esse período é bem interessante. 

Tenho a impressão de que Scalzi escreveu o romance tendo como pressa um dos principais ingredientes. Os personagens quase sempre têm resposta pra tudo e de forma reativa.
Destaco os conflitos psicológicos de quatro personagens - Shane, Vann, Lucas Hubbard e Cassandra Bell. Não vou elaborar para não estragar.


A questão ética é bem presente no livro, e sempre mostrada, e não contada. Scalzi optou por narrar experiências nas quais os integradores são levados a limites; são postas questões humanas e materiais acerca da manutenção dos corpos dos hadens; o preconceito também é abordado, e também penso que houve clichês quanto a isso, mas a obra nos faz pensar sobre segregação, meritocracia, discurso de ódio.


A ficção científica hard é bem caracterizada no livro, com implicações e aplicações em linguagem de programação, neuroanatomia, economia e negócios.


A tradução feita por Patê Rissatti está primorosa, e a editora Aleph fez um bom trabalho de editoração e diagramação.

No final das contas, o livro é divertido, prende - porque você quer resolver os mistérios - mas a obra parece mais um jogo de tabuleiro para a geração "pera com leite", para a qual tudo deve ser bem mastigadinho e explicado.
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Ebook Kindle.
Editora Aleph.
328 páginas.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

"Olha uma última vez para cima"

Era uma vez um empresário do ramo de biscoitos e bolachas (para agradar a ambos...) que vendeu sua fábrica, aboletou-se para São Paulo para participar de um leilão de um super terreno em Recife (!), terreno da União, em que há (havia) galpões, trilhos de trem etc. Juntou-se a uma mega construtora, pagaram apenas cinquenta milhões de reais pelo terreno - arremataram-no! - e criaram um projeto, encampado pelo prefeito da cidade - no escurinho do cinema - para a construção de imóveis (torres) de luxo em uma área junto ao rio. Acreditando que essa área deveria ser preservada, posta a uso pela cidade como um todo, e que, em qualquer caso, deveria haver discussão prévia sobre o caso, o Movimento Cidade Plana (MCP) surgiu e foi debelado em uma ação totalitária pelas autoridades locais... isso poderia ser ficção, e é, mas não folclore. Wellington de Melo, em seu romance "Felicidade", nos mostra o que ocorre no MCP após a desocupação - quando então a cúpula do movimento decide agir: quarenta membros cometeriam suicídio atirando-se de diversos prédios espalhados pela cidade. 
No meio desse ato, surge Ademir, principal voz do livro. O enredo parece-nos mostrar, em meio à crítica social, as ações de Ademir e suas consequências. Ademir é Narciso, Ademir é Édipo cego, é o Osiris de Isis... quer paixão, reconhecimento, sua carência é palpável; sua revolta, um sofrimento dentro de si.
Ademir é personagem de seu amante, Ignácio; sua vida contada é uma traição imperdoável - há incesto, estupro, abandono afetivo, idolatria; ele quer a redenção com sua irmã/irmão Zê, a atenção de Ignácio, a cama com seu cliente Pedro. 
Pedro, esse misterioso personagem... segurança de rua ou "agente provocador"? Os dois. Pedro que surge para assombrar Ademir ou é o próprio Ademir em suas memórias bloqueadas? Essas dúvidas não respondidas in totum dão ao romance uma profundidade psicológica, põem Ademir a circular em nossa mente.
A descida de Ademir no redemoinho que se segue parece ter seu rosebud em um evento quando era criança, um jogo de futebol e as "brincadeiras" que envolvem a descoberta da sexualidade. O que desencadeia seus atos narrados no livro pode ter sido essa fixação e paixão (consumada ou não consumada? Consumida?) por sua irmã/irmão; ou a(s) traição(ões) de Ignácio - por minha vez, penso que Ignácio não é estopim, mas engrenagem.


O livro é dividido em três partes que se interpenetram, não lineares, aparentemente circulares.
Quero chamar essas impressões de "Notas sobre Felicidade":
Parte 1 - Beleza - metáforas de construções e espaços urbanos; "horizontalização" dos ricos, uma homogeneidade que remete a questões de gosto, Pierre Bourdieu.
Pra mim, a frase que resume a parte Beleza é "All memory has its price, baby", porque em inglês ficou melhor (p. 23).
A interação entre Mário, Ignácio e Ademir (este conhece Ignácio por meio de Mário) parece ser o ponto alto da primeira parte. Há uma voz ali que critica a literatura hoje, o "movimento literário", o culto aos autores de frases feitas. 
Há uma voz ali que quer agir, libertar-se do papel, atacar e sumir, covarde e provocadora. Provocou-me angústia, e isso me agradou muito.
Parte 2 - Julgamento - O diálogo entre Lorena (membro do MCP) e Ademir é quase metonímico: conversão, reconciliação, crença, morte. Palavras não ditas pro que só foi dito em parte. A morte os interrompe - só não sei se como tabu ou como omertá.
Entendi como se Ademir tivesse sofrido um estupro coletivo aos oito, nove anos. Isso seria uma justificativa do autor para a homossexualidade da personagem, para sua prostituição? ("Falo. Tudo que vem à boca, falo" - belíssima passagem).
Ademir parece ser apático ao Movimento Cidade Plana (MCP), apesar de ser um dos seus participantes e estar prestes a fazer seu salto de protesto.
Há um diálogo, o "é preciso seguir em frente", que só nos mostra como esse tipo de perlocução é falsa, como nos enganamos sobre o luto e sobre aquilo de que não queremos recordar. O reprimido é a História.
O encontro entre Ademir e Marcelo nos mostra que a praça de alimentação hoje é o altar dos templos do consumo. Uma procissão, uma reunião, uma comunhão.
Parte 3 - Misericórdia - O julgamento nas redes sociais nos perfis dos suicidas; os anjos caídos; como se enterravam os reis, rei Ignácio, nascido do 🔥; o tempo avança sem misericórdia; semente para fugir do nada; a perda do amor: sem Zê, Ademir não era nada nem ninguém - o alfa e o Ômega, de A a Z.
Essas notas me tomaram como assombração. Foram quase um fluxo do inconsciente. E por que não fazer crítica/resenha/apontamentos/gosto assim? Eu adorei! Não sou vinculado à academia - pelo menos de crítica literária - então me sinto e sou dono desse espaço. Sim, isso é uma justificativa ao método e aos haters...

Voltando ao romance.
Os perfis dos personagens de classe média alta que aparecem são estereotipados - pessoas fruto de uma educação patriarcal, machista e segregacionista. Não são, porém - e ainda bem - caricaturas. 
Os prédios antropomorfizados - eram as vivas (inertes, mas com vida apenas intestina) homenagens aos antigos proprietários das terras em que foram edificados. 
O MCP tem seu intento - para chamar atenção ou mesmo se implodir com o Ato - visto por inúmeras pessoas, mas estranhamente os noticiários são silentes. Ainda que haja uma ética de não se noticiarem suicídios, os atos do MCP são quase terroristas, no mínimo políticos.
A voz narrativa dominante, a de Ademir, coloca-nos sob o signo da ausência, ausência dos corpos, da verdade, ausência de si. A literatura nos mostra no outro, nos traz conhecimento e nos brinda com a possibilidade de sairmos mais sábios após as últimas páginas de um livro.
Li em algumas resenhas que Wellington pecou ao tentar realizar uma alegoria sem se aprofundar na crítica social. Como já afirmei antes, o romance não é folclore (nem uma cena do filme The Wall). A história de Ademir - tendo como pano de fundo a crítica político-social em relação à urbanização desenfreada do Recife, o controle do governo sobre a mídia local, a sociedade patriarcal - sobressai-se porque o indivíduo é, antes de tudo assujeitado - às ideologias, ao inconsciente, a seus traumas psicofísicos - tudo em meio a uma tentativa de se emancipar, ainda que desconhecida ou vã - como ocorreu com Ademir, pois ele parece se perder, desmanchar-se no(s) outro(s).
Por fim, Ademir se compromete com escolhas definitivas? 
Vai ler o livro!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Cavaletes (conto)

Sinto que me barraram em minha própria casa. Sinto, mas não muito.
Não consigo me aproximar, não que eu não tenha vontade; não tenho perdão.
Estava sobre cavaletes. Puídos e emprestados por Seu Jorge. Será que vai cair? Casa de cupim quando quebra todos correm; um caixão quando cai…
Já vai longe e tarde.
E quando todos saem, a casa fica. Eu fico na casa.


* Nota. O conto veio com uma ideia que tive durante minha ida no ônibus ao trabalho hoje pela manhã. Acrescentei palavras, limei outras, mas a forma não é esta aqui impressa. Creio que a forma dará, para mim, sentido ao que o narrador/personagem passa/é sujeitado. Ficou, na verdade, um microconto. Isso porque ele não está acabado, mas como não tenho pretensão capitalista com minha literatura, e sim narcísica, vou publicar o processo, as etapas e a conclusão, esta posteriormente. Simplesmente editarei essa postagem, ok, folks?


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Re//torno

Em torno da coisa (res).

A coisa volta.
A coisa do outro. A volta do outro.
O Outro.
Em torno da psicanálise lacaniana e seus termos herméticos - furo soprador; lalíngua, real, A, a, Outro, outro, sujeito barrado, verdade incognoscível (real?)...
Tergiverso. Antes em versos...
Mas suscito em mim uma curiosidade que vai além de minha análise, minha autoanálise - se isso for possível - uma conversa ao pé do inconsciente, uma impossibilidade.
Torno às coisas, ao preenchimento daquilo que, desde Joyce, tornou-se sinthoma, ou phanthoma, lalíngua posta em resto... Não há como se traçar a angústia.
(Retalhos.
Uma interessante HQ sobre adolescer, crescer, perder. Sobre impossibilidade).
Sou uma angústia de verso e anverso. Um lado mystique; outro, plastique.
Linguagem, discurso, desejo. O desejo que vai além da linguagem. A verdade que não é linguagem; o discurso que não é verdade; o desejo que toca o real, a verdade...


Rem
Em torno.